domingo, 2 de janeiro de 2011

Conhecimento do Inferno

Conhecimento do Inferno é uma obra de António Lobo Antunes, que, conjuntamente com Memória de Elefante e Cus de Judas, faz parte de uma trilogia dedica aos recantos mais profundos da alma.
Conhecimento do Inferno foi uma das primeiras obras do escritor lisboeta e é, tal como a generalidade dos seus romances, profundamente marcado pelas influências de que o autor é alvo, nomeadamente a guerra colonial ou o exercício da sua profissão de médico psiquiatra.
E, precisamente, neste magnífico romance é exultada a extraordinária e complexa relação do narrador com a vida num hospital psiquiátrico e as reminiscências da vida e guerra colonial portuguesa das décadas de sessenta e setenta, numa diegese emocionalmente violenta e profunda.
O cenário de uma viagem de automóvel é pontilhado de acessos de memória descritiva sobre acontecimento temporalmente espalhados e, muitas vezes, verdadeiramente confusos.
A obra de Lobo Antunes é de grande beleza e perfeccionismo, mas também de enormíssima complexidade, sobretudo, porque ao estilo de Joyce ou de Faulkner, as mudanças no narrador são muitas vezes abruptas, sem qualquer sinal de aviso.
No entanto, neste Conhecimento do Inferno, encontramos frases, parágrafos, páginas, capítulos verdadeiramente geniais, de um nível extraordinário, capazes de tocarem o céu! E isto só está ao alcance de poucos, muito poucos!
Lobo Antunes é um dos maiores escritores vivos. A sua obra, que retrata com enorme profundidade parte muito significativa dos últimos quarenta anos da história portuguesa, é incontornável. Conhecimento do Inferno é um livro a ler. Com calma, paciência, tranquilidade e tempo, mas um livro imperdível.

8 comentários:

t i a g o disse...

Quero ler Lobo Antunes. Não foi só por uma vez que, entrando numa livraria, li o primeiro capítulo de uma obra sua. Já o fiz com 3 ou 4 livros... mas com estas re-edições das capas, por vezes fico com receio que as lombadas vão ficando diferentes na minha prateleira. Medos estúpidos.

Não passa deste ano.

Bom 2011 para ti, cheio de boas leituras!

Í.ta** disse...

pois é, cara, eu já tentei ler esse livro, e um outro dele, o manual dos inquisidores. e baita dificuldade. larguei mão. é autor para ler mais pra frente, creio. uma genialidade que eu de fato não alcancei. tenho muita estrada-leitora para isso ainda :)

abraços.

Anónimo disse...

Desculpem meter a foice, ainda por cima para destoar.

Mas Lobo Antunes é o estereótipo do escritor que não me interessa.

Perde-se na estética da própria escrita, que faz com uma densidade notável. É o tipo de escritor cujos livros se lêem começando em qualquer capítulo, em qualquer parágrafo.


A beleza está no texto em si.

A história, as emoções, o enredo, a informação as curiosidades, que é aquilo que eu procuro num livro, não consigo encontrar no pouco que li deste autor.

Por isso não o procuro, além de que me irrita a sua sobranceria supostamente intelectual em relação a outros escritores com muito mais audiência que já o ouvi apoucar.

cumps

Filipe de Arede Nunes disse...

Não discordo de parte da análise do nosso comentador anónimo, sobretudo quando caracteriza a escrita de Lobo Antunes.

No entanto, o que nos move na literatura e na leitura, e ao contrário do comentador anónimo, não é exclusivamente a narração dos factos! A capacidade de escrita de Lobo Antunes é notável! E isso também é de aplaudir.

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Carlos disse...

Desculpem ter escrito anonimamente
(embora o meu nome não adiante grande coisa)

Carlos disse...

Caro Filipe

Claro que a capacidade de escrita é de aplaudir.
Apenas questionei porque acho que não pode ser um fim em si mesmo.

Em todo o caso, apenas manifestei a minha opinião; aceito perfeitamente que haja outras bem divergentes, e ainda bem porque só assim se garante mercado para todos.


Cumps

Bill disse...

Em ALA a escrita é um fim em si mesmo. Quem já leu toda a sua obra, compreende que o enredo, a trama, são consumidas por um densidade de vocabulário e por uma caracterização muito "instável" da condição humana, que muito se deve à sua experiência de psiquiatra. O Carlos acha que a capacidade de escrita (?) não pode ser um fim em si mesmo, pois bem, o estilo e a forma são exercícios de estética comunicativa entre o leitor e o autor. E se querem vos diga (provavelmente não querem), ALA, consegue muito serenamente misturar uma escrita torrencial e uma escrita de oficina, ou seja, lendo ALA a ideia é de uma torrente, mas ninguém consegue aquela riqueza torrencialmente, por isso, só pode ser uma escrita de oficina. Não é muito fácil explicar. Outra questão, para quem nunca leu ou não consegue ler ALA (coisa inexplicável), deve-se começar pelo primeiro livro, somente, por uma questão de maior clareza na descoberta da obra e do crescimento do autor. É um caso em que tal é mesmo necessário. Por último, quando lerem ALA não tentem perceber a história, ela pode existir ou não, se existir vão acabar por descobri-la, mas ela não é o mais importante. E por favor, não caiam no erro de voltar atrás quando não percebem alguma frase. Aquilo é para ler a abrir.

Carlos disse...

"Por último, quando lerem ALA não tentem perceber a história, ela pode existir ou não, se existir vão acabar por descobri-la, mas ela não é o mais importante."

(citando BILL)


Caro Bill, esse parágrafo, que só confirma o que eu penso, pode ser a sua razão de ler Lobo antunes.

É a razão porque a mim não me interessa.

E ficamos todos amigos como dantes

abraços