quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

David Copperfield

David Copperfield é um livro do inglês Charles Dickens.
Há livros que nos acompanham por algum tempo e que quando os deixamos começamos a sentir um género de tristeza e saudade. David Copperfield é um desses livros!
A primeira vez que tivemos oportunidade de ler Dickens foi numa edição, no original, de Oliver Twist, uma extraordinária história sobre as aventuras de um jovem rapaz numa sociedade industrializada. Em Oliver Twist, mais do que a mera descrição de factos, sobressai o brilhantismo na construção das personagens.
David Copperfield lemos numa fantástica edição da Relógio D’Água e em língua portuguesa com todas as vantagens que isso acarreta em termos de compreensão integrar do conteúdo da narrativa.
David Copperfield é um livro fantástico e uma das obras que mais nos deu prazer ler até hoje. Muito do que é a literatura está relacionado com os sentimentos que desperta. Por vezes, livros fracos (mas emotivos) transportam-nos para um patamar de satisfação superior sendo certo, porém, que o contrário também acontece: bons livros, pela qualidade da narrativa, pela imaginação do autor, pelo brilhantismo da escrita, mas que são incapazes de nos elevar para patamares superiores. David Copperfield é um excelente livro em todos os sentidos. Uma narrativa primorosa, personagens apaixonantes, cenários brilhantemente pintados e emoção, ao longo de todas as mais de 750 páginas desta obra monumental.
Dickens, um dos maiores escritores de língua inglesa de todos os tempos, reflectia com rigor muitas das características literárias do seu século. Ao mesmo tempo, homem deveras dotado na arte da escrita, era capaz de nos transportar no seu sonho e encantar-nos com personagens verdadeiramente pueris, encantadoras, brilhantemente construídas. Talvez seja este o verdadeiro triunfo de Dickens: personagens esculpidas a cinzel, com as quais nos identificamos, sofremos e rimos. Se não é este o prazer que retiramos da leitura de um romance, o que será então? Em David Copperfield, para além da personagem principal que tem por nome o título do livro encontramos ainda o padrasto Murdstone, o colega de escola Steerforth, o arqui-rival Uriah Heep, a doce Dora, a fantástica tia Betsey, o inigualável Micawber, a fabulosa Agnes e um rol de muitas outras personagens que acompanham a vida de David Copperfield desde o seu nascimento até à sua vida adulta.
Não deixa de ser verdade que David Copperfield se enquadra dentro da tipicidade que encontramos na luta entre o bem e mal. Há personagens que personificam a maldade, o descrédito, a violência e outras onde só quase conseguimos encontrar virtudes. O mundo dificilmente é a preto e branco e, neste aspecto, o livro poderia estar mais bem equilibrado porque, efectivamente, algumas personagens, tão boas que são, não se assemelham a nada que encontremos na realidade.
Não obstante, e uma vez que não existem livros perfeitos, podemos talvez afirmar que este romance de Dickens se aproxima muito desse inalcançável requinte. Este foi, seguramente, um dos melhores e mais emocionantes romances que lemos nos últimos dez anos e para sempre ficará na nossa memória.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A Violência e o Escárnio

A Violência e o Escárnio é um livro de Albert Cossery, escritor nascido no Cairo, editado pela Antígona.
Cossery é um dos mais interessantes escritores que temos tido oportunidade de ler. As suas obras – escassas, porque aparentemente o autor era bastante ocioso – caem fora das habituais temáticas da literatura mais comercial.
Em A Violência e o Escárnio debate-se a forma de intervenção na problemática política. As personagens que assumem a primazia na narrativa optam por encarar os políticos e o exercício da governação como uma verdadeira paródia. Estando em forte oposição aos governantes da sua cidade estas personagens, ao invés de optarem pela tentativa de derrube destes através do exercício da violência escolhem o escárnio, a troça, a zombaria numa tentativa, irónica, de ultrapassagem dos próprios partidários do regime e de os ridiculizar.
A escrita de Cossery é de grande simplicidade e os seus livros lêem-se com enorme facilidade não obstante o facto de reflectirem questões de alguma complexidade como é o caso desta obra. As suas personagens, que são o espelho de uma sociedade peculiar e, não obstante o facto de ser possível traçar a sua orientação geográfica e a limitação temporal, poderiam ser uma imagem perfeita de várias latitudes e momentos cronológicos.
A Violência e o Escárnio é um grande e delicioso livro e Albert Cossery um dos escritores mais interessantes do século XX. Esta é uma obra que, definitivamente, aconselhamos.