domingo, 30 de setembro de 2012

O Elefante Evapora-se

O Elefante Evapora-se, é um livro de Haruki Murakami que reúne dezassete contos do escritor japonês redigidos entre os anos oitenta e noventa.
Haruki Murakami é, na nossa opinião, um dos grandes escritores de ficção vivos e um dos mais talentosos das últimas décadas. Os seus livros, repletos de verdadeira magia e encanto, são extraordinariamente interessantes e cativantes. Recorrentemente apontado pela crítica como um dos favoritos ao Prémio Nobel continua ainda por obter esse reconhecimento.
O Elefante Evapora-se, reúne contos um pouco diversos. Em alguns casos, correspondem a ideias que o autor viria a desenvolver posteriormente (como é o caso do conto O Pássaro de Corda e as Mulheres das Terças-Feiras que viria a ser Crónica do Pássaro de Corda) e, na maior parte dos contos, está bem presente a vertente surrealista que caracteriza o autor japonês. Noutros, não menos bons, encontramos um Murakami diferente, mais reflexivo, mais profundo.
Não obstante podermos considerar esta colectânea um bom conjunto de textos a verdade é que nunca nos entusiasmamos verdadeiramente ao longo da sua leitura. Interessante, mas nunca cativante. Bem escrito mas não prodigioso. Já em A Rapariga Que Inventou Um Sonho, outro dos livros de conto de Murakami, não nos revimos em absoluto. Infelizmente, este agora lido, não está, sequer, ao mesmo nível.
Note-se, no entanto, que é bem possível que a legião de fãs do autor japonês se possa sentir satisfeita com O Elefante Evapora-se. Nós é que ficámos um pouco desiludidos!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Ilha de Caribou

A Ilha de Caribou é um romance do escritor norte-americano David Vann.
De quando em vez surgem romances que recebem da crítica as melhores opiniões, sendo qualificados de brilhantes, extraordinários, revelações literárias. A crítica influencia muito as opções de quem lê tendo a capacidade de lançar um determinado autor para a ribalta e colocando sobre si os focos mediáticos.
Foi com alguma expectativa que começámos a leitura deste A Ilha de Caribou de David Vann, já vencedor do Prémio Médicis (2010) com o romance A Ilha de Sukkwan, livro que não tivemos oportunidade de ler.
Ao contrário do que a crítica parece sugerir não consideramos este A Ilha de Caribou um acontecimento literário ou um romance excepcional. A narrativa, que decorre no Alasca, pareceu-nos o guião de um mau filme de fim-de-semana. Vann, que pretende narrar a história de uma família envolta de problemas de cariz emocional (pai, mãe, filho e filha, cada um com os seus problemas individuais e alguns colectivos), parece cair num lugar-comum. Indivíduos, com medo de se perderem numa sociedade em constante reconstrução, traições, expectativas por cumprir. A própria linguagem, em determinados momentos, parece saída de um romance de cordel. Fraco! Se o autor pretende incluir tantas variáveis (qual a necessidade de incluir as personagens Monique e Carl?) porque não desenvolver suficientemente o perfil psicológico das personagens. A multiplicidade de histórias não ajuda a construir uma narrativa suficientemente cativante.
No entanto, e no nosso entender, os problemas deste romance de David Vann não se cingem à construção narrativa. Sendo suficientemente claro nas mensagens, Vann não é nenhum arauto da palavra e não se vislumbra qualquer frase particularmente interessante. Se o autor pretendia escrever um romance de cariz psicológico teria de ser mais profundo e interessante.
Note-se que A Ilha de Caribou não é muito mau. Lê-se com facilidade! Mas falta brilho, superioridade, relevância. Para se escrever uma obra relevante não basta ser um razoável contador de histórias. Com tantos bons escritores e tantos fantásticos livros para quê perder tempo com obras apenas e só suficientes?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Caderno Afegão

Caderno Afegão é uma obra da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.
O Verão é uma altura particularmente interessante para a leitura de livros de viagens. Foi nesse sentido que investimos na leitura de Alexandra Lucas Coelho, jornalista especialista em crónicas e que tem passado grande parte da sua vida viajando pelo mundo sendo que em muitos casos em lugares tão improváveis como o Afeganistão.
Pese embora o facto de gostarmos particularmente de livros de viagens e de ter sido com esse propósito que iniciámos a leitura das obras de Alexandra Lucas Coelho a verdade é que, à semelhança do seu Viva México, Caderno Afegão não é um livro que se possa inserir nesta categoria. Excelente na crónica e na narração da realidade política, económica e até cultural de um determinado país tal não significa que a autora seja uma escritora de livros de viagem na medida em que as suas obras têm uma fortíssima componente jornalística.
Note-se no entanto que Caderno Afegão é um livro excelente. Dentro do género (e tendo como comparação o outro livro da autora publicado na mesma colecção) este é muito mais interessante e está bastante melhor escrito. Especialmente tocante o capítulo referente ao dia 22 de Junho em que a autora narra a história de uma família afegã que vive numa casa tão pobre «que estrela ovos numa bilha de gás, mas tão rica que lê os filósofos sufis e Wittgenstein.»
Pode acontecer que estejamos a ser um pouco injustos com Alexandra Lucas Coelho ao afirmarmos que não é uma escritora de viagens. A sua viagem ao Afeganistão decorre da sua profissão de jornalista durante o mês de Junho de 2008. Não teve oportunidade de viajar como Bruce Chatwin, Mountstuart Elphinstone, Robert Byron ou Marco Polo e que poder visitar com a mesma tranquilidade o melhor deste histórico país. Daí que este Caderno Afegão seja para além de tudo o resultado de grande mérito e coragem. Não sendo um livro de viagens foi muito mais do que esperávamos.
Caderno Afegão é um grande livro de uma óptima jornalista. Parece-nos que o Afeganistão foi generoso com a autora, nota-se isso na emoção com que escreve sobre o seu povo e as suas rosas. Quem quiser aliar a crónica jornalística (da qual decorre informação relevante sobre o país) com um pouco da poesia da literatura de viagens, encontrará em Caderno Afegão um belíssimo exemplo. Muito recomendado!

domingo, 2 de setembro de 2012

Na Patagónia

Na Patagónia é um livro do mundialmente famoso escritor inglês Bruce Chatwin.
Bruce Chatwin é, provavelmente, um dos mais aclamados escritores de viagens do século XX. Entre vários outros livros destaque para o seu Na Patagónia, o relato de uma viagem de seis meses por um dos mais inóspitos e perturbadores pontos do globo e também dos mais narrados entre os escritores de viagens.
Na Patagónia é um verdadeiro clássico na literatura de viagens e um dos mais conhecidos exemplos dentro do género. O fascínio que o sul do continente americano tem exercido sobre tantos não pode ser mera coincidência. Entre muitos outros, Paul Theroux e Luis Sepúlveda são dois magníficos exemplos sobre a forma como a Terra do Fogo tem polvilhado o imaginário de tantos viajantes.
Chatwin, um verdadeiro diletante mas escritor de mão-cheia, é verdadeiramente um excelente contador de estórias. As longas páginas do mais célebre dos seus livros estão repletas de maravilhosos momentos perfeitamente narrados por um artista da palavra. É através da busca de uma memória de infância que vamos calcorreando a Argentina e o Chile e vamos conhecendo não apenas as extraordinárias paisagens mas também as mais rocambolescas histórias esquecidas de heróis e anti-heróis.
Não obstante o brilhantismo de Na Patagónia e do seu autor a verdade é que não é com este género de narrativa de viagem que mais nos identificamos. Faltou emotividade e ligação com a realidade experienciada mas este é, inquestionavelmente, um grande livro.