quinta-feira, 24 de março de 2011

Sôbolos rios que vão

Sôbolos rios que vão, é o mais recente livro – provavelmente o mais autobiográfico de todos – de António Lobo Antunes, escritor português, autor de uma vasta obra, e recentemente agraciado com um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Curiosa a recepção, no título, de Camões!
Não é a primeira vez que trazemos aqui uma obra de Lobo Antunes. Todos os seus leitores conhecem a dificuldade que é entrar dentro de um mundo onde os planos, aparentemente, correm muitas paralelamente e os cenários se confrontam em choques verdadeiramente titânicos. Os livros de Lobo Antunes são assim, ciclópicos, entusiasmantes, aterradoramente perturbadores e complexos.
O mesmo se passa com este Sôbolos rios que vão, uma metáfora que decorre no espaço de quinze dias, de 21 de Março a 4 de Abril. A temática é a doença. E dentro da doença, as recordações, a vergonha, a dúvida.
Lobo Antunes é um génio! Apenas os iluminados conseguem escrever sobre os pensamentos e torná-los claros. Apenas os dotados são capazes de entrar tão profundamente nos profundos significados da alma humana e de retirar – tantas vezes violentamente – o sumo da existência e até da própria inexistência.
Estamos definitivamente convertidos. Se inicialmente foi difícil compreender os meandros do pensamento deste genial escritor português, hoje somos capazes de olhar para a sua obra da única forma que ela pode ser vida. É que a poesia – ainda que feita de prosa – tem de ser lida com a alma. Sôbolos rios que vão, é magnífico!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Marlboro Sarajevo

Marlboro Sarajevo é um livro de contos do escritor bósnio, nascido em Sarajevo, Miljenko Jergović.
Não é habitual fazermos aqui comentários a livros de contos. É um estilo que raramente temos oportunidade de ler mas que, de quando em vez, suscita a nossa curiosidade. Ademais, é relativamente fácil lê-los. E, no caso de Marlboro Sarajevo, foi com enorme prazer. São cerca de trinta contos, muitíssimo bem escritos.
Miljenko Jergović é um autor da ex-Jugoslávia, nascido em Sarajevo Bósnia e Herzegovina, mas que vive, actualmente, em Zagreb na Croácia.
A riqueza cultural dos Balcãs é atestada pela profusão linguística de uma miríade de povos unidos, durante muito tempo, sob o jugo ditatorial de Tito. É um país de uma extraordinária beleza e de uma história intemporal.
Marlboro Sarajevo é, manifestamente, o reflexo das várias guerras nos Balcãs, com particular destaque para aquela que viria a conduzir ao fim da Jugoslávia. Escrito e publicado durante o certo a Sarajevo, os livros deste conto ilustram a realidade melancólica e tristemente apática da guerra e dos seus efeitos sobre os indivíduos e objectos. Sendo cru não é excepcionalmente violento.
Jergović pareceu-nos um autor dotado. Escreve com simplicidade e clareza e os contos são belos (uma beleza triste) e profundos. Existem, certamente, outras formas de contar a guerra e a destruição, mas neste livro Jergović soube faze-lo poeticamente.
Marlboro Sarajevo foi uma muito agradável surpresa. A literatura não se faz exclusivamente de autores anglo-saxónicos e de histórias de vampiros. A realidade é quase sempre mais inventiva que a própria ficção e por isso este livro de Jergović é, claramente, muito recomendável.

terça-feira, 15 de março de 2011

As perturbações do pupilo Törless

As perturbações do pupilo Törless é uma obra do genial e complexo Robert Musil autor de O homem sem qualidades.
Robert Musil é um dos grandes nomes da literatura mundial do século XX. A sua obra, que se encontra, mais recentemente, traduzida pela Dom Quixote é de uma erudição extraordinária e a complexidade filosófico-metódica do seu pensamento encerra em si mesmo um desafio de enorme dificuldade.
Não obstante, Musil é perfeito na escrita. Consegue traduzir na sua obra algumas das principais questões filosóficas da sua época. Para mais, as personagens estão muitíssimo bem construídas e entende-se perfeitamente qual o sentido que quis dar à narrativa.
As perturbações do pupilo Törless foi o primeiro livro de Musil (1906) e é, em comparação com O homem sem qualidades, um romance acessível e perfeitamente compreensível pelo leitor médio.
A história centra-se num jovem austríaco e nas dúvidas e angustias de que sofre num colégio particular, sobretudo no que toca à sua relação com outros jovens da mesma instituição e com um em particular: Basini.
É um livro fisicamente violento! Uma das questões principais está relacionada com a homossexualidade mas em causa está também o excesso de violência física e psicológica bem com as divagações, meta-filosóficas, em torno de conceitos como os de alma, de infinitude ou realidade.
A edição que tivemos oportunidade de ler (Dom Quixote) conta ainda com uma excelente introdução a Musil de João Barrento. Indispensável para quem quer entender melhor este complexo e atraente autor. Livro, definitivamente, a ler.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Case Venie

Case Venie é um romance da italiana Romana Petri, escrita de reconhecidos méritos e amplamente premiada.
A ideia de romancear o final da segunda guerra mundial em Itália no momento seguinte à assinatura do armistício entre este estado do sul da Europa e os Aliados e subsequente invasão alemã é interessante e admitíamos, à partida, ser capaz de resultar numa obra com alma e dimensão histórica.
Infelizmente Petri parece ter optado por querer incluir neste livro uma estranha e mal delineada alusão às relações entre vivos e mortos, centrada na figura principal da obra: Alcina.
Petri não apresenta, neste livro, uma escrita erudita ou sedutora ao ponto de nos colar aos elementos instrumentais da narrativa. A riqueza sensorial de uma época única da história, bem como a profundidade temática do momento poderiam ter dado azo à exploração da realidade da resistência italiana, o que teria sido profundamente mais interessante. Não é que Petri escreva mal ou que seja incapaz de narrar uma história. Só que, apesar do esforço, nos pareceu insuficiente.
A tentativa – aplicada mas mal conseguida – de fazer da personagem principal um elo de ligação entre mortos e vivos, entre o passado e o futuro, parece-nos demasiado forçada. É que o resultado final poderia ter sido melhor caso não tivesse sido esta linha a seguida.
Case Venie, no entanto, não é um livro terrível ou miserável. Os dois últimos capítulos salvam, de alguma forma, a face da autora porque conseguem imprimir alguma da emoção que vai estando camuflada ao longo de quase toda a obra. Infelizmente não conseguem fazer desta obra mais do que um livro suficiente.