quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Literatura Nazi nas Américas

A Literatura Nazi nas Américas é um livro do escritor chileno Roberto Bolaño.
Bolaño, cujo nome ressoa profundamente na literatura da actualidade (sobretudo depois do sucesso de 2666), era um escritor grandemente marcado pelas circunstâncias em que cresceu e se desenvolveu. À semelhança de outros escritores chilenos (afectos aos partidos de inspiração marxista-leninista) foi profundamente marcado pelo regime de Salvador Allende e pela ditadura de Augusto Pinochet.
A Literatura Nazi nas Américas sofre, no nosso entendimento, dessas influências. Sendo um livro marcado por esse facto não deixa de constituir uma obra muito original e interessante de seguir. A ideia de traçar o perfil bibliográfico de escritores sul-americanos apoiantes do ideário nazi está muitíssimo bem construída e desenvolvida. As personagens, embora inventadas, são inspiradas em individualidades reais e são o reflexo de uma visão sobre o totalitarismo nazi. Apesar do quadro negro em que são pintadas estas figuras não são o mero fruto de uma visão maniqueísta sobre o mundo mas o arquétipo representativos da realidade.
A Literatura Nazi nas Américas é um óptimo e singular livro que desenvolve uma ideia excepcional e é sem dúvida uma obra a ler.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis

O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma obra do escritor português José Saramago.
Este romance, cuja primeira edição data de 1984, é uma original obra inspirada (e tendo como personagem principal) um dos heterónimos de Fernando Pessoa, um dos mais fascinantes escritores da língua portuguesa.
José Saramago foi um escritor com uma imaginação particularmente rica. Muitas das suas obras são a sua versão de temas clássicos da literatura contemporânea mas outras têm um traço que lhes confere verdadeira singularidade. É o que se passa com este romance. Ricardo Reis, vindo do Brasil, chega a Portugal pouco tempo depois da morte de Fernando Pessoa e com este mantém um conjunto de conversas até ao desaparecimento final de ambos.
Para além da singularidade própria desta obra é também particularmente interessante a forma como Saramago conseguiu introduzir a baixa lisboeta neste texto (de forma sempre sugestiva) bem como a maneira como trata alguns dos mais importantes problemas políticos da década de trinta, desde a guerra civil espanhola ao consolidar do salazarismo em Portugal.
Não obstante as leituras políticas (que o próprio Saramago foi salientando e enaltecendo em várias publicações posteriores à primeira edição da obra), encontramos também um dos temas favoritos do escritor português, o amor. Neste livro, numa dupla acepção: um amor físico, ou carnal, que se concretiza e desenvolve; um amor visceral, profundo mas levemente correspondido.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é um livro menos fácil do que uma leitura superficial pode aparentar. Compreender esta obra de Saramago significa ao mesmo tempo conhecer a obra de Fernando Pessoa (através do seu heterónimo) e as especificidades próprias de um espírito superior. Saramago não se limita a utilizar o trabalho de Pessoa, reinterpreta-o e reinventa-o. Daí a profusão de estudos e artigos publicados sobre esta obra.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é um grande livro, dos melhores que tivemos oportunidade de ler até hoje da autoria de José Saramago. A sua leitura pode não só propiciar um gozo tremendo através de uma narrativa que nos prende mas também o privilégio de sabermos estar a contactar com um génio da literatura mundial. Sem dúvida a ler!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Jerusalém, Ida e Volta

Jerusalém, Ida e Volta é um livro do escritor norte-americano e vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1976 Saul Bellow.
Jerusalém, Ida e Volta faz parte dos excelentes livros de viagem publicados pela editora Tinta da China numa colecção coordenada pelo jornalista Carlos Vaz Marques que prefacia também esta obra do escritor norte-americano de origem judia.
Neste livro Saul Bellow, Nobel da Literatura em 1976, conduz-nos numa viagem por Israel e mais especificamente por Jerusalém. Ao longo das fabulosas quase trezentas páginas, brilhantemente construídas e escritas, Bellow transporta-nos para bem dentro dos meandros das discussões políticas em torno de um dos mais complexos temas da política internacional, o conflito israelo-árabe.
O tema, abordado tendo em consideração o contexto temporal da viagem (o livro é escrito em meados dos anos 70), é prolixo em divergências interpretativas e não é acessível para quem não domina o assunto. Não deixa, porém, de ser interessante o método de escrita, fundado nos encontros e entrevistas do autor a personalidades distintas e fundamentais para a compreensão das práticas diplomáticas e das opções políticas.
Bellow pareceu-nos um grande escritor não obstante o facto de não ser este o melhor livro para apurar da totalidade das suas qualidades literárias. Ainda assim o traço simples mas perfumado que vamos encontrando ao longo da obra é auspicioso.
Jerusalém, Ida e Volta não é o típico livro de viagens mas é, ao mesmo tempo, um excelente livro sobre política. A fusão destas realidades faz deste uma excelente escolha.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Por Quem os Sinos Dobram

Por Quem os Sinos Dobram é um livro do escritor americano Ernest Hemingway, um dos mais notáveis autores do século XX.
Por Quem os Sinos Dobram narra um episódio na vida de Robert Jordan, americano, soldado durante a Guerra Civil Espanhola, um dos momentos históricos mais intensamente trabalhados pela intelectualidade revolucionária ocidental.
Hemingway é um autor peculiar. Muitas vezes, as cenas dos seus romances parecem despojadas de intensidade, como se atiradas para uma fogueira como um galho. As personagens dos seus livros, os ambientes, o contexto da narrativa quase parecem menores mas quando completamos a leitura de uma das suas obras sabemos e compreendemos o impacto que a sua simplicidade de estilo tem na construção de romances fabulosos.
É o que acontece com Por Quem os Sinos Dobram. Durante mais de 500 páginas Hemingway transporta-nos para uma temática que é claramente da sua preferência, a da guerra (veja-se o caso de outro dos seus mais emblemáticos romances Adeus às Armas) e não o faz de forma poética antes optando por narrar um episódio de grande intensidade emocional, repleto das agruras próprias de uma guerra brutal. Ao mesmo tempo transporta-nos para um dos mais complexos e (pelo menos para nós) desconhecidos acontecimentos político-militares da história do século XX, a Guerra Civil Espanhola.
Por Quem os Sinos Dobram é um romance verdadeiramente magnífico e, daqueles que tivemos oportunidade de ler da autoria de Hemingway, o que mais nos cativou. Esta é uma obra de grande intensidade. A brevidade temporal em que decorre confere-lhe uma especial velocidade, tudo se passa como se já tivesse acontecido, como se tivesse tido urgência em inexistir. Esta é uma leitura a não perder, um livro extraordinário!