quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica é uma extraordinária obra do brasileiro, praticamente desconhecido em terras lusas, Raduan Nassar.
Nassar, autor de obra breve e contida, pareceu-nos um escritor de grande nível literário e cultural. A sua escrita, repleta de metáforas e alegorias, é de grande complexidade. Para mais, os capítulos, são na sua grande maioria em texto corrido, o que dificulta ainda mais a sua leitura. Neste sentido, a recensão – em posfácio – de Sabrina Sedlmayer (na edição da Relógio D’Água) é de grande utilidade na compreensão de muitos aspectos menos evidentes numa leitura descontextualizada e sem qualquer apoio científico.
Lavoura Arcaica é, evidentemente, um reflexo das características de Nassar. Uma obra poderosa e em muitos momentos bastante violenta sobre uma temática que é hoje, como tem sido há séculos e continuará a ser no futuro, de enorme impacto emocional sobre os leitores: o incesto.
No entanto julgamos que reduzir Lavoura Arcaica a um livro sobre o incesto é diminuir, radical e injustamente, a profundidade deste livro. As múltiplas, e muito intrincadas, referências de natureza religiosa, a sagacidade na explanação sobre a natureza humana, o campo como centro da acção conferem a este livro características únicas que fazem dele uma verdadeira obra-prima.
Nassar foi uma óptima surpresa. A literatura brasileira, tantas vezes desconhecida entre nós, é capaz de produzir autores e livros de verdadeira excepção. Lavoura Arcaica é um livro monstruoso! Mas, e como todos os grandes livros, não parece ser para todos! É apenas para os incautos e para os verdadeiros apreciadores de boa literatura!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Contos hieroglíficos

Contos hieroglíficos, é uma obra do inglês Horace Walpole, político e escritor inglês do século XVIII.
Há livros estranhos, diferentes, quase loucos! Este Contos hieroglíficos é, provavelmente, a mais estranha obra que tivemos oportunidade de ler até à data.
Como classificar uma obra onde o disparate, a completa ausência de lógica, o absurdo assumem o papel principal? Que críticas tecer a um livro que apenas se pode ler pelo prazer simples de descobrir em cada frase a contradição da frase anterior?
Walpole, cuja principal obra foi O castelo de Otranto, embora tenha escrito textos fundados no culto ao paradoxal, terá, na época, tido um impacto significativo nas letras inglesas. Talvez porque – a avaliar por Contos hieroglíficos – embora tudo pareça ilógico, os contos que este reproduz conseguem, por incrível que tal seja, cativar o leitor. Quem sabe se não será devido ao facto de todas as frases encerrarem enormes surpresas.
Não se poderá ler Contos hieroglíficos a pensar encontrar a mais bela ou profunda história de amizade ou o canto poético do amor. No entanto, a leitura também deve ser divertida e surpreendente. E Contos hieroglíficos é uma coisa e outra. Um livro, sem dúvida, a ler!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Herança de Eszter

A Herança de Eszter é um fantástico e maravilhosamente bem escrito livro do escritor de origem húngara Sándor Márai.
Márai, de quem já tivemos oportunidade de ler As velas ardem até ao fim e A Mulher Certa, é um autor magnífico. A sua escrita poderosamente perturbante cativa os leitores desde o inicio até ao fim e os seus livros, tendencialmente envoltos numa bruma fantasmagórica, despertam violentamente a atenção de que os lê.
A Herança de Eszter é, também, um livro repleto de motivos de interesse. A personagem principal, Eszter, mulher só, mortificada pela presença ausente de um homem – Lajos – que alterou dramaticamente a sua vida, descreve a forma como foi, pela última vez, conscientemente enganada pelas artes retóricas do amante que nunca o foi.
Márai escreve de forma subtilmente magnífica. As suas personagens, sentimentalmente densas mas perfeitamente desenhadas, são absolutamente inebriantes. Por vezes, o argumento nem parece o melhor, mas a forma como a história é contada convence sem margem para dúvidas.
A Herança de Eszter é um livro extraordinário. Lê-se de um fôlego – com cerca de 150 páginas – mas os efeitos que produz nos leitores perduram por muito tempo. Talvez seja este o factor que permite distinguir os grandes livros e os grandes autores de outros que não passam de medianos: estas obras ficam para sempre, porque o seu conteúdo não é circunstancial mas antes intemporal. A Herança de Eszter é, pois, um livro muito recomendável.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Memorial do Convento

Memorial do Convento é, talvez, a mais conhecida e estudada obra do Nobel da Literatura português, José Saramago.
Já há algum tempo que iniciámos a leitura da obra de Saramago. O estilo, limpo, escorreito e simples está presente na generalidade dos seus livros de forma constante. Saramago não se distingue pelos arrebites estilísticos antes pela forma como conta as histórias.
Em Memorial do Convento temos muito mais do que o relato da construção do Convento de Mafra. Temos muito mais do que a história de Baltazar e Blimunda. Temos, sobretudo, o mundo fantasioso das passarolas, o amor místico e perfeito entre duas personagens improváveis, a camuflada crítica à religiosidade empedernida e à dualidade social.
Memorial do Convento é um excelente livro. As personagens são cativantes e ao mesmo tempo perturbadoras. A simplicidade melódica de Baltazar e a espiritualidade encantadora de Blimunda são magníficas, da mesma forma que Bartolomeu (o padre jesuíta) é a antítese da Igreja.
Memorial do Convento está repleto de pormenores de excelência. Saramago tem a inconfundível capacidade de escrever com as palavras do Povo e de incluir nas suas obras o resultado de uma sapiência popular tantas vezes desenhada nos provérbios.
Memorial do Convento é um livro a visitar. Mas não porque resultado de uma leitura obrigatória para os estudantes, antes como puro deleite por uma história muitíssimo bem contada.