sábado, 30 de abril de 2011

A casa do silêncio

A casa do silêncio é um romance do escritor turco Orhan Pamuk, prémio Nobel da Literatura em 2006.
Pamuk era um autor desconhecido para nós, pois nunca antes tínhamos tido a oportunidade de ler nenhuma obra do Nobel turco. A casa do silêncio parece-nos ter sido um bom mote inicial.
A casa do silêncio está repleta de referências de carácter cultural, histórico e político. Impressionante a forma simples com que algumas questões de enorme complexidade são introduzidas no corpo do romance e a maneira como as personagens são moldadas nesse sentido.
Pamuk pareceu-nos um escritor de verdadeira classe. Sobretudo porque escreve de forma simples. Tal não significa que as personagens não sejam de enorme profundidade.
Em A casa do silêncio existem seis narradores diferentes: homens e mulheres; novos e velhos; ricos e pobres. E a riqueza destas personagens – bem como a multiplicidade de perspectivas que uma história contada nestes moldes oferece – confere um especial perfume a um ambiente carregado e denso.
A casa do silêncio é um óptimo livro. As analepses recorrentes – em particular com Fatma, personagens principal do romance – permitem introduzir questões são relevantes na cultura de um país muçulmano como as da morte, de Deus, do adultério ou do álcool. Decididamente, Pamuk é um autor para continuar a ler e este seu romance, definitivamente a ler.

sábado, 16 de abril de 2011

A Quinta Essência

A Quinta Essência é um belo romance da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís. Agustina Bessa-Luís, autora de uma vastíssima obra de onde se destacam os romances, foi, ao longo da sua vida, agraciada com vários prémios literários, sendo, indubitavelmente, uma das grandes escritoras portuguesas do século XX. Agustina escreve deliciosamente. As personagens, descritas ao pormenor, quer física, quer psicologicamente, são de enorme densidade e profundidade. Os ambientes, repletos de cheiros e relevos, transportam-nos directamente da ficção para a realidade. No entanto, são as narrativas que merecem o principal destaque na obra da autora, talvez porque repletas de vida e capazes de nos prender à evolução dos factos. A Quinta Essência revela em Agustina uma notável percepção face à história. Os contornos evocados pela progressiva degradação financeira da família Pessanha – associando-a à revolução de Abril – bem como a temática – ainda que parcialmente camuflada – da transferência de Macau de Portugal para a China são o mote essencial a partir do qual se constrói um mundo onde de poder, espiritualidade, amor e filosofia oriental. A Quinta Essência é um livro maravilhosamente bem escrito. José Carlos, personagem central, vê-se confrontado com um regresso ao tempo das epopeias. Entre Portugal continental e Macau desenrola-se uma história de contornos místicos, sobretudo porque docemente polvilhada por uma miríade de referências à cultura chinesa e à presença portuguesa no extremo oriente. Agustina Bessa-Luís ofereceu-nos uma brilhante obra que merece ser lida e conhecida. Depois de Sebastião José – obra bibliográfica – A Quinta Essência foi o primeiro romance desta autora que tivemos oportunidade de ler. E recomenda-se com vigor e entusiasmo!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Rebeldes

Rebeldes, é uma obra do fantástico escritor hungaro Sándor Márai. Rebeldes, foi o quarto livro de Márai que tivemos oportunidade de ler e, mais uma vez, não nos desiludiu. A obra de Márai tem algo de negro. Por vezes são as personagens. Outras as circunstâncias ou o enredo. Em Rebeldes, talvez devido à época em que se desenrola, tudo é mais escuro, sobretudo as personagens que vivem anos de descoberta e de dúvida. Efectivamente, o enredo de Rebeldes decorre numa pequena cidade num território que viria a ser a Hungria, durante o último ano da Primeira Guerra Mundial e narra a história de um grupo de jovens rapazes da classe média/alta que, no termo dos seus estudos liceais, vivem a profundidade da revolta perante um sistema, e mais concretamente, perante a autoridade. Márai é um autor de excepção. Nem todos conseguem captar com simplicidade a complexidade das experiências humanas e dos sentimentos de diferentes indivíduos. É que Márai fá-lo com clareza, quer retrate homens, quer mulheres sejam novos, ou velhos! A clareza em Márai esculpe personagens cujo significado transcende à da mera descrição de características de ordem física ou moral. Rebeldes, é um óptimo livro. Talvez não seja o melhor de Sándor Márai o que não faz com que seja menos bom. A temática abordada é de dificuldade elevada, pelo que é melhor ser lido com tranquilidade. Muitos segredos estão escondidos entre as linhas.