domingo, 29 de dezembro de 2013

Martin Eden

Martin Eden é um livro do escritor americano Jack London, um dos mais brilhantes autores do século XX.
Jack London, escritor que desconhecíamos, apresenta-se com este Martim Eden (romance autobiográfico) como uma estrela verdadeiramente brilhante. A personagem principal (que dá título ao livro) é um jovem ambicioso, trabalhador, tenaz e profundamente ingénuo. É, precisamente a sua ingenuidade, que faz desta uma obra verdadeiramente admirável.
Os estudiosos de London e da sua obra entendem que Martim Eden representa a figura intelectual do seu criador e vêm nesta obra uma recriação autobiográfica. No entanto, vêm mais do que isso porque entendem, ao mesmo tempo, que Martim Eden um ataque à burguesia e aos valores do individualismo não obstante o facto de reconhecerem que o curso da narrativa possa propiciar leituras diferentes.
Jack London escrevia deliciosamente. É interessante verificar como o autor nos prende desde a primeira à última página e como nos faz apaixonar pelo herói. Mas o livro é muito mais do que isso na medida em que está repleto de rastilhos que permitem compreender muito daquelas que eram as discussões de natureza cultural/filosófica da transição entre oitocentos e novecentos. Em alguns momentos – e embora duvidemos que essa fosse a intenção do autor – a personagem principal assume laivos de verdadeiro pedantismo intelectual à medida que se vai sentindo cada vez mais só face a um talento não reconhecido pelos cânones de uma intelectualidade que o mesmo considera bacoca e ultrapassada e que se limitava à repetição exaustiva de lugares-comuns e ideias vazias.
Martim Eden é uma obra admirável de um autor de excepção. Não obstante o facto de o autor estar bem traduzido pela Antígona a verdade é que estamos em crer que o seu talento ainda é por muitos completamente ignorado. Este livro é de leitura muito recomendada e oferece a promessa (que se vai concretizando ao longo da obra) de tempo muito bem passado!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde é uma obra do escritor escocês Robert Louis Stevenson e uma das mais conhecidas histórias publicadas nos últimos 200 anos.
Stevenson, um dos mais relevantes escritores de língua inglesa do século XIX, escreveu esta obra-prima da literatura oitocentista de uma penada. Na multiplicidade de leituras que este livro anuncia e permite – não obstante o facto de se perlongar por pouco mais de 100 páginas, encontra-se a dicotomia bem/mal mas também a ideia de que nenhum homem é suficientemente perfeito.
O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que tem sido objecto de diversas reinterpretações e adaptações cinematográficas, é um livro especialmente bem escrito e imaginado. O homem virtuoso que se opõe ao monstro, a bondade contra a tirania de espírito ou a certeza de que a perfeição não existe, são algumas das leituras suscitadas por este livro.
O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde é um grande livro e por isso se compreende e justifica que continue a ser lido tantos anos após a sua publicação original. O seu conteúdo faz hoje parte da cultura ocidental. É uma obra a não perder!

sábado, 2 de novembro de 2013

As Ilhas Encantadas

As Ilhas Encantadas é um pequeno livro do escritor norte-americano Herman Melville, célebre autor de Moby Dick.
As Ilhas Encantadas foi um livro publicado inicialmente em 1854 sob o pseudónimo de Salvator R. Tarnmoor. Através de um conjunto de pequenos textos faz-se uma narração sobre algumas das principais características do conjunto de ilhas da Galápagos num tom em que quase sempre colide a tristeza quase lunar das descrições com o mistério do vazio. Paralelamente às descrições são ainda narradas diversas histórias de habitantes ou ocupantes das ilhas e das características especiais das suas personalidades.
Melville, cuja obra desconhecíamos por completo, pareceu-nos ser um escritor de boa pena. O seu estilo, de uma simplicidade bem trabalhada, permite acompanhar com relativa alegria e vontade a história, ainda que na verdade este livro não seja um romance.
As Ilhas Encantadas são uma obra simpática sem tal signifique deslumbrante. No entanto, as boas características da escrita de Melville deixam antever que algumas das suas obras mais conhecidas possam ser mais interessantes. Sem maravilhar, As Ilhas Encantadas não deixam de ser um bom livro.

domingo, 27 de outubro de 2013

A Morte em Veneza

A Morte em Veneza é uma obra do escritor alemão e vencedor do Prémio Nobel da Literatura Thomas Mann.
A escrita de Mann é prodigiosa pela elegância conferida a cada uma das frases. As palavras, escolhidas criteriosamente, adquirem uma beleza extrema e uma proporcionalidade perfeita.
A Morte em Veneza é um livro curto e incisivo que, decorrendo (em grande parte) em Veneza, poderia ter por objecto físico uma miríade de outras cidades em cujo valor estético se sobrepusesse à racionalidade prática.
Nesta obra conta-se a história de Aschenbach, um escritor alemão consagrado que procura descanso em Veneza. Os factos que permitem construir a narrativa são de somenos porque o objecto da obra se centra numa reflexão sobre o belo e a situação moral do artista. Especial relevo para o facto de Aschenbach, enquanto artista, criador, procurar a sua inspiração numa musa que no caso em concreto se consubstancia na figura de um adolescente polaco chamado Tadzio. A estranha e perversa paixão de um homem maduro por um adolescente (que nunca se materializa) é o fio condutor que permite introduzir as profundas reflexões sobre a beleza que encontram as suas origens na arte grega e na filosofia platónica.
A Morte em Veneza é um grande livro. Não obstante o facto de a história ser um mero instrumento para as meditações de cariz filosófico a excelência da escrita de Mann é um perfume que se prolonga muito para além das curtas páginas deste livro.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Literatura Nazi nas Américas

A Literatura Nazi nas Américas é um livro do escritor chileno Roberto Bolaño.
Bolaño, cujo nome ressoa profundamente na literatura da actualidade (sobretudo depois do sucesso de 2666), era um escritor grandemente marcado pelas circunstâncias em que cresceu e se desenvolveu. À semelhança de outros escritores chilenos (afectos aos partidos de inspiração marxista-leninista) foi profundamente marcado pelo regime de Salvador Allende e pela ditadura de Augusto Pinochet.
A Literatura Nazi nas Américas sofre, no nosso entendimento, dessas influências. Sendo um livro marcado por esse facto não deixa de constituir uma obra muito original e interessante de seguir. A ideia de traçar o perfil bibliográfico de escritores sul-americanos apoiantes do ideário nazi está muitíssimo bem construída e desenvolvida. As personagens, embora inventadas, são inspiradas em individualidades reais e são o reflexo de uma visão sobre o totalitarismo nazi. Apesar do quadro negro em que são pintadas estas figuras não são o mero fruto de uma visão maniqueísta sobre o mundo mas o arquétipo representativos da realidade.
A Literatura Nazi nas Américas é um óptimo e singular livro que desenvolve uma ideia excepcional e é sem dúvida uma obra a ler.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis

O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma obra do escritor português José Saramago.
Este romance, cuja primeira edição data de 1984, é uma original obra inspirada (e tendo como personagem principal) um dos heterónimos de Fernando Pessoa, um dos mais fascinantes escritores da língua portuguesa.
José Saramago foi um escritor com uma imaginação particularmente rica. Muitas das suas obras são a sua versão de temas clássicos da literatura contemporânea mas outras têm um traço que lhes confere verdadeira singularidade. É o que se passa com este romance. Ricardo Reis, vindo do Brasil, chega a Portugal pouco tempo depois da morte de Fernando Pessoa e com este mantém um conjunto de conversas até ao desaparecimento final de ambos.
Para além da singularidade própria desta obra é também particularmente interessante a forma como Saramago conseguiu introduzir a baixa lisboeta neste texto (de forma sempre sugestiva) bem como a maneira como trata alguns dos mais importantes problemas políticos da década de trinta, desde a guerra civil espanhola ao consolidar do salazarismo em Portugal.
Não obstante as leituras políticas (que o próprio Saramago foi salientando e enaltecendo em várias publicações posteriores à primeira edição da obra), encontramos também um dos temas favoritos do escritor português, o amor. Neste livro, numa dupla acepção: um amor físico, ou carnal, que se concretiza e desenvolve; um amor visceral, profundo mas levemente correspondido.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é um livro menos fácil do que uma leitura superficial pode aparentar. Compreender esta obra de Saramago significa ao mesmo tempo conhecer a obra de Fernando Pessoa (através do seu heterónimo) e as especificidades próprias de um espírito superior. Saramago não se limita a utilizar o trabalho de Pessoa, reinterpreta-o e reinventa-o. Daí a profusão de estudos e artigos publicados sobre esta obra.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é um grande livro, dos melhores que tivemos oportunidade de ler até hoje da autoria de José Saramago. A sua leitura pode não só propiciar um gozo tremendo através de uma narrativa que nos prende mas também o privilégio de sabermos estar a contactar com um génio da literatura mundial. Sem dúvida a ler!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Jerusalém, Ida e Volta

Jerusalém, Ida e Volta é um livro do escritor norte-americano e vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1976 Saul Bellow.
Jerusalém, Ida e Volta faz parte dos excelentes livros de viagem publicados pela editora Tinta da China numa colecção coordenada pelo jornalista Carlos Vaz Marques que prefacia também esta obra do escritor norte-americano de origem judia.
Neste livro Saul Bellow, Nobel da Literatura em 1976, conduz-nos numa viagem por Israel e mais especificamente por Jerusalém. Ao longo das fabulosas quase trezentas páginas, brilhantemente construídas e escritas, Bellow transporta-nos para bem dentro dos meandros das discussões políticas em torno de um dos mais complexos temas da política internacional, o conflito israelo-árabe.
O tema, abordado tendo em consideração o contexto temporal da viagem (o livro é escrito em meados dos anos 70), é prolixo em divergências interpretativas e não é acessível para quem não domina o assunto. Não deixa, porém, de ser interessante o método de escrita, fundado nos encontros e entrevistas do autor a personalidades distintas e fundamentais para a compreensão das práticas diplomáticas e das opções políticas.
Bellow pareceu-nos um grande escritor não obstante o facto de não ser este o melhor livro para apurar da totalidade das suas qualidades literárias. Ainda assim o traço simples mas perfumado que vamos encontrando ao longo da obra é auspicioso.
Jerusalém, Ida e Volta não é o típico livro de viagens mas é, ao mesmo tempo, um excelente livro sobre política. A fusão destas realidades faz deste uma excelente escolha.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Por Quem os Sinos Dobram

Por Quem os Sinos Dobram é um livro do escritor americano Ernest Hemingway, um dos mais notáveis autores do século XX.
Por Quem os Sinos Dobram narra um episódio na vida de Robert Jordan, americano, soldado durante a Guerra Civil Espanhola, um dos momentos históricos mais intensamente trabalhados pela intelectualidade revolucionária ocidental.
Hemingway é um autor peculiar. Muitas vezes, as cenas dos seus romances parecem despojadas de intensidade, como se atiradas para uma fogueira como um galho. As personagens dos seus livros, os ambientes, o contexto da narrativa quase parecem menores mas quando completamos a leitura de uma das suas obras sabemos e compreendemos o impacto que a sua simplicidade de estilo tem na construção de romances fabulosos.
É o que acontece com Por Quem os Sinos Dobram. Durante mais de 500 páginas Hemingway transporta-nos para uma temática que é claramente da sua preferência, a da guerra (veja-se o caso de outro dos seus mais emblemáticos romances Adeus às Armas) e não o faz de forma poética antes optando por narrar um episódio de grande intensidade emocional, repleto das agruras próprias de uma guerra brutal. Ao mesmo tempo transporta-nos para um dos mais complexos e (pelo menos para nós) desconhecidos acontecimentos político-militares da história do século XX, a Guerra Civil Espanhola.
Por Quem os Sinos Dobram é um romance verdadeiramente magnífico e, daqueles que tivemos oportunidade de ler da autoria de Hemingway, o que mais nos cativou. Esta é uma obra de grande intensidade. A brevidade temporal em que decorre confere-lhe uma especial velocidade, tudo se passa como se já tivesse acontecido, como se tivesse tido urgência em inexistir. Esta é uma leitura a não perder, um livro extraordinário!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Escavação

A Escavação é uma obra do escritor russo Andrei Platónov.
Escrito em 1930 numa URSS dominada e enleada na experiência estalinista A Escavação é um importantíssimo romance distópico que apenas foi conhecido pelo público no final da década de oitenta.
Andrei Platónov, adepto, pelo menos inicial, da experiência soviética, narra os contornos da construção da casa do proletariado num misto de distopia e sátira. As suas personagens, quase disformes, envoltas na experiência colectivista do ensaio socializante da política do Partido Comunista da União Sovietica, são o ponto central do romance. Nota-se claramente, não apenas a utilização de um vocabulário próprio do marxismo-leninismo mas também as contradições internas deste sistema filosófico. O mais evidente é a permanente e contínua desconstrução do individuo e da individualidade.
Sendo possível enquadrar A Escavação dentro do género distópico, este livro é muito mais do que isso. Encontramos, ao longo de todo o livro, as convulsões próprias que emergem da dúvida metódica. Por outro lado a crítica é sempre feita de forma satírica. Muitas personagens – nem todas são suficientemente desenvolvidas, o que julgamos propositado – vivem o estigma da sua insignificância face a uma realidade – nem sempre sensorial – que as transcende em todas as dimensões e as contradições próprias de um sistema filosófico paradoxal.
A Escavação não é um livro fácil e para o compreender na sua plenitude seria preciso conhecer muito profundamente a obra de Andrei Platónov. A nós apenas nos é possível uma leitura à luz do que retiramos de outras leituras do género e de outros autores também eles críticos das experiências colectivistas e em especial do estalinismo. No entanto uma palavra de elogio tem de ser escrita em favor da editora Antígona que tem a coragem de publicar livros que nunca entrarão nos escaparates das grandes livrarias mas que são marcos fundamentais na compreensão da cultura europeia da pós-modernidade. Quanto ao livro, recomendamo-lo apenas aos mais corajosos!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

História do Cerco de Lisboa

História do Cerco de Lisboa é uma obra do escritor português José Saramago.
José Saramago é um dos mais ilustres autores da língua portuguesa com um percurso literário que teve como ponto mais elevado o prémio Nobel com que foi laureado em 1998. O seu estilo, peculiar, arrojado, distinto, suscita enormes paixões e, ao mesmo tempo, profundos ódios. A forma como escreve torna a leitura dos seus livros um exercício de plena e absoluta concentração mas também uma experiência diferente.
História do Cerco de Lisboa segue a mesma linha que os romances que deste autor tivemos já oportunidade de ler com a particularidade de neste livro Saramago nos transportar ao Portugal medievo e à história da conquista de Lisboa pelo Rei D. Afonso Henriques.
No entanto, e ao contrário do que eventualmente poderia ser de supor, Saramago não narra apenas a conquista de Lisboa. O romance, que tem como personagem principal um revisor de nome Raimundo Silva, centra-se na construção por este último de uma versão histórica alternativa dos acontecimentos de há quase nove séculos. Pelo meio a habitual história de amor com que Saramago nos vai tentando entreter.
História do Cerco de Lisboa resulta de uma ideia relativamente original e é um livro bem construído à semelhança de outros títulos do autor português. No entanto não nos deixou especialmente fascinados e não revela todo o génio do Nobel português. Cremos, ainda assim, que não deixa de ser uma leitura superior à generalidade dos títulos que por aí vão entupindo os escaparates. Um livro a ler.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Na Síria

Na Síria é um livro da famosa e fabulosa escrita Agatha Christie.
A literatura de viagens é uma das nossas grandes paixões. Ao longo dos últimos anos temos vindo a explorar este segmento com alegria e, em muitos casos, até alguma sofreguidão. Felizmente, cada vez mais existem publicações dentro deste estilo e não apenas através da tradução dos clássicos Bruce Chatwin ou Paul Theroux mas também de inúmeros escritores portugueses. A editora Tinta da China (uma das melhores editoras portuguesas) tem dado estampa a uma fascinante colecção dentro deste género coordenada por Carlos Vaz Marques.
Agatha Christie, uma das escritoras mais lidas da história, conhecida pelos seus incríveis romances policiais narra-nos, num livro de 1944, as suas aventuras no próximo-oriente e em especial na Síria, país historicamente muito rico e fértil em achados arqueológicos.
São precisamente as escavações arqueológicas a que Agatha Christie nos transporta nos anos imediatamente anteriores ao início da Segunda Guerra Mundial. Ao longo de várias temporadas são-nos relatados episódios das viagens, escavações e fantásticas personagens, bem como a multiculturalidade de um território povoados por tribos e povos muito heterogéneos e, em muitas circunstâncias, conflituosos. A pluralidade cultural que se encontrava naquele território, as idiossincrasias que lhes permitiam ser diferentes e únicos, as especificidades no trato, no modo de agir entre si e perante terceiros ou perante a vida e as adversidades fariam da Síria dos anos 30 um espaço incrivelmente fabuloso e apaixonante.
Este é um livro particularmente bem escrito e compreende-se bem o motivo porque Agatha Christie é uma das escritoras mais lidas em todo o mundo. O seu estilo, cristalino, loquaz faz- nos percorrer com alegria as quase 300 páginas desta obra. O seu sentido de humor – existem fragmentos verdadeiramente hilariantes – o joie de vivre presente em cada momento são um bálsamo para os leitores.
Na Síria é um excelente livro. Por vezes temo-nos referido a este género de obras como literatura de viagens. Será, sem dúvida! Mas é, acima de tudo o resto, literatura. E da melhor que existe por aí. Na Síria é indiscutivelmente um livro a ler!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Cemitério de Praga

O Cemitério de Praga é um romance do escritor italiano Umberto Eco.
Umberto Eco é um dos nomes maiores da cultura mundial da actualidade. Eminente medievalista (com formação na área da filosofia, semiologia e linguística) é autor de, entre muitos outros, O Nome da Rosa, Baudolino ou O Pêndulo de Foucault.
Ao contrário do que acontece com a maioria dos romances históricos que pululam nos escaparates das livrarias os livros de Ecos reflectem a erudição profunda do seu autor e conseguem aliar a diversão de acompanhar uma boa narrativa com a informação pormenorizada mas fluida que resulta de um fundamentado tratamento real por quem verdadeiramente conhece os sobressaltos da história.
O Cemitério de Praga é um livro absolutamente fabuloso que narra a vida de Simonini ou Dalla Piccola ao longo de grande parte do incrível século XIX perpassando, neste período, acontecimentos tão importantes como o processo de unificação italiana ou a Comuna de Paris. Ao mesmo tempo aborda algumas das mais fantasiosas problemáticas do século como a maçonaria ou a questão anti-semita.
Destaque, entre as matérias tratadas no livro, para a que se relaciona com o aprofundamento teórico do anti-semitismo e que redundariam nos apócrifos Protocolos dos Sábios de Sião, obra de interesse indiscutível para a compreensão do fenómeno anti-semita que irá concretizar-se de forma dramática durante o século XX com o holocausto judeu!
O Cemitério de Praga é um livro particularmente bem escrito capaz de prender à leitura o leitor médio. As personagens do livro são (com excepção de Simonini/Dalla Piccola) reais. As consequências históricas são também reais. Este é um livro de eleição, um extraordinário romance histórico de uma das mentes mais brilhantes ainda vivas. Uma obra a não perder!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

As Rotas do Sonho

As Rotas do Sonho é um livro de Tiago Salazar prefaciado por Mário Zambujal.
Tiago Salazar é um dos jovens escritores de viagens que têm beneficiado da proliferação deste mercado literário. E bem, porque dentro do género Tiago Salazar é um dos mais dotados, porque escrever sobre viagens não se resume à mera descrição dos lugares e à enumeração de pontos de interesse, implica uma reflexão sobre o que se encontra e o significado dessa descoberta.
As Rotas do Sonho é o quarto livro de viagens publicado por este autor. Dos lidos (que inclui o que agora se comenta, bem como Viagens Sentimentais e A Casa do Mundo), este é o mais completo não obstante o facto de, em muitos momentos, continuar a estar algo preso à técnica própria das revistas de viagem. O que procuramos, quando lemos um livro de viagens é, sobretudo, o reflexo no seu autor da experiência que representa o contacto com diferentes culturas e locais.
Em As Rotas do Sonho Tiago Salazar aproxima-se mais de quem o lê sem nunca deixar de apresentar aos leitores a luz fantasiosa de terras distantes. Em As Rotas do Sonho Tiago Salazar transporta-nos de Cuba à Malásia, do Peru a Itália numa volta ao mundo por alguns dos lugares mais extraordinários do planeta. As Rotas do Sonho é o escape perfeito para a exaustiva repetição de um mundo a preto e branco.
Tiago Salazar veio para ficar. Oxalá os livros desta categoria se continuem a vender de maneira a que não só Salazar ou Cadilhe nos possam narrar as suas deambulações como outros autores possam surgir. As Rotas do Sonho é um livro que recomendamos muito!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Velho e o Mar

O Velho e o Mar é um pequeno romance do escritor americano Ernest Hemingway.
Nesta edição, da Livros do Brasil, somos presenteados com uma introdução do grande escritor português Jorge de Sena que é, ao mesmo tempo, o tradutor do livro.
Hemingway é um dos grandes nomes da literatura do século XX. Conhecido pelo seu estilo boémio e pelas obras profundamente autobiográficas (Por Quem os Sinos Dobram, Adeus às Armas, O Sol Nasce Sempre (Fiesta)), a leitura Hemingway surpreendo-nos sempre pela simplicidade e pelo realismo. Não obstante, não deixa ao mesmo tempo de ser verdade que, em muitos dos seus livros, existe uma mensagem sub-reptícia, metafórica, e que, no fundo, representa o mais perene do seu trabalho.
O Velho e o Mar, livro escrito em Cuba (onde Hemingway viveu durante uma parte da sua vida), é uma obra maravilhosa. Embora se prolongue por pouco mais de 100 páginas o prazer que se retira de cada uma das linhas é intenso.
A história é sobre um velho pescador atormentado pela ausência de peixe nos seus anzóis e a batalha tranquila mas mortífera com um espadarte, uma narração de um realismo extraordinário (em determinados pontos muito semelhante à sua experiência com as touradas espanholas contadas em O Sol Nasce Sempre (Fiesta)), a emotividade que se retira do sofrimento físico, psico-mental do pescador, a consagração da luta entre o animal e o homem e a derrota que resulta da incapacidade de manter o seu trofeu longe dos tubarões são ingredientes mais do que suficientes para fazer deste um livro de excepção.
Nem todos os leitores gostam de Hemingway. A sua escrita crua – provavelmente aliada e reflexo da sua personalidade peculiar – é, no entanto, absolutamente fascinante e de uma riqueza pouco comum. O Velho e o Mar é um livro extraordinário que deve ser lido por todos os que gostam de bons livros!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Queda dos Gigantes

A Queda dos Gigantes é o primeiro livro de uma trilogia (O Século) do aclamado escritor britânico Ken Follett.
Ken Follett é um dos autores mais lidos da actualidade. Da sua pena tivemos já oportunidade de ler Os Pilares da Terra e Nome de Código Leoparda, dois livros que nos propiciaram imensa satisfação. Ken Follett que seria, certamente, um brilhante argumentista para filmes de Hollywood, é capaz de cativar qualquer leitor. A sua forma de escrita, que mistura o suspense com capítulos relativamente curtos em forma de novela, a multiplicidade de personagens fascinantes, as temáticas abordadas são factores fundamentais para criar um best-seller.
A Queda dos Gigantes segue a mesma linha dos outros livros do autor que já tivemos oportunidade de ler. Sendo o primeiro volume de três sobre o século XX, insere-se na categoria dos romances históricos. Este, em particular, decorre entre 1911 e 1924 e, ao longo de mais de 900 páginas vai acompanhando a vida de cinco famílias e a sua participação nos principias momentos políticos/históricos do primeiro quartel do século XX.
Parece-nos indiscutível que Ken Follett sabe como escrever um livro cativante. Cenas e personagens relativamente bem construídas e a dose certa de suspense. No entanto, a trilogia O Século é um projecto monumental sobre um período que muitos leitores conhecem razoavelmente. Isso implicaria maior atenção por parte do autor na construção da narrativa porque, ao contrário do que acontece noutras épocas (nomeadamente na Idade Média inglesa) o leitor encontra-se muito mais familiarizado com as características de vida e com os factos possíveis.
Importa referir que Ken Follett, em muitos momentos, parece tratar os seus leitores como se fossem idiotas fazendo referências infantis relativamente a momentos e personagens históricas como se fossem completamente desconhecidas por parte dos leitores. Por outro lado, e embora Ken Follett refira que não incluiu nenhuma cena que não fosse possível de ter na prática acontecido, e se isoladamente tal pode ser verdadeiro, é pouco verosímil que todas aquelas cenas se passassem com todas aquelas personagens: Primeira Guerra Mundial, Revolução de 1905, Revolução de Outubro, voto das mulheres, lei seca nos Estados Unidos da América, Churchill, Lenine, Wilson, Trotsky. É demasiado e pouco provável.
O livro não é mau, antes pelo contrário. Apesar da dimensão exagerada dá, apesar da falta de realismo, vontade que não acabe. Temos ainda o segundo volume para ler e o terceiro há-de ser lançado em breve. Boa leitura mas, à semelhança dos livros de Ken Follett, não será nenhuma obra-prima!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Grande Gatsby

O Grande Gatsby é um livro do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald e considerado um dos grandes clássicos da literatura mundial do século XX.
Fitzgerald foi um dos mais relevantes escritores da primeira metade do século XX tendo da sua pena resultado um número substancial de obras e, não tendo nenhuma atingido o esplendor de O Grande Gatsby, outras atingiram patamar de relevo como foi o caso de Este Lado do Paraíso e O Estranho Caso de Benjamin Button.
Publicado originalmente em 1925, em época de plena loucura propiciada pelo fim da Primeira Guerra Mundial, O Grande Gatsby – romance excepcionalmente curto – explora as fragilidades decorrentes de vidas de excesso, de vertigem constante e prolongada e, ao mesmo tempo, é (e provavelmente principalmente) a narrativa de uma história de amor permanentemente inacabada.
A história, narrada na terceira pessoa (por Nick Carraway), reflecte algumas das principais características do mundo ocidental durante a década de vinte. A loucura anárquica das festas do jazz, a irresponsabilidade metódica do petulante novo-riquismo, a pobreza cadavérica que resulta da ilusão da multidão, os excessos de quem queria viver toda uma vida num ápice, tudo isto reflectido na personagem principal – Jay Gatsby – num contínuo jogo de sombras, numa demanda pela sua própria natureza, no sacrifício pelo amor.
O Grande Gatsby, embora seja um livro de reduzido número de páginas, embora centre a sua acção num curto espaço temporal, é de compreensão bem mais difícil do que à primeira vista uma leitura desatenta pode sugerir. O Grande Gatsby é um excelente livro e não é por acaso que tem sido considerado como uma das obras-primas do século passado. Definitivamente a ler!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Catálogo de Sombras

Catálogo de Sombras é um livro de contos do escritor angolano José Eduardo Agualusa.
Catálogo de Sombras é um livro que reúne quase vinte pequenos contos alguns dos quais apresentando algumas similitudes com romances de Agualusa que já tivemos oportunidade de ler. A leitura destes contos é de uma rapidez impressionante deixando, à medida que os vamos lendo, um sabor agridoce na medida em que ficamos a ansiar por mais. Especialmente interessante o primeiro que tem o mesmo nome do livro, uma viagem ao imaginário da pátria linguística e ao mundo das palavras.
Agualusa é um dos bons valores das letras em português e um escritor cujo percurso temos vindo a acompanhar ao longo dos últimos anos. O seu peculiar estilo, a sua escrita simples e sem rodeios, o perfume africano do seu português são características que o permitem distinguir muito positivamente entre uma nova geração de escritores que nos últimos anos têm vindo a surgir no espaço da narrativa na língua de Camões.
Catálogo de Sombras é um bom livro de contos através do qual Agualusa nos permite percorrer um leve caminho pelas suas ideias e que ao mesmo tempo tem o condão de nos fazer reflectir mais profundamente. Indiscutivelmente a não perder.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um Lugar Dentro de Nós

Um Lugar Dentro de Nós é uma obra do nosso muito apreciado Gonçalo Cadilhe o mais conhecido dos escritores/viajantes português.
Ao longo dos últimos anos temos vindo a ler os livros de viagens de Cadilhe. Todos os anos esperamos que mais uma das suas obras seja publicada na expectativa de o podermos acompanhar nas suas viagens aos lugares mais remotos e escondidos do planeta. Na verdade, Cadilhe não viaja sozinho, é permanentemente acompanhado por aqueles que bebem as suas palavras à medida que aquele vai passando pelos desertos da Namíbia, navegando o delta do Mekong ou visitando os seus amigos nas Molucas. As viagens de Cadilhe são serviço público e o teu fabuloso talento de as colocar por escrito um verdadeiro dom!
Um Lugar Dentro de Nós é um livro ligeiramente diferente. Nesta obra, Cadilhe não nos faz assistir ao nascer do Sol no Machu Picchu, nem sentir o sabor do mar de uma onda surfada. Neste livro a viagem é diferente, é pelo interior da alma do viajante, através das suas reflexões pessoais. Em Um Lugar Dentro de Nós a viagem é metafísica, profundamente sensorial, num registo intimista, dirigindo-se na primeira pessoa do singular a cada um dos leitores.
Um Lugar Dentro de Nós é um livro com marca pessoal do seu autor seguindo muito do estilho que Gonçalo Cadilhe tem colocado em cada uma das suas obras. Não é, seguramente, e para nós, o seu livro mais conseguido ou, pelo menos, aquele de tenhamos gostado mais. Preferimos quando a viagem nos conduz àqueles lugares onde ainda não tivemos oportunidade de estar mas é um livro de que todos os leitores de Gonçalo Cadilhe vão certamente apreciar.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Seis Falsas Novelas

Seis Falsas Novelas é um livro de Ramón Gómez de La Serna, autor espanhol dos séculos XIX e XX.
La Serna foi um relevante autor – embora relativamente desconhecido entre nós – das letras em castelhano. Com uma obra vasta – mais de cem títulos entre novela, ensaio, biografia, romance – tem nestas Seis Falsas Novelas um dos mais destacados livros da sua autoria.
Seis Falsas Novelas é um livro que reúne seis pequenas histórias que pretendem narrar (num retrato de profunda ironia e mesmo de algum escárnio) a vida de personagens espalhadas pelas mais amplas latitudes do planeta, numa tentativa de enunciação de traços genéricos das personagens tipo identificadas.
Num estilo polido, especialmente bem escrito, revelador do bom conhecimento da técnica da escrita, esta obra nem por isso nos suscitou especial interesse ou vontade de ler. Não obstante a evidente capacidade literária do autor a construção da narrativa raramente foi capaz de nos prender às páginas do livro tendo a sua leitura se prolongado por muito mais tempo do que o desejável.
Não conhecemos a restante obra de La Serna. Talvez, entre os muito livros que publicou, existam outros cujo estilo se aproxime mais das nossas preferências literárias. Há-de fica para outra oportunidade!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Dentro do Segredo

Dentro do Segredo é um livro do escritor português José Luís Peixoto.
A literatura de viagens é daquelas que mais nos fascina. A representação literária de um confronto com o desconhecido, o acto de deambular, a demanda perante por aquilo que nos foge é absolutamente cativante pelo que todos os anos, como se um acto de fuga fosse, optamos por ler alguns livros que se enquadrem nesta categoria.
Dentro do Segredo, apesar de ser um livro de viagens, tem características muito especiais na medida em que narra a viagem de José Luís Peixoto – um dos mais relevantes escritores portugueses da actualidade – à Coreia do Norte, o Estado mais fechado do Mundo e, provavelmente, o mais desconhecido de todos.
Na larga maioria das vezes, quando iniciamos a leitura de uma obra deste género, não partimos com qualquer pré-concepção. A liberdade e o prazer que com probabilidade havemos de experienciar nessas páginas não se conformam com preconceitos. Este, pelo local objecto da narração, foi um livro diferente. Ao longo da nossa vida a Coreia do Norte tem ocupado um lugar sinistro no nosso pensamento de tal forma que não conseguimos compreender ou aceitar o que se passa (ou diz passar) nesse país.
Dentro do Segredo é uma obra peculiar. Junta a literatura de viagens a um género de narração moderna e real de uma verdadeira distopia à semelhando do que poderíamos encontrar em 1984 ou em Nós. Um Estado de tal forma totalizado onde o culto da personalidade atinge dimensões tão inverosímeis e no qual a realidade parece ser tão tristemente moldada pela vergonha dos que conhecem que não consegue deixar de nos fascinar.
José Luís Peixoto, cujo restante trabalho desconhecemos por completo, parece fazer uma narração honesta da realidade. Note-se que, provavelmente, a generalidade dos responsáveis políticos da Coreia do Norte rapidamente se apressaria a negar a veracidade dos factos relatados pelo escritor português. Ao mesmo tempo o nosso preconceito leva-nos a não duvidar do que no livro vem escrito e a adivinhar que, em numerosas situações, a realidade possa ser muito mais dramática.
Dentro do Segredo é um livro de leitura simples e agradável. Bem escrito, controlado nas posições assumidas é um bom exemplo da boa literatura de viagens. Uma última nota para a edição da Quetzal: absolutamente fabulosa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

David Copperfield

David Copperfield é um livro do inglês Charles Dickens.
Há livros que nos acompanham por algum tempo e que quando os deixamos começamos a sentir um género de tristeza e saudade. David Copperfield é um desses livros!
A primeira vez que tivemos oportunidade de ler Dickens foi numa edição, no original, de Oliver Twist, uma extraordinária história sobre as aventuras de um jovem rapaz numa sociedade industrializada. Em Oliver Twist, mais do que a mera descrição de factos, sobressai o brilhantismo na construção das personagens.
David Copperfield lemos numa fantástica edição da Relógio D’Água e em língua portuguesa com todas as vantagens que isso acarreta em termos de compreensão integrar do conteúdo da narrativa.
David Copperfield é um livro fantástico e uma das obras que mais nos deu prazer ler até hoje. Muito do que é a literatura está relacionado com os sentimentos que desperta. Por vezes, livros fracos (mas emotivos) transportam-nos para um patamar de satisfação superior sendo certo, porém, que o contrário também acontece: bons livros, pela qualidade da narrativa, pela imaginação do autor, pelo brilhantismo da escrita, mas que são incapazes de nos elevar para patamares superiores. David Copperfield é um excelente livro em todos os sentidos. Uma narrativa primorosa, personagens apaixonantes, cenários brilhantemente pintados e emoção, ao longo de todas as mais de 750 páginas desta obra monumental.
Dickens, um dos maiores escritores de língua inglesa de todos os tempos, reflectia com rigor muitas das características literárias do seu século. Ao mesmo tempo, homem deveras dotado na arte da escrita, era capaz de nos transportar no seu sonho e encantar-nos com personagens verdadeiramente pueris, encantadoras, brilhantemente construídas. Talvez seja este o verdadeiro triunfo de Dickens: personagens esculpidas a cinzel, com as quais nos identificamos, sofremos e rimos. Se não é este o prazer que retiramos da leitura de um romance, o que será então? Em David Copperfield, para além da personagem principal que tem por nome o título do livro encontramos ainda o padrasto Murdstone, o colega de escola Steerforth, o arqui-rival Uriah Heep, a doce Dora, a fantástica tia Betsey, o inigualável Micawber, a fabulosa Agnes e um rol de muitas outras personagens que acompanham a vida de David Copperfield desde o seu nascimento até à sua vida adulta.
Não deixa de ser verdade que David Copperfield se enquadra dentro da tipicidade que encontramos na luta entre o bem e mal. Há personagens que personificam a maldade, o descrédito, a violência e outras onde só quase conseguimos encontrar virtudes. O mundo dificilmente é a preto e branco e, neste aspecto, o livro poderia estar mais bem equilibrado porque, efectivamente, algumas personagens, tão boas que são, não se assemelham a nada que encontremos na realidade.
Não obstante, e uma vez que não existem livros perfeitos, podemos talvez afirmar que este romance de Dickens se aproxima muito desse inalcançável requinte. Este foi, seguramente, um dos melhores e mais emocionantes romances que lemos nos últimos dez anos e para sempre ficará na nossa memória.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A Violência e o Escárnio

A Violência e o Escárnio é um livro de Albert Cossery, escritor nascido no Cairo, editado pela Antígona.
Cossery é um dos mais interessantes escritores que temos tido oportunidade de ler. As suas obras – escassas, porque aparentemente o autor era bastante ocioso – caem fora das habituais temáticas da literatura mais comercial.
Em A Violência e o Escárnio debate-se a forma de intervenção na problemática política. As personagens que assumem a primazia na narrativa optam por encarar os políticos e o exercício da governação como uma verdadeira paródia. Estando em forte oposição aos governantes da sua cidade estas personagens, ao invés de optarem pela tentativa de derrube destes através do exercício da violência escolhem o escárnio, a troça, a zombaria numa tentativa, irónica, de ultrapassagem dos próprios partidários do regime e de os ridiculizar.
A escrita de Cossery é de grande simplicidade e os seus livros lêem-se com enorme facilidade não obstante o facto de reflectirem questões de alguma complexidade como é o caso desta obra. As suas personagens, que são o espelho de uma sociedade peculiar e, não obstante o facto de ser possível traçar a sua orientação geográfica e a limitação temporal, poderiam ser uma imagem perfeita de várias latitudes e momentos cronológicos.
A Violência e o Escárnio é um grande e delicioso livro e Albert Cossery um dos escritores mais interessantes do século XX. Esta é uma obra que, definitivamente, aconselhamos.