quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

No Princípio Estava o Mar

No Princípio Estava o Mar é um livro do escritor/viajante português Gonçalo Cadilhe.
Quem com maior frequência acompanha o nosso blogue sabe que temos uma especial predilecção pelos livros de Gonçalo Cadilhe o mais famoso dos viajantes portugueses do nosso tempo. Os seus livros são bálsamos que tomamos sempre que as saudades da fuga nos toldam os sentidos e é neles que encontramos momentos de rara alegria e felicidade.
No Princípio Estava o Mar também é um livro de viagens. Também porque é, sobretudo, um livro sobre surf, ondas e mar, temática que desconhecemos quase por completo e que, à partida, não nos faria comprar o livro. Não fosse Gonçalo Cadilhe e não teríamos visitado esta obra.
No Princípio Estava o Mar é uma colectânea de textos publicados pelo Cadilhe ao longo dos últimos quase 20 anos em que se conjugam viagens e surf e nos permite obter – para nós que de maneira nenhuma estamos relacionados com a prática de surf – uma visão pelo íntimo de um surfista. Cadilhe, como sabemos, combina com qualidade a prosa com a poesia pelo que os seus textos emanam sempre uma radiosa – e aparentemente genuína – felicidade. Por isso, foi para nós um prazer acompanhar, com Cadilhe, as melhores ondas do mundo e todo o jargão técnico.
No Princípio Estava o Mar é um livro muito diferente dos restantes que já tivemos oportunidade de ler. Para os surfistas será uma fonte de inesgotável prazer. Para os outros – os que gostam de ler Cadilhe – será uma agradável surpresa.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Inverno do Mundo

O Inverno do Mundo é o segundo livro da trilogia O Século do escritor britânico Ken Follett.
Tivemos, no início do segundo trimestre do ano passado, a oportunidade de ler o primeiro volume desta trilogia: A Queda dos Gigantes. Na altura esse livro não nos deixou a melhor impressão. Embora fosse um romance histórico (género que apreciamos) a verdade é que nos parecia existir alguma falta de cuidado na construção da narrativa. O período escolhido para esta série – o século XX – é relativamente conhecido por muitos leitores o que dificulta a vida de quem escreve. Algumas referências a personagens e factos históricos eram desnecessários.
As coisas não se alteram significativamente neste O Inverno do Mundo. Follett escreve livros como se fossem novelas. Capítulos relativamente curtos quase sempre com a dose certa de suspense. Essa é uma velha fórmula capaz de cativar quase todos os leitores. Connosco não é substancialmente diferente.
Muitas das personagens mantém-se em relação ao primeiro volume. Outras surgem (nomeadamente os descendentes dos primeiros). Cumprem todas um papel central na história do século XX: lutam na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial, assistem à ascensão de Hitler ao poder ou acompanham o desenvolvimento da bomba atómica. Claro que no domínio de um romance tudo é possível mas para leitores mais exigentes a narrativa não é verosímil. Pessoalmente, quando lemos um romance histórico, gostamos que a construção da narrativa pareça provável. Isto não acontece com esta trilogia de Follett.
Note-se que, e apesar de tudo, a leitura até nos pareceu mais agradável do que a do primeiro livro. As personagens são interessantes e ficámos interessados no desenrolar dos acontecimentos. Ademais, nem sempre se nota o preconceito moral do autor na discrição dos factos que norteiam a história do século XX.
O Inverno do Mundo não é um livro extraordinário. No entanto, se não partirmos com grandes expectativas, torna-se uma leitura leve e agravável que permite passar bons momentos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Viagens e Outras Viagens

Viagens e Outras Viagens é um livro do escritor italiano Antonio Tabucchi.
Não obstante o facto de ter nascido em Itália, Tabucchi está indelevelmente marcado por Portugal, não apenas por ter vivido no nosso país e de aqui ter constituído família, mas também por ter sido um dos grandes conhecedores da literatura portuguesa e em especial de Fernando Pessoa.
Não conhecemos a extensa obra de Tabucchi que vai desde os contos ao romance, passando pelo teatro e pela ficção e foi com grande surpresa que encontrámos este Viagens e Outras Viagens e que nos sentimos cativados desde a primeira página.
Este é, como o próprio nome indica, um livro de viagens. No entanto, e ao contrário do que é possível encontrar em tanta literatura deste género que tem sido publicada em Portugal nos últimos anos (felizmente) esta obra de Tabucchi é bastante diferente na medida em que reúne pequeníssimos artigos (ou talvez mesmo apenas meros apontamentos) sobre um conjunto muito significativo de viagens que o autor foi fazendo ao longo da sua muito preenchida vida e das relações este encontrava com fragmentos ou textos completos dos mais variados autores da literatura universal. É neste particular (na inspiração literária, na invasão de textos alheios) que Tabucchi nos transporta num fabuloso itinerário que desejamos nunca acabar.
O escritor italiano escrevia com uma tranquilidade melódica e a simplicidade das suas ideias e a clareza do seu pensamento conquista-nos e completa-nos com uma profundidade dolorosa mas ao mesmo tempo intrinsecamente doce.
Viagens e Outras Viagens é um livro extraordinário que merece ser conhecido e lido por todos aqueles que gostam da melhor literatura. Já quanto a Tabucchi: é para regressar à sua arte o quanto antes.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Orlando

Orlando é um magnífico livro da escritora britânica Virginia Woolf.
Publicado pela primeira vez em 1928, Orlando é um extraordinário livro e é, de acordo com os críticos, uma semi-biografia inspirado numa amiga de Virginia Woolf, Vita Sackville-West.
Orlando, na sua duplicidade sexual – homem e mulher –, é uma personagem fascinante que Virginia Woolf nos biografa ao longo dos seus 350 anos e que acompanha as idades moderna e contemporânea inglesa. As suas aventuras, os seus amores, as suas dúvidas e ensejos são objecto de uma séria mas ao mesmo tempo divertida narrativa que nos prende desde a primeira página.
Virginia Woolf, dotada de uma imensa capacidade de bem escrever, transporta-nos para um mundo onde o real se confunde com o mágico e onde a penumbra dos duplos sentidos não ofusca o brilhantismo da prosa nem a profundidade que se encontra nas sumulas verdadeiramente filosóficas que cotejam todo o livro.
Orlando é uma obra fantástica e tem sido objecto dos mais variados projectos interpretativos desde a sua publicação uma vez que é, em muitos momentos e até de forma global, de leitura dúbia, não apenas pela ambiguidade em relação ao género da personagem principal mas também devido ao facto de ser de difícil enquadrar cronologicamente. Não obstante, os obstáculos não são inultrapassáveis e qualquer leitor poderá beneficiar, mais do que não seja, da beleza da escrita da autora.
Orlando é um enormíssimo livro de uma das mais relevantes escritoras do século XX e que merece, e muito, ser lido e relido.