domingo, 16 de março de 2014

Paris é uma Festa

Paris é uma Festa é um livro do escritor americano Ernest Hemingway.
Todos aqueles que por aqui passam com alguma frequência saberão que Hemingway é dos nossos autores favoritos. O seu estilo é inconfundível. Como bon vivant que há-de ter sido o autor americano viajou, bebeu, amou, conheceu como poucos e as suas obras são – pelo menos daquelas que lemos, o reflexo de tudo isso: o rescaldo da I Guerra Mundial de Adeus às Armas, a Guerra Civil Espanhola de Por Quem os Sinos Dobram, as touradas de Pamplona de O Sol Nasce Sempre (Fiesta) ou a sua vida em Paris durante os anos vinte de Paris é uma Festa.
A escrita de Hemingway, de uma simplicidade fabulosa e profundamente auto-biográfica, tem a capacidade de transportar o autor para bem dentro da narrativa. Por isso, foi de forma extremamente realista que acompanhamos as deambulações do escritor americano na sua passagem pela Cidade Luz.
Em Paris é uma Festa somos confrontados com a centralidade cultural que o capital de França ocupava na primeira metade do século vinte. Escritores, pintores e todo o género de artistas confluíam para Paris, cidade que era o epicentro cultural mundial. Terão sido tempos admiráveis os que resultaram de uma guerra sangrenta e que consagraram o início de um processo de liberalização cultural. A Paris de Hemingway não é uma cidade de deboche e já não representa Belle Époque anterior à I Guerra Mundial mas deixa ainda transparecer o porquê da sua magnificência enquanto centro da cultura e dos seus vícios.
Hemingway foi um escritor sensacional. A vertigem com que viveu a sua vida tê-lo-á transportado longe demais. Mas a sua literatura é realisticamente belíssima e Paris é uma Festa um livro muitíssimo interessante.

domingo, 2 de março de 2014

O Castelo

O Castelo é um livro do escritor checo Franz Kafka.
Há muito tempo que não líamos nada de Kafka. O escritor checo, um dos mais talentosos do século passado, é um dos nossos favoritos. A capacidade de narrar o absurdo e ao mesmo tempo de abordar temáticas de uma profundidade metafórica avassaladora faz de Kafka um dos nomes maiores da literatura.
O Castelo é, à semelhança de O Processo, uma das obras inacabadas do escritor checo. Livro muito complexo e que, em muitos momentos, faz lembrar as obras de Camus pelo absurdo e pelo lugar menor que a narrativa ocupa no texto. A compreensão deste livro, para nós, talvez não tivesse sido possível sem a leitura dos posfácios de Max Brod (amigo de Kafka que irá publicar o seu trabalho) e que constam da edição dos Livros do Brasil que tivemos oportunidade de ler.
O Castelo e O Processo não têm como única semelhança o facto de serem obras inacabadas. Existindo semelhanças podem os livros, ao mesmo tempo, ser as duas faces da mesma moeda. Lendo um e outro fomos confrontados com outras similitudes: a luta contra o desconhecido; o mundo labiríntico em que a personagem principal se vê incluída; o nome da personagem principal. Mas Max Brod também nos chama a atenção para as diferenças: «n’O Processo, o herói é perseguido por invisíveis e misteriosas autoridades, ao passo que n’O Castelo, são essas mesmas autoridades que o repelem. Josef K. esconde-se, foge; K. importuna, ataca». Para Brod, O Processo e O Castelo representam, respectivamente, «as duas formas sob que se nos apresenta a divindade (no sentido da Cabala): o Juízo e a Graça.»
Os livros não são todos iguais e os autores também não. A literatura assume diversas dimensões. Kafka, e as suas obras, (à semelhança de muitos outros autores) não pode ser compreendido sem ser estudado. Só nos poderemos aperceber do génio quando entendemos, em toda a sua plenitude, os significados intrínsecos da mente genial do autor, quando culturalmente somos capazes de entender o curso metafórico da narrativa e a acepção simbólica do discurso.
O Castelo é um livro difícil. Na nossa leitura fomos, à medida que o tempo passava, complicando a sua interpretação na medida em que a prolongámos por demasiado tempo. Kafka é um autor muito complexo. Talvez precisemos de auxílio quando um dia voltarmos à leitura das suas obras. Se não é para compreender o discurso de um autor e o que ele pretende dizer então talvez não valha a pena lermos os seus livros.