domingo, 30 de dezembro de 2012

A Feiticeira de Florença

A Feiticeira de Florença é um livro de Salman Rushdie, escritor britânico de origem indiana.
Salman Rushdie é um dos grandes escritores vivos e um dos mais populares a nível mundial, quer devido ao famosíssimo Os Versículos Satânicos, quer ao, mais aclamado, Os Filhos da Meia-Noite.
Rushdie é um brilhante escritor não apenas porque domina como poucos a sua arte mas também porque é um profundo conhecedor de história, filosofia e religião. A Feiticeira de Florença é a prova cabal desta afirmação. Um romance que decorre no século XVI entre a memória da península itálica e de Florença e a realidade do império Mogol e que permite ao leitor viajar entre a multiculturalidade de um mundo em mudança e onde a ficção e a factualidade correm lado a lado.
Em A Feiticeira de Florença Rushdie narra-nos a viagem de um jovem florentino até à corte do imperador Mogol Akbar e a longa história – contada na primeira pessoa ao poderoso Grão-Mogol – que o herdeiro do renascimento europeu lhe relata.
A Feiticeira de Florença não é uma mera história sobre uma feiticeira ou uma narrativa sobre o amor, mas antes uma ilustração perfeita de como o sonho e a ilusão podem ser um poderoso dínamo de mudança e como podem condicionar o mais poderoso dos homens.
A leitura de Rushdie nunca é simples. De início somos sempre confrontados com a imensidão de referências culturais e que, em muitas circunstâncias, não dominamos. No entanto, e ao mesmo tempo, à medida que a história avança vamo-nos enleando na narrativa e deixando prender até ao ponto em que estamos absolutamente apaixonados. A Feiticeira de Florença é um excelente livro dos melhores que tivemos oportunidade de ler durante o ano de 2012 e uma excelente forma de o terminar.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Tentação do Ocidente

A Tentação do Ocidente é um livro do escritor francês André Malraux.
André Malraux é um dos grandes vultos da cultura europeia do século XX e autor de um dos mais relevantes livros do século passado: A Condição Humana.
A Tentação do Ocidente foi o primeiro dos seus trabalhos publicado quando este tinha apenas 22 anos. A Tentação do Ocidente foi escrito sob a forma de correspondência trocada entre dois jovens: um francês e um chinês. Ao longo de 80 páginas Malraux elabora a respeito da decadência do Ocidente e sobre a superioridade da filosofia chinesa.
A escrita de Malraux, mesmo no início da sua juventude, é de uma complexidade assinalável. A temática – o confronto filosófico entre Ocidente e Oriente – presta-se a isso mas a profundidade que o autor imprime nas suas palavras revelam grande conhecimento do objecto deste livro.
A Tentação do Ocidente não é um livro fácil. O leitor mais desatento pode passar ao lado do conteúdo excepcional que uma reflexão sobre a Europa no início do século pode oferecer. Este é um livro para temerários.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

As Mulheres do Meu Pai

As Mulheres do Meu Pai é um romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa.
Agualusa é um autor que apreciamos. Os livros que temos tido oportunidade de ler da sua autoria são sempre interessantes e cativantes. A sua escrita, simples, despojada de pretensiosismo, com sabor da África remete-nos para lugares tranquilos. As Mulheres do Meu Pai reflecte plenamente as características que reconhecemos na sua escrita.
Nesta obra Agualusa transporta-nos numa viagem pelo sul do continente africano, de Luanda a Maputo, passando por Cape Town ou pelo Namibe em busca do passado de uma estrela angolana da música, Faustino Manso.
Este romance é narrado por quatro diferentes personagens sendo a principal Laurentina, realizadora de cinema e uma dos dezoito filhos de Faustino Manso. Não obstante ser uma obra – como é apanágio do autor – particularmente bem escrita, nem sempre é claro qual dos narradores relata cada um dos capítulos sendo necessário ter muita atenção para compreendermos na totalidade o seguimento da história.
José Eduardo Agualusa é um dos grandes escritores de língua portuguesa da nova geração. Mais do que uma promessa a sua obra revela que estamos já perante uma certeza entre os escritores da língua de Camões.
As Mulheres do Meu Pai é um livro repleto de surpresas onde nem todos os caminhos são paralelos. O cheiro a África está presente em cada uma das personagens e a realidade traçada nem sempre será de fácil compreensão para um ocidental. As Mulheres do meu Pai é um excelente livro. A obra de Agualusa deve ser lida e relida.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Uma Viagem à Índia

Uma Viagem à Índia é um livro do escritor português Gonçalo M. Tavares.
Gonçalo M. Tavares é um dos mais brilhantes escritores portugueses e, na actualidade, já não apenas da nova geração mas em termos globais. A sua capacidade inventiva, a forma como é capaz de criar personagens de enorme profundidade psicológica, a abstracção espacial dos ambientes onde as suas histórias decorrem são uma mais-valia inquestionável na literatura moderna onde tantas vezes se confundem os bons livros com a diversão momentânea que algumas obras podem trazer. Foi, portanto, com imensa expectativa que abordámos a leitura deste livro do escritor português.
Uma Viagem à Índia foi escrito – pensamos nós – tendo por base o conceito de epopeia e em particular a obra maior da literatura portuguesa: Os Lusíadas. Tal como a obra que serviu de inspiração, Uma Viagem à Índia está dividido em dez cantos e, não obstante as evidentes diferenças formais – está também dividido em estâncias não obstante estar longe de ser uma obra poética, antes qualquer coisa semelhante a uma prosa poética.
Não é do nosso interesse fazer aqui uma crítica formal ao livro de Gonçalo M. Tavares, muito menos procurar encontrar todas as ligações que poderiam ajudar a qualificar ou não esta obra como uma epopeia. Note-se, no entanto, que no nosso entender esse não foi o objectivo do autor.
Uma Viagem à Índia tinha tudo para ser um enorme livro. A estrutura das epopeias, a inspiração de Os Lusíadas, o talento do autor, aparentava ser a fórmula mágica de uma obra para a posteridade. Infelizmente, na nossa opinião, embora as condições fossem dificilmente repetíveis, Uma Viagem à Índia fica muito aquém do brilhantismo que esperávamos. Não deixando de ser um livro interessante, com uma história razoavelmente cativante e estando, como sempre, muito bem escrito, ficou-nos a saber a pouco. Quando um autor atinge um determinado nível e é capaz de criar expectativas tudo o que não corresponde ao esperado transforma-se numa desilusão. Para os que gostarem muito do autor, é de ler. Quem não conhece o autor de Jerusalém, o melhor será começar por outro livro!

domingo, 30 de setembro de 2012

O Elefante Evapora-se

O Elefante Evapora-se, é um livro de Haruki Murakami que reúne dezassete contos do escritor japonês redigidos entre os anos oitenta e noventa.
Haruki Murakami é, na nossa opinião, um dos grandes escritores de ficção vivos e um dos mais talentosos das últimas décadas. Os seus livros, repletos de verdadeira magia e encanto, são extraordinariamente interessantes e cativantes. Recorrentemente apontado pela crítica como um dos favoritos ao Prémio Nobel continua ainda por obter esse reconhecimento.
O Elefante Evapora-se, reúne contos um pouco diversos. Em alguns casos, correspondem a ideias que o autor viria a desenvolver posteriormente (como é o caso do conto O Pássaro de Corda e as Mulheres das Terças-Feiras que viria a ser Crónica do Pássaro de Corda) e, na maior parte dos contos, está bem presente a vertente surrealista que caracteriza o autor japonês. Noutros, não menos bons, encontramos um Murakami diferente, mais reflexivo, mais profundo.
Não obstante podermos considerar esta colectânea um bom conjunto de textos a verdade é que nunca nos entusiasmamos verdadeiramente ao longo da sua leitura. Interessante, mas nunca cativante. Bem escrito mas não prodigioso. Já em A Rapariga Que Inventou Um Sonho, outro dos livros de conto de Murakami, não nos revimos em absoluto. Infelizmente, este agora lido, não está, sequer, ao mesmo nível.
Note-se, no entanto, que é bem possível que a legião de fãs do autor japonês se possa sentir satisfeita com O Elefante Evapora-se. Nós é que ficámos um pouco desiludidos!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Ilha de Caribou

A Ilha de Caribou é um romance do escritor norte-americano David Vann.
De quando em vez surgem romances que recebem da crítica as melhores opiniões, sendo qualificados de brilhantes, extraordinários, revelações literárias. A crítica influencia muito as opções de quem lê tendo a capacidade de lançar um determinado autor para a ribalta e colocando sobre si os focos mediáticos.
Foi com alguma expectativa que começámos a leitura deste A Ilha de Caribou de David Vann, já vencedor do Prémio Médicis (2010) com o romance A Ilha de Sukkwan, livro que não tivemos oportunidade de ler.
Ao contrário do que a crítica parece sugerir não consideramos este A Ilha de Caribou um acontecimento literário ou um romance excepcional. A narrativa, que decorre no Alasca, pareceu-nos o guião de um mau filme de fim-de-semana. Vann, que pretende narrar a história de uma família envolta de problemas de cariz emocional (pai, mãe, filho e filha, cada um com os seus problemas individuais e alguns colectivos), parece cair num lugar-comum. Indivíduos, com medo de se perderem numa sociedade em constante reconstrução, traições, expectativas por cumprir. A própria linguagem, em determinados momentos, parece saída de um romance de cordel. Fraco! Se o autor pretende incluir tantas variáveis (qual a necessidade de incluir as personagens Monique e Carl?) porque não desenvolver suficientemente o perfil psicológico das personagens. A multiplicidade de histórias não ajuda a construir uma narrativa suficientemente cativante.
No entanto, e no nosso entender, os problemas deste romance de David Vann não se cingem à construção narrativa. Sendo suficientemente claro nas mensagens, Vann não é nenhum arauto da palavra e não se vislumbra qualquer frase particularmente interessante. Se o autor pretendia escrever um romance de cariz psicológico teria de ser mais profundo e interessante.
Note-se que A Ilha de Caribou não é muito mau. Lê-se com facilidade! Mas falta brilho, superioridade, relevância. Para se escrever uma obra relevante não basta ser um razoável contador de histórias. Com tantos bons escritores e tantos fantásticos livros para quê perder tempo com obras apenas e só suficientes?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Caderno Afegão

Caderno Afegão é uma obra da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.
O Verão é uma altura particularmente interessante para a leitura de livros de viagens. Foi nesse sentido que investimos na leitura de Alexandra Lucas Coelho, jornalista especialista em crónicas e que tem passado grande parte da sua vida viajando pelo mundo sendo que em muitos casos em lugares tão improváveis como o Afeganistão.
Pese embora o facto de gostarmos particularmente de livros de viagens e de ter sido com esse propósito que iniciámos a leitura das obras de Alexandra Lucas Coelho a verdade é que, à semelhança do seu Viva México, Caderno Afegão não é um livro que se possa inserir nesta categoria. Excelente na crónica e na narração da realidade política, económica e até cultural de um determinado país tal não significa que a autora seja uma escritora de livros de viagem na medida em que as suas obras têm uma fortíssima componente jornalística.
Note-se no entanto que Caderno Afegão é um livro excelente. Dentro do género (e tendo como comparação o outro livro da autora publicado na mesma colecção) este é muito mais interessante e está bastante melhor escrito. Especialmente tocante o capítulo referente ao dia 22 de Junho em que a autora narra a história de uma família afegã que vive numa casa tão pobre «que estrela ovos numa bilha de gás, mas tão rica que lê os filósofos sufis e Wittgenstein.»
Pode acontecer que estejamos a ser um pouco injustos com Alexandra Lucas Coelho ao afirmarmos que não é uma escritora de viagens. A sua viagem ao Afeganistão decorre da sua profissão de jornalista durante o mês de Junho de 2008. Não teve oportunidade de viajar como Bruce Chatwin, Mountstuart Elphinstone, Robert Byron ou Marco Polo e que poder visitar com a mesma tranquilidade o melhor deste histórico país. Daí que este Caderno Afegão seja para além de tudo o resultado de grande mérito e coragem. Não sendo um livro de viagens foi muito mais do que esperávamos.
Caderno Afegão é um grande livro de uma óptima jornalista. Parece-nos que o Afeganistão foi generoso com a autora, nota-se isso na emoção com que escreve sobre o seu povo e as suas rosas. Quem quiser aliar a crónica jornalística (da qual decorre informação relevante sobre o país) com um pouco da poesia da literatura de viagens, encontrará em Caderno Afegão um belíssimo exemplo. Muito recomendado!

domingo, 2 de setembro de 2012

Na Patagónia

Na Patagónia é um livro do mundialmente famoso escritor inglês Bruce Chatwin.
Bruce Chatwin é, provavelmente, um dos mais aclamados escritores de viagens do século XX. Entre vários outros livros destaque para o seu Na Patagónia, o relato de uma viagem de seis meses por um dos mais inóspitos e perturbadores pontos do globo e também dos mais narrados entre os escritores de viagens.
Na Patagónia é um verdadeiro clássico na literatura de viagens e um dos mais conhecidos exemplos dentro do género. O fascínio que o sul do continente americano tem exercido sobre tantos não pode ser mera coincidência. Entre muitos outros, Paul Theroux e Luis Sepúlveda são dois magníficos exemplos sobre a forma como a Terra do Fogo tem polvilhado o imaginário de tantos viajantes.
Chatwin, um verdadeiro diletante mas escritor de mão-cheia, é verdadeiramente um excelente contador de estórias. As longas páginas do mais célebre dos seus livros estão repletas de maravilhosos momentos perfeitamente narrados por um artista da palavra. É através da busca de uma memória de infância que vamos calcorreando a Argentina e o Chile e vamos conhecendo não apenas as extraordinárias paisagens mas também as mais rocambolescas histórias esquecidas de heróis e anti-heróis.
Não obstante o brilhantismo de Na Patagónia e do seu autor a verdade é que não é com este género de narrativa de viagem que mais nos identificamos. Faltou emotividade e ligação com a realidade experienciada mas este é, inquestionavelmente, um grande livro.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Regressa, Coelho

Regressa, Coelho é o segundo volume da série Coelho da autoria do escritor norte-americano John Updike.
Na vida de um leitor existem momentos muito complicados, nomeadamente quando, por mero impulso (embora fundamentado na leitura de críticas positivas) compramos um determinado livro que acabamos por não gostar. Situação grave que, em determinadas circunstâncias, pode ainda ser pior, especialmente quando compramos logo três livros da mesma série. Foi o que aconteceu com Regressa, Coelho, o segundo volume da série Coelho de Updike que se revelou, ao longo das suas 400 páginas como sendo um verdadeiro martírio.
John Updike pode bem ser uma das grandes figuras das letras norte-americanas do século XX e escritor de grande visão e capacidade. Aliás, quanto ao estilo, nada temos a dizer no norte-americano. Simples, sem rodeios, repleta de imagens bem desenhadas. O nosso problema com a série Coelho é de outra dimensão: Updike traça o quadro de uma sociedade onde os valores morais estão absolutamente pervertidos e onde tudo, aparentemente, parece ser permitido.
Não questionamos que os anos 60 nos Estado Unidos da América tenham semelhanças com o quadro narrativo traçado por Updike. Note-se, inclusive, que em muitos momentos o texto é de uma riqueza impressionante enquanto meio de explicar alguns movimentos culturais e históricos (vide a guerra do Vietnam, a chegada do Homem à Lua, o relativismo moral do movimento Hippie, a problemática racial), mas a forma como Updike conta a história atinge momentos de verdadeiro dramatismo. Existindo problemas de natureza moral, social, económica a verdade é que a personagem principal não tem de sofrer com todos eles. E pior, não pode (podendo como é evidente) ser-lhes absolutamente indiferente.
Houve vários momentos ao longo da leitura deste segundo volume da série em que nos sentimos verdadeiramente avassalados com as peripécias e acontecimentos de tal forma que sofremos bastante para conseguir terminar o livro. Muito daquilo que faz um bom livro está neste Regressa, Coelho. Muitos podem, até, considerar uma obra de génio. Para nós é apenas emocionalmente desgastante!
Regressa, Coelho é um livro poderoso. Para nós, que ainda temos para ler o terceiro volume é apenas uma obrigação. Para aqueles que forem capazes de se distanciar do enredo ficcional encontrarão nesta série motivos de grande interesse. Soubéssemos, no entanto, com antecedência onde nos iríamos meter e não teríamos comprado nem sequer o primeiro!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Meu Nome É Legião

O Meu Nome É Legião é um livro do consagrado e extraordinário escritor português António Lobo Antunes.
Lobo Antunes é um dos mais relevantes escritores em língua portuguesa da segunda metade do século XX e do início do século XX. Aclamado entre nós e no estrangeiro é, ao mesmo tempo, uma das mais controversas figuras das letras em português quer devido à sua peculiar personalidade, quer em função de um estilo bastante próprio e que tende a afastar da leitura dos seus livros uma parcela importante do mundo literário.
Lobo Antunes é um génio, não existam grandes dúvidas sobre isso. Tal não significa que todos os seus livros sejam igualmente geniais ou que o universo literário esteja disponível para deificar o escritor português. Mas a prova do génio de Lobo Antunes reside na extraordinária forma de escrever. Na generalidade dos seus livros (pelo menos a partir de determinada altura), o curso da narrativa raramente é claro sendo constantemente interrompido pelas mais variadas interjeições nomeadamente através do recurso constante a uma analepse psicológico-histórica. Este estilo dificulta bastante a leitura dos seus livros. O leitor tem de estar num permanente estado de alerta (não se admitem quaisquer distracções) para conseguir acompanhar o sentido lógico da narrativa.
O Meu Nome É Legião não foge a esta regra. É um livro extremamente difícil, quer pelo estilo pessoal do autor (a fazer lembrar, de certa forma William Faulkner), quer pelo conteúdo do texto. Neste livro Lobo Antunes narra a vida de habitantes de um bairro social. Personagens sem nome, muitas vezes sem sexo distinguível, absortas numa realidade fantasmagórica, constantemente recordadas da sua condição e da sua história.
Noutras análises de livros de Lobo Antunes temos referido que para nós, na sua obra, o mais importante nem é o curso da narrativa antes o brilhantismo da sua escrita. Em O Meu Nome É Legião não encontrámos o esplendor que procurávamos e sentimo-nos desiludidos o que tornou a sua leitura, em vários momentos, um verdadeiro suplício.
Livro difícil (embora exista quem o considere um dos mais simples do autor), é um verdadeiro desafio. Para os indefectíveis de Lobo Antunes, certamente será motivo de prazer. Para os restantes o melhor será que não se aproximem do mesmo!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Foi assim

Foi assim é uma obra de Zita Seabra, dissidente do Partido Comunista Português e actual editora da Alêtheia Editores.
Zita Seabra foi, durante largos anos, relevante figura do PCP tendo sido sua dirigente e deputada depois de aos 17 anos, ainda durante o Estado Novo, ter estado na clandestinidade. Após um processo atribulado foi expulsa do partido tendo, posteriormente, sido eleita deputada nas listas do PSD.
Foi assim é o livro que narra as experiências políticas da autora durante a sua passagem pelo PCP desde a sua mais tenra juventude até ao momento da sua expulsão e um importante contributo para a compreensão historiográfica de um período político muito relevante bem como para a compreensão sobre os métodos e políticas de um partido que exerceu, em especial durante o PREC, um papel de enorme proeminência na realidade político-social portuguesa.
Zita Seabra não é uma grande escritora e isso fica claro ao longo das mais de 400 páginas deste livro não só porque a sua escrita não é apaixonante mas também porque, demasiadas vezes, se perde na narrativa repetindo problemáticas quando a repetição não faz grande sentido. Desta forma, o valor de Foi assim não é o de um grande romance, o de um extraordinário livro de ensaio ou sequer o de uma grande auto-biografia. Tal não significa que o seu valor, enquanto instrumento para a construção da história deva ser menorizado. Muitas vezes, quando se fala ou escreve sobre a organização interna do PCP, é difícil encontrar a verdade porque o contraditório não é feito ou porque aqueles que se pronunciam sobre essa realidade são menosprezados. Não saberemos, portanto, se todos os, muitos, factos apresentados são ou não fiéis à realidade mas pelo menos poderão ajudar a compreender o que se passou.
Foi assim não é um grande livro mas é uma obra extremamente interessante, nomeadamente para todos aqueles que gostam de história e de política. Recomendada, especialmente, para estes.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Viva México

Viva México é um livro da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.
Editado pela Tinta da China em 2010 Viva México é uma interessantíssima obra da jornalista Alexandra Lucas Coelho num cruzamento entre crónica de viagens e reportagem onde a autora traça um perfil sócio-cultural do gigante da América Central.
À partida, temos de confessar, sentimo-nos um pouco enganados. Estávamos à espera de um livro de viagens à semelhança de um género que, felizmente, tem proliferado também no nosso país. Não se equivoque, no entanto, o leitor, Viva México, não obstante ser um livro repleto de motivos de interesse, é muito mais uma crónica jornalística com diversas referências políticas, sociais e económicas. Note-se, porém, que existem também bastantes alusões de cariz cultural, nomeadamente com parágrafos estimulantes sobre Frida Kahlo ou Diego Rivera bem como uma tentativa de alusão à pré-história do país.
Alexandra Lucas Coelho é de escrita fácil e simples. Como boa jornalista revela capacidade para narrar de forma cativante a generalidade dos temas que pretende abordar. Nota, no entanto, para o facto de optar, muitas vezes, pela citação dos seus interlocutores. Não diminuindo o interesse do livro teria sido dispensável.
Viva México é uma obra importante para quem procurar saber mais sobre um país muitas vezes escondido dos olhares mais turísticos dos seus visitantes. Como roteiro que transmite emoções poderá pecar por defeito mas como crónica jornalística tem nota bastante positiva.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Nome de Código: Leoparda

Nome de Código: Leoparda é um excelente thriller sobre a Segunda Guerra Mundial do escritor galês Ken Follet.
Nome de Código: Leoparda é um thriller que se passa durante a Segunda Guerra Mundial e, baseado em factos verídicos, traça a história de um grupo de inglesas recrutadas para o esforço de guerra como agentes secretas.
Ken Follet é um dos mais lidos escritores da actualidade e autor de excelentes romances históricos. Através de uma escrita simples, directa mas verdadeiramente contagiante Ken Follet tem o raro dom de entusiasmar o leitor desde a primeira à última página. Nem todos os autores têm a capacidade de contar histórias entusiasmantes e ao mesmo tempo manterem um nível elevado na sua escrita. Capaz de evitar os lugares-comuns da fantasia história, Follet transporta-nos para um mundo de personagens bem pensadas e desenhadas, ambientes verosímeis e onde cada capítulo encerra momentos de verdadeira emoção.
Nome de Código: Leoparda é um excelente livro dentro do seu género. Para uma dúzia de horas bem passadas é uma boa referência de um grande escritor. Recomendado!

domingo, 29 de julho de 2012

A Jangada de Pedra

A Jangada de Pedra é um romance do Nobel português José Saramago.
Ao longo dos últimos anos temos tido a oportunidade de ler a obra de Saramago que pela sua originalidade e facilidade de leitura e compreensão (embora muitas vezes o autor recorra à metáfora e à parábola como instrumento de transmissão da mensagem) têm representado fonte de boas leituras.
A Jangada de Pedra é um livro que está bem dentro da linha daquilo que são os romances de Saramago. A ideia de que a Península Ibérica se separa do resto da Europa e que vagueia pelo Atlântico é bastante interessante bem como as personagens que vão dando vida às páginas da obra.
Na badana do livro inclui-se um pequeno texto do autor que pretende, talvez, explicar a obra. Aí se refere que a Península se desloca «a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico, desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o domínio sufocante que os Estados Unidos da América do Norte vêm exercendo naquelas paragens…» Não obstante a enunciação deste princípio de cariz político e do mesmo resultar da pena do autor temos de confessar que não encontrámos elementos, no livro, suficiente que pudessem demostrar que o autor atingiu o seu propósito. A ideia a estar consagrada na obra seria deveras interessante mas traçaria, certamente, um outro romance bem diferente do escrito.
No livro encontramos, no entanto, numerosos pontos de interesse, quer seja no adultério ou divórcio, quer na reflexão sobre a natureza da solidão e na necessidade existencialista do encontro do verdadeiro «eu».
A escrita de Saramago é muito rica, repleta de adágios populares que conferem aos seus romances uma proximidade grande face ao normal leitor. Em A Jangada de Pedra essa natureza popular da escrita do autor português está bem vincada.
A Jangada de Pedra é um excelente livro e as suas quase 450 páginas lêem-se com facilidade e prazer. Este é uma obra bastante aconselhada.

sábado, 7 de julho de 2012

Jesusalém

Jesusalém, é um dos mais aclamados romances do escritor moçambicano Mia Couto.
Lançado em Portugal em 2009, Jesusalém é um livro cativante. Mia Couto, um dos grandes nomes das letras em língua portuguesa, oferece ao leitor uma obra repleta de referências místicas numa escrita inebriante, cantada e verdadeiramente africana, uma demonstração de que os autores africanos de língua portuguesa conseguem conferir um ritmo absolutamente diferente à narrativa sem que tal afecte a essência da língua.
Jerusalém, cidade israelita (ou talvez do mundo), ponto de confluência das religiões monoteístas, local de redenção, redescoberta, nascimento, é a metáfora de Mia Couto neste magnífico romance. Um pai, dois filhos, um tio e um ex-militar são as personagens principais num livro onde se escondem muitos e diversos significados entre as linhas. Neste romance Jesusalém é ponto de chegada e refúgio mas é, sobretudo, local de renascimento.
Ao contrário do que possam dizer nem os escritores, nem os livros não são todos iguais. Narrando uma história, pintando locais ou personagens quase todos são capazes. Complicado é descrever o que é difícil de sentir e de explicar e nisso Mia Couto é mestre.
Jesusalém segue a mesma linha de outras obras do escritor moçambicano que tivemos oportunidade de ler. Livro intenso, espelha uma espiritual realidade africana que ainda não conseguimos descortinar por completa. Seja como for, Jesusalém é um grande livro. Muito recomendado!

sábado, 30 de junho de 2012

Cândido ou o Optimismo

Cândido ou o Optimismo é uma obra do francês François-Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire, uma das mais curiosas personagens do mundo cultural do século XVIII.
Cândido ou o Optimismo é um dos mais conhecidos livros de Voltaire. Esta edição da Tinta da China, com posfácio e notas (preciosíssimas) de Rui Tavares, conta ainda com um conjunto muito interessante de ilustrações de Vera Tavares.
Voltaire foi um homem do iluminismo e um grande crítico da realidade setecentista europeia. Cândido ou o Optimismo, pela primeira vez publicado em 1759 sob pseudónimo e de forma clandestina, é uma sátira fantástica e repleta de críticas à Igreja Católica através dos seus múltiplos tentáculos mas também a diversos povos europeus, desde os prussianos aos franceses, passando pelos espanhóis e ingleses.
Cândido, a personagem principal deste conto filosófico, viaja pela Europa e América do Sul, numa deambulação repleta de episódios verdadeiramente hilariantes. A sua musa Cunegundes (como a Dulcineia para D. Quixote) é o motivo principal das suas demandas.
Cândido ou o Optimismo é um livro absolutamente genial, repleto de ironia, fruto de um espírito violentamente crítico (de tal forma que em alguns casos Voltaire comete mesmo alguns erros). A sua leitura é um referencial cultural. Este é um livro muito aconselhado!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Outono do Patriarca

O Outono do Patriarca é um livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
García Márquez é, indubitavelmente, um dos maiores escritores do último século.
A sua escrita, de claro aroma sul-americano, é capaz de cativar como poucas e as temáticas por si abordadas são um reflexo evidente de uma parte significativa da realidade que caracteriza a segunda metade de novecentos.
O Outono do Patriarca retrata a vida de um generalíssimo ditador num imaginário país das Caraíbas. A evidente ficção – pela falta de referenciais verídicos – é completada pela irrealidade de alguns dos principais postulados da narrativa, como é o caso da provecta idade com que o ditador morre.
Sendo claramente um livro ficcional tal não significa que não se encontrem – ainda que em alguns casos hiperbolicamente – algumas características que pontilham as ditaduras sul-americanas do mesmo período sendo possível arguir que o autor não pretendeu a construção de um qualquer romance puramente resultado da sua imaginação.
Não obstante o evidentíssimo talento literário de García Márquez que fazem deste um autor de excepção, O Outono do Patriarca não é um livro de fácil leitura na medida em que os capítulos são excessivamente longos e a pontuação utilizada não permite as necessárias (no nosso entender) pausas.
 Note-se que, apesar de tudo, a cor, por vezes quase febril, impressa em cada frase ou palavra concedem ao leitor momentos de profundo deleite e prazer. García Márquez é um magnífico narrador e domina perfeitamente a arte de escrita.
O Outono do Patriarca não é um livro para todos os leitores. O esforço acrescido necessário para a sua leitura bem como a temática tratada podem desiludir e desviar alguns do seu caminho. Mas não será por isso que deixará de ser um livro brilhante. A ler!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Malas de Cartão

Malas de Cartão é uma obra da jornalista Patrícia Gameiro de Brito que se encontra dentro da habitualmente designada «literatura de viagens».
Ao longo dos últimos anos, e desde que descobrimos Bill Bryson, apaixonámo-nos pelos livros de viagens. Entre os autores nacionais, particular destaque para Tiago Salazar e, sobretudo, para Gonçalo Cadilhe, o expoente máximo da arte de bem descrever o amplíssimo significado de uma viagem.
Malas de Cartão é o resultado de uma viagem de 456 dias entre 2008 e 2009 onde Patrícia Gameiro de Brito teve a oportunidade de visitar cerca de 40 países sendo que foi norteada pela ideia de visitar os países onde se pode encontrar vestígios da cultura portuguesa, seja através do período áureo da epopeia dos descobrimentos ou através da diáspora dos emigrantes portugueses.
A «literatura de viagens» está repleta de nomes sonantes não só no estrangeiro (onde Marco Polo ou Bruce Chatwin e Luis Sepúlveda), como também no nosso país (Fernão Mendes Pinto ou os mais recentes Tiago Salazar e Gonçalo Cadilhe) pelo que não podemos deixar de ter em consideração os trabalhos já existentes quando nos debruçamos sobre um novo livro sobre esta temática.
Dito isto, a verdade é que Malas de Cartão nos deixou um pouco desapontados. O livro, que surgiu de uma parceria da jornalista com o jornal Correio da Manhã, poderia ter sido escrito de uma forma significativamente diferente daquilo que (presumimos) terão sido as crónicas publicadas no jornal. Os capítulos (alguns países têm direito a mais que um) são demasiado curtos e não se consegue compreender bem qual foi o objectivo da autora: se fazer uma narração da viagem, se, em alternativa, pintar os seus sentimentos pessoais. Não é que as duas coisas sejam incompatíveis (e.g. Gonçalo Cadilhe) mas não cremos que tenha sido atingido com a perfeição que esperávamos.
Note-se que, para os amantes deste género literário, o livro de Patrícia Gameiro de Brito será, ainda assim, uma boa obra e poderá proporcionar óptimas sensações. Entendemos, no entanto, que ficou um pouco aquém do que (pensamos) a autora tem capacidade de fazer até porque o seu estilo simples e emotivo lhe permite ter uma escrita muito agradável.
Malas de Cartão não é o melhor livro de viagens do mercado. No entanto, nas suas páginas podemos encontrar os elementos necessários que nos permitem sonhar. E afinal, com os direitos de autor, pode ser que Patrícia Gameiro de Brito possa continuar a investir no seu sonho. Quem sabe se, fora dos limites de um jornal não nos pode vir a oferecer outras (melhores) leituras!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A República dos Corvos

A República dos Corvos é um livro de contos (e título de um dos contos) do escritor José Cardoso Pires um dos mais relevantes autores portugueses do século XX.
A República dos Corvos reúne um conjunto de sete contos no qual se destaca Dinossauro Excelentíssimo, uma fantástica fábula de indiscritível imaginação, e que, no nosso entendimento, reflecte perfeitamente o espírito literário do já falecido autor português.
José Cardoso Pires tem um obra de grande amplitude dos contos, ao teatro passando pelo ensaio e pelo romance tendo, inclusive, algumas das suas obras sido adaptadas ao cinema e outras levadas a cena para além de um conjunto significativo de prémios literários.
A sua escrita não é muito simples sendo que o leitor deverá estar absolutamente concentrado na leitura por forma a não se perder na mirabolante imaginação e capacidade expressiva, característica, aliás, que é aquela que melhor distingue o autor. Para mais é preciso fazer notar que alguns destes contos assumem natureza política (escritos no período do Estado Novo), crítica do status quo.
A República dos Corvos é uma obra interessante mas nem por isso apaixonante. Não obstante, pelas características evidenciadas no livro o autor merece mais oportunidades para comprovar a sua enorme capacidade.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pastagens do céu

Pastagens do céu é um livro do norte-americano John Steinbeck, um dos mais relevantes escritores anglófonos do século XX.
Ao longo dos últimos anos temos tido a oportunidade de ler com relativa atenção a obra deste escritor vencedor do Nobel da Literatura em 1962. O seu estilo cativante (pausado, simples, realista) e as temáticas por si abordadas (a terra, o misticismo, as dificuldades do operariado, a miséria) permitem observar uma parte da história norte-americana muitas vezes esquecida pelas luzes da ribalta.
Pastagens do céu, não sendo um livro de contos, assume a estrutura de um. Doze pequenos textos, todos passados num vale californiano, retractam a vida dos seus habitantes, aventuras e desventuras, todos pontilhados com algum drama e, em muitos casos, até tragédia. Em comum, para além do espaço em que a acção decorre, apenas a família Munroe.
Curioso o facto de as personagens de Steinbeck terem uma relativa facilidade em conviver com os infortúnios e com as maiores desgraças. A placidez com o que fazem é extraordinária. Talvez esteja até em contradição com o arquétipo da realidade americana.
Dá gosto ler Steinbeck. Não estando entre os nossos escritores favoritos a leitura das suas obras não deixa nunca de ser uma experiência agradável. Por isso, aqueles que já tiveram oportunidade de ler algum dos seus livros não se sentirão defraudados com este Pastagens do céu. Não sendo um livro fantástico é um livro que se lê com facilidade e prazer.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nome de Toureiro

Nome de Toureiro é um peculiar livro do escritor chileno Luis Sepúlveda. Luis Sepúlveda é um dos nossos escritores favoritos e um daqueles cuja obra começámos a ler mais cedo, ainda na nossa adolescência. Obras como História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, O velho que lia romances de amor, As Rosas de Atacama ou Patagónia Express são algumas das mais belas que conhecemos e reflexo evidente de um talento genial de homem que não é apenas um grande contador de histórias mas um dos maiores escritores vivos. Estamos em crer que Sepúlveda, talvez ainda mais do que outros escritores, é um homem profundamente influenciado pelas suas vivências. Comunista na sua juventude esteve ao lado de Salvador Allende até ao golpe militar de Pinochet no início dos anos setenta. A sua saída forçada do Chile fê-lo correr meio mundo.
A generalidade das suas obras – pelo menos daquelas que conhecemos – fazem transparecer um excelente narrador de viagens bem como uma simplicidade aterradora da sua escrita e que se espelha no sucesso dos seus livros. Essa clareza é, provavelmente, um dos maiores atributos da sua escrita.
Nome de Toureiro faz-nos viajar ao mundo pós-queda do Muro de Berlim a uma sociedade de indivíduos marginais mas curtidos pela experiência na arte da guerra, numa demanda por um tesouro furtado durante a Segunda Guerra Mundial e que viaja até ao Chile. Interessante verificar os dilemas morais das diversas personagens e a inclusão, no mundo do romance, de indivíduos habitualmente relegados para outras artes.
Nome de Toureiro é um livro de fácil leitura. Sepúlveda, sendo um homem do mundo, letrado e conhecedor dos mais profundos confins da literatura não escreve – e ainda bem – como um snob. Este é um excelente livro, que se lê de um folego e que nos transporta ao maravilhoso universo da melhor literatura da actualidade.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mendigos e Altivos

Mendigos e Altivos é uma obra do escritor egípcio (embora escrevesse em francês) Albert Cossery, considerado a obra-prima deste autor africano e um romance absolutamente genial.
Albert Cossery é um escritor fantástico e Mendigos e Altivos é uma obra maravilhosa, sobretudo porque é capaz de nos conduzir a um mundo verdadeiramente surreal e ao mesmo tempo aparentemente verosímil com personagens muitíssimo bem construídas e uma narrativa capaz de prender o leitor desde a primeira página.
Neste romance Cossery conta-nos a história sobre gente pobre mas nem por isso menos inteligente ou capaz de lidar com a realidade. Quer seja Gohar – a personagem principal – quer qualquer uma das outras que o acompanham na narrativa, encontramos em todas as figuras resultado da imaginação de Cossery idiossincrasias próprias e encantadoras.
Em Mendigos e Altivos conta-se a história de um assassinato mas reduzir o livro a isso seria ignorar o verdadeiramente importante: o confronto entre civilizações, a problemática da verdade como fuga, o questionamento do progresso e da riqueza.
Mendigos e Altivos foi um dos melhores romances que tivemos oportunidade de ler nos últimos anos. Sem ser proto-existencialista não deixa de nos fazer pensar sobre a vida e não sendo à primeira vista um tratado de filosofia não deixa de colocar questões importantes e interessantes. A ler, sem dúvida!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Corre, Coelho

Corre, Coelho, é um livro do escritor norte-americano John Updike, considerado um dos maiores talentos literários do século XX.
Corre, Coelho, é o primeiro volume da série Coelho. Esta série, escrita ao longo de mais de trinta anos, valeu a Updike dois prémios Pulitzer, sinónimo de qualidade nos Estados Unidos da América.
Não obstante os predicados de Updike e desta obra, Corre, Coelho, não foi um livro que nos tenha entusiasmado especialmente, sobretudo porque o drama conferido à narrativa ensombra o que, na nossa opinião, o livro poderia ter melhor: um homem (Harry Angstrom), jovem, nos Estados Unidos da América do final dos anos cinquenta, confrontado com a instabilidade emocional da sua mulher alcoólica, procura fugir à rotina castradora da normalidade. Ao mesmo tempo, vive no limbo do moralismo de uma sociedade conservadora que procura, até ao último momento, a manutenção das instituições.
Este primeiro volume, que se estende por cerca de trezentas páginas tem, no entanto, momentos verdadeiramente aterrorizantes. Claro que fazem parte de uma imagem criada pelo autor mas ainda assim ferem a nossa sensibilidade.
Corre, Coelho, não é um livro mau. No entanto, não nos deixou deliciado. Temos ainda dois dos restantes quatro volumes para ler pelo que pensamos que existe ainda espaço para que a nossa opinião se altere.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Na Cova dos Leões

Na Cova dos Leões é um livro de Tomás da Fonseca, escritor português do século passado.
Livros como este Na Cova dos Leões não costumam ser usualmente referidos neste nosso blogue. Habitualmente optamos pelos romances mas tendo-nos calhado este em sorte, não podemos deixar de o analisar. Para mais, a chancela da Antígona é quase sempre sinónimo de grande qualidade.
Tomás da Fonseca foi um fervoroso republicano e um dos mais destacados membros de um informar movimento anti-clerical que teve o seu apogeu durante o início da primeira república.
Na Cova dos Leões é uma expressão absoluta das convicções anti-clericais do seu autor. Através de um conjunto de cartas dirigidas ao Cardeal Cerejeira, Tomás da Fonseca procura desconstruir, quer o cristianismo, num primeiro momento, e depois, as muito famosas aparições de «Nossa Senhora» aos pastorinhos em Fátima.
O estilo acusatório do autor é, em muitas circunstâncias, de uma violência impiedosa. Tomás da Fonseca usa o seu longo reportório e conhecimentos de natureza teológica para desmontar aquilo que designa como embuste de Fátima.
Na Cova dos Leões é um livro extraordinário para quem quiser procurar compreender o que aconteceu em Portugal – do ponto de vista religioso – durante grande parte do Estado Novo e que oferece uma visão a que poucas vezes é dado destaque a quando do tratamento do suposto milagre de Fátima. Naturalmente, para os crentes, Na Cova dos Leões será praticamente uma ofensa! Fica, pelo menos, a sugestão. Para os intrépidos!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Tratado Sobre a Tolerância

Tratado Sobre a Tolerância, é uma obra de François Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire, na sequência da execução de Jean Calas, condenado pela morte do seu filho que se havia convertido ao cristianismo.
Voltaire, vulto da cultura europeia, nasceu em França e viveu quase toda a sua vida no século XVIII tendo sido um dos grandes representantes do Iluminismo. Autor de uma vastíssima obra, destacou-se como ensaísta e filósofo.
Em Tratado Sobre a Tolerância, Voltaire discorre, tendo por base a execução de Calas, sobre aquelas que são, ainda, as circunstâncias sociais e culturais da Europa do século XVIII. Continente profundamente marcado pelas guerras religiosas decorrentes do movimento da Reforma e Contra-Reforma, a intolerância é uma constante, pelo que Voltaire, consciente dessa realidade, empreende uma defesa audaz de uma família injustamente acusada de um crime hediondo.
Tratado Sobre a Tolerância, não é, evidentemente, um romance, antes a representação real de uma situação vivida pelo autor em que este tece considerandos vários, não apenas sobre o caso sub judice, mas também sobre a sociedade da sua época. Não obstante, é um livro fundamental para a compreensão da Europa no século XVIII e, ao mesmo tempo, para a reflexão sobre os sinais da intolerância do presente.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Guerra do Fim do Mundo

A Guerra do Fim do Mundo é um extraordinário romance do peruano vencedor do prémio Nobel da Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa.
A nossa primeira experiencia com Vargas Llosa não foi a melhor. Há alguns meses tivemos a oportunidade de ler A Casa Verde e sentimo-nos bastante desiludidos. Uma história confusa, uma miríade de personagens, vários tempos cronológicos, para além de uma temática pouco aliciante foram factores decisivos para a nossa frustração!
Nada disso acontece com A Guerra do Fim do Mundo. Um romance baseado em factos verídicos, passado no Brasil no final do século XIX, que narra os acontecimentos verificados no estado da Baia, no lugar de Canudos, onde uma figura de contornos místicos/proféticos dá início a um processo de natureza messiânica que conduziu a uma verdadeira guerra civil e a milhares de mortos.
Vargas Llosa é um escritor de grande nível. As suas personagens – mesmo em A Casa Verde – são profundamente detalhadas (sobretudo a nível psicológico). É também um exímio contador de história. A capacidade que demonstra em construir mundos ficcionais – neste caso menos em função de estarmos perante factos verídicos – repletos de imensas e detalhadas personagens é fruto não apenas de um brutalíssimo trabalho mas também de um enorme e evidente talento.
A Guerra do Fim do Mundo é um livro violento. Não poderia deixar de ser de outra forma dada as circunstâncias dos factos romanceados. A guerra, seja ela qual for, é sempre dramática. Esta, que opôs o governo republicano brasileiro a civis – ainda de caboclos, ladrões, facínoras – tocados pelo Espírito Santo na figura de António Conselheiro, talvez, pela proximidade cultural, cause ainda maior perturbação. Interessante que a imensa panóplia de personagens inclua as diferentes perspectivas em contenda. Interessante também, o jogo político, e as múltiplas dicotomias ideológicas que são também abordadas no livro.
A Guerra do Fim do Mundo é um livro magnífico e um escritor que teremos, talvez, avaliado mal na nossa primeira leitura. Para todos aqueles que desejarem conhecer um pouco mais relativamente aos acontecimentos registados no Nordeste brasileiro no final do século XIX e ao mesmo tempo quiserem fazer uma viagem à intriga, à política e às ideologias do ocaso de oitocentos, este é um livro a não perder!