quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Educação Sentimental dos Pássaros

A Educação Sentimental dos Pássaros é o mais recente livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa.
Durante este ano de 2011 tivemos oportunidade de ler alguns dos romances do escritor africano Agualusa. O seu estilo descomplexado e com um doce travo a África foi um extraordinário incentivo para a continuação das suas obras e veio acrescentar argumentos à cada vez mais notória literatura produzida em português africano.
A Educação Sentimental dos Pássaros recolhe onze pequenos e maravilhosos contos onde é possível encontrar, até, incursões do autor dentro das questões de natureza política, como são os contos sobre Jonas Savimbi ou Hilary Clinton. Mas é mais do que isso! Através das palavras e ideias simples, Agualusa transporta-nos a um mundo onde, muitas vezes, é difícil distinguir entre o real e a pura imaginação.
José Eduardo Agualusa é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa da actualidade. Já o havíamos escrito no último texto de análise a um dos seus livros e repetimo-lo novamente. Ler os seus livros é um exercício de prazer e A Educação Sentimental dos Pássaros é um livro, definitivamente, a ler!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cão Como Nós

Cão Como Nós é uma obra de um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, Manuel Alegre.
Embora Manuel Alegre seja, sobretudo, um excelente poeta, Cão Como Nós é um pequeno romance deste autor português. Não obstante o estilo é o de uma prosa poética, repleta de belíssimos momentos da descrição da relação entre um cão (épagneul-breton) chamado Kurika e a família do famoso poeta português e em particular com o próprio.
Cão Como Nós é uma história comovente, de uma beleza impressionante. Manuel Alegre transporta-nos ao epicentro das suas memórias e ilustra-nos com uma precisão notável a difícil/fantástica relação que teve com o seu amigo de quatro patas.
Muito interessante, para todos aqueles que convivem com animais, as semelhanças que encontramos com as nossas próprias experiencias e a forma como entendemos os sentimentos de animais que estão tantas vezes mais próximos de nós de que muitos humanos.
Cão Como Nós é um excelente livro que atingiu recentemente a sua 22.ª edição e mais de cem mil exemplares vendidos. Ainda bem! Nem sempre os grandes livros têm o privilégio de ser lidos por multidões! E este é mesmo um grande livro!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Aprender a Rezar na Era da Técnica

Aprender a Rezar na Era da Técnica é um livro do português Gonçalo M. Tavares um dos maiores – senão mesmo o maior – nomes entre as letras nacionais contemporâneas.
Gonçalo M. Tavares é o nosso escritor português favorito da actualidade. Os seus livros – e em particular os livros pretos da tetralogia O Reino – são absolutamente extraordinários. Profundamente violentos e mordazes são reflexões intestinas sobre a mais recôndita natureza humana, reveladores de uma fabulosa capacidade de retrospectiva sobre a face menos visível dos indivíduos.
Aprender a Rezar na Era da Técnica é a expressão autêntica desta temível forma de escrita. Através de Lenz Buchmann, Gonçalo M. Tavares dá expressão a uma fantástica narração das característica de um ser cruel, indiferente e indecente que observa a sociedade através de um prisma de absoluto relativismo moral. Não deixa de ser curioso que as personagens de Gonçalo M. Tavares caíam sempre fora dos moldes tradicionais da moderna literatura.
Aprender a Rezar na Era da Técnica é um magnífico livro. Poderoso e absolutamente violento é um exemplo perfeito da qualidade das letras portuguesas. Gonçalo M. Tavares vai continuar por aí e acabará por ser, certamente, um dos mais galardoados escritores da sua geração.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O Vendedor de Passados

O Vendedor de Passados é um romance do angolano José Eduardo Agualusa.
Há alguns meses tivemos a oportunidade de ler, pela primeira vez, um romance de Agualusa: na sorte calhou-nos Barroco Tropical, uma obra fresca com um imenso sabor a África.
Em O Vendedor de Passados Agualusa conta-nos, em primeiro lugar, a história de Félix Ventura, um homem capaz de fazer brotar bons antepassados do mais desprezível indigente. Mas, e ao mesmo tempo, conta-nos também a história de José Buchmann, misterioso comprador de passados e crente absoluto na teia ilusória da irrealidade criada e de uma osga que se recorda de ser homem!
Agualusa é um dos mais talentosos escritores em língua portuguesa na actualidade. A sua escrita é fluida, melodiosa, cantada, com personagens maravilhosamente construídas e cativantes.
O Vendedor de Passados é um livro que se lê num ápice e cujas páginas percorrem os nossos dedos com uma facilidade tremenda. Este é um muito bom livro e que não podemos deixar de aconselhar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, é um romance moçambicano Mia Couto.
Mia Couto é um dos mais famosos escritores africanos de língua portuguesa. Ao longo dos últimos anos te construído uma carreira sólida e com momentos de grande brilhantismo. Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, foi o primeiro romance de Mia Couto que tivemos oportunidade de ler. Em boa hora!
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra é uma obra de grande beleza e de uma profundidade melódica com sabor a África. A história, sobre o enterro do avô Mariano, patriarca da família, contada com pronúncia africana, tem um ritmo diferente da maioria das histórias que vamos lendo ou ouvindo por aí. Talvez porque em África se viva de forma diferente, mais livre e pausadamente.
Este livro está repleto de belas e profundas personagens, cada uma com traços especiais que lhes permitem receber a sua dose individual de participação activa na construção da narrativa. O mais curioso, passa provavelmente, pelo conteúdo místico deste livro. Um morto que se expressa através de cartas e que guia a personagem principal, tranquilamente, em direcção a uma verdade perdida no tempo.
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, é um muitíssimo bom livro. Longe do rebuliço das grandes cidades, afastado nas narrativas modernas sobre a casualidade absurda da vida, Mia Couto transporta os seus leitores a lugares diferentes e únicos. Um livro a ler!

domingo, 27 de novembro de 2011

Gente Pobre

Gente Pobre foi o primeiro romance do escritor oitocentista russo de Fiódor Dostoiévski.
Dostoiévski é, certamente, um dos maiores escritores da história. Autor de obras mundialmente conhecidas (como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Idiota), deixou marca profunda no mundo das letras.
Nos romances de Dostoiévski que já tivemos oportunidade de ler, é-nos possível encontrar um traço distintivo que passa pela origem humilde – por vezes mesmo miserável – das suas personagens. Para além da natureza modesta, é possível ainda afirmar que as personagens dos seus livros tendem com facilidade para a auto-humilhação.
Em Gente Pobre é-nos descrita a história de um homem e uma mulher, ambos muito pobres, que trocam cartas relatando os seus dias, as suas experiências e até um pouco do seu passado. É interessante verificar que ao longo da narrativa, a já muito negativa situação financeira inicial, degrada-se ainda mais. Por conseguinte a humilhação é ainda mais evidente!
Fiódor Dostoiévski foi um grande escritor, isso é inquestionável. No entanto, Gente Pobre não foi um livro que nos tivesse nos tivesse proporcionado uma leitura muito agradável. O autor é sempre livre de contar a história que entende! E o leitor de gostar – ou não – da forma como a história é contado! Talvez não fosse necessário fazer passar as personagens por tantas agruras.
Gente Pobre, embora tendo sido escrito em fase precoce na vida do autor, é um bom livro. Longe, no nosso entender, de ser dos mais brilhantes, mas interessante, sobretudo para quem se não importar de ver as personagens sofrer do princípio ao fim do livro!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Notícia de Um Sequestro

Notícia de Um Sequestro é um livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
Ao longo dos anos temo-nos habituado o ler as obras de García Márquez e a considera-lo um dos maiores escritores vivos. Os seus livros, repletos de um puro encanto sul-americano, conseguem sempre levar os leitores a mundos distantes e a forma apaixonada como escreve transmite uma sensação de realidade às suas narrativas como poucos escritores ainda são capazes.
Notícia de Um Sequestro é um livro um pouco diferente! Sobretudo porque não é um mero romance, antes uma narrativa construída com bases em factos verídicos: um sequestro que ocorreu na Colômbia no início da década de noventa do século passado.
As personagens principais são os sequestrados – na generalidade pessoas ligadas ao jornalismo – as suas famílias, o poder político e Pablo Escobar um muito conhecido traficante de droga.
Notícia de Um Sequestro é um excelente livro. A oportunidade de conhecer uma história que apaixonou a Colômbia durante tanto tempo e contada por um dos maiores escritores da actualidade é fenomenal. Em muitos momentos foi quase possível entender a angústia dos sequestrados e das suas famílias, o braço-de-ferro entre narcotraficantes e poder político e os esforços hercúleos de alguns para encontrar soluções.
O talento de García Márquez é assaz conhecido. Notícia de Um Sequestro é um livro para ler e reflectir. Mas apenas para os mais incautos!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Naufrágios

Naufrágios é um livro do escritor chileno Francisco Coloane.
Naufrágios é um livro diferente. Ao contrário do que é habitual, esta obra – com prefácio do também chileno Luis Sepúlveda – é uma antologia de textos sobre o mar, marinheiros, capitães e, como o próprio título indica, sobre naufrágios.
A inspiração de Coloane foi uma obra de Francisco Vidal Gormaz também intitulada Naufráfios. O trabalho de Coloane em quase toda a obra, aparentemente simples, é o de comentar, com dados novos e sugestões de interpretação, o texto de Vidal Gormaz. Na parte final inclui alguns naufrágios novos e dá-lhes vida!
Em Naufrágios temos quinhentos anos de acidentes no mar. Temos a história de homens poderosos e sobretudo temerários. O Chile, país com uma costa com mais de cinco mil quilómetros de extensão, repleta de perigos e armadilhas, tem sido, desde a sua descoberta pelos ocidentais, lugar de aventura, felicidade mas também catástrofe. Foi a este mundo que Coloane escolheu nos transportar.
Naufrágios pode não ser o livro mais cativante do mundo e, para a grande maioria dos leitores, pode até ser aborrecido e desprovido de interesse. Para nós, foi uma boa companhia durante as pouco mais de duzentas páginas. Não será uma obra-prima, nem sequer particularmente original, mas é um livro bastante agradável.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Homenagem à Catalunha

Homenagem à Catalunha é uma obra do escritor e jornalista inglês George Orwell.
George Orwell é um dos mais conhecidos escritores do século XX e autor de duas das mais significativas obras publicadas nesse século: 1984 e A Quinta dos Animais. Estes livros, de marcado cunha político, retratam uma sociedade doente e que marca grande parte do século XX. Seja através da distopia de 1984 ou da parábola de A Quinta dos Animais, Orwell, genialmente, caracteriza o onírico e o real na perfeição.
Homenagem à Catalunha é um livro diferente. Defensor de ideias anarquistas, Orwell lutou ao lado da República durante seis meses na Guerra Civil Espanhola. Após ter sido ferido em combate assistiu às lutas intestinas dentro das facções apoiantes da República, nomeadamente à tentativa de destruição do movimento anarquista pelos partidos marxistas.
Homenagem à Catalunha é, portanto, um livro de relatos sobre a guerra. Mas, e ao contrário do que eventualmente poderia ser de esperar – dado que Orwell era jornalista – o autor não se limita a descrever, apoliticamente, a situação, antes tomando parte.
Para nós, que pouco sabíamos sobre a Guerra Civil Espanhola, Homenagem à Catalunha teve o condão de despertar o interesse por este conflito que minou a Europa na década de 30 do século passado. É que Orwell, de quem já conhecíamos o brilho através das suas obras mais conhecidas, mostrou ainda ser capaz de descrever com particular interesse uma realidade de muito difícil compreensão.
George Orwell é um dos autores que mais nos cativou com a sua obra. Homenagem à Catalunha é, naturalmente, diferente de 1984 ou A Quinta dos Animais. No entanto, é um livro soberbamente bem escrito de muito interesse para aqueles que procurarem compreender a Europa num momento que foi de enorme clivagem político-ideológica. Definitivamente, a ler!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

São Jorge dos Ilhéus

São Jorge dos Ilhéus é um interessantíssimo romance de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos: Jorge Amado.
Nunca antes nos tínhamos abalançado na leitura da obra de Jorge Amado. Muito conhecido, entre nós pelos romances que resultaram em telenovelas – Tieta do Agreste, Gabriela Cravo e Canela, Dona Flor e os seus Dois Maridos, entre outros – escreveu ainda, entre várias outras obras, Capitães da Areia, provavelmente a sua obra-prima.
São Jorge dos Ilhéus é um óptimo romance, combinando, ao mesmo tempo, a crítica social e política com um relato sobre a indústria do cacau no Brasil do início do segundo quartel do século XX.
Nesta obra encontramos uma multiplicidade de personagens – sem que nenhuma seja verdadeiramente o centro da narrativa – ao bom estilo de uma novela. Personagens estas perfeitamente caracterizadas, polidas com fulgência, com cheiro e sabor a Brasil. Entre negros, e coronéis, passando pelo retrato de um mundo político em mudança – a ascensão do integralismo, do comunismo e do imperialismo – repleto de crítica de costumes, Jorge Amado proporciona aos leitores uma narração divertida e simples mas que, de forma paradoxal, permite também a reflexão sobre temáticas de grande profundidade intelectual.
Não é por acaso que Jorge Amado é considerado um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos. Apesar das suas opiniões políticas estarem vertidas em todo o texto – poderia ser doutra forma? – Jorge Amado revela-se como um brilhante contador de histórias, onde negros, coronéis, prostitutas e exportadores assumem o papel principal.
São Jorge de Ilhéus é um bom livro que abre o apetite para a leitura da restante obra de um dos grandes escritores do século XX. Recomenda-se!

sábado, 29 de outubro de 2011

Paralelo 42

Paralelo 42 é um romance do americano John dos Passos.
Paralelo 42 é o primeiro volume da trilogia U.S.A. que é considerado por alguns o maior romance escrito nos Estados Unidos da América nos últimos cem anos.
Uma vez que apenas tivemos, até ao momento, a oportunidade de ler o primeiro volume, é-nos impossível tomar opinião definitiva sobre afirmações tão polémicas e discutíveis como aquelas que afirmam que um romance é, ou não, o melhor de um determinado período.
Paralelo 42 narra a história de cinco diferentes personagens. O tempo histórico, que decorre entre o final do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, deixa claramente entender que o autor pretendeu incluir as suas personagens num período em que os Estados Unidos da América se transformam na grande potência política/económica do século XX.
A narrativa é agradável! O autor, ao longo das quase quatrocentas páginas, dá-nos a conhecer, com bastante interesse a vida de cinco americanos comuns: Mac, Janey, Eleanor, Ward e Charley. Estas personagens, que se vêm confrontadas com a sua simplicidade natural, recusam-se a permanecer anónimas ou coniventes com o marasmo da existência. No fundo, entendemos que dos Passos as empurra numa longa demanda – repleta de vitórias, mas também de derrotas – em busca do sonho americano.
O primeiro volume doa trilogia U.S.A. é um bom começo. No entanto, é difícil avançarmos muito mais na análise uma vez que necessitamos de ler os outros dois volumes. Esta Paralelo 42 suscitou o interesse na leitura dos outros dois volumes. É isso que pretendemos fazer logo que tenhamos a oportunidade.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Crónica dos Bons Malandros

Crónica dos Bons Malandros é o mais conhecido dos livros do jornalista/escritor Mário Zambujal.
Há muitos anos que ouvíamos falar desta Crónica dos Bons Malandros de Zambujal. Infelizmente nunca havíamos tido oportunidade de lermos este fantástico policial/romance do escritor português.
Crónica dos Bons Malandros é um livro repleto de ironia, sarcasmo e de uma imensa e contagiante alegria que ressalta em cada uma das maravilhosas personagens e na própria trama. Quem diria que, a descrição de uma quadrilha de meliantes, ladrões, malandros poderia transportar-nos para um mundo tão interessante.
É difícil fazer grandes avaliações no que à qualidade literária de um livro destes. No entanto, isso não significa que seja um mau livro. Crónica dos Bons Malandros proporciona aos leitores excelentes sensações e um par de horas bem passadas.
Talvez este não seja uma obra-prima da literatura portuguesa. Dificilmente alguma vez poderá merecer reflexões de grande profundidade intelectual – sendo certo que a edição que tivemos oportunidade de ler tem um muito interessante prefácio, que nos abre possibilidades de curiosas interpretações, de Gonçalo M. Tavares – mas é um marco na literatura portuguesa e merece muito ser lido.

domingo, 9 de outubro de 2011

Os Versículos Satânicos

Os Versículos Satânicos é uma das mais famosas obras do escritor indiano Salman Rushdie.
Há vários anos que nos tínhamos proposto a ler Versículos Satânicos de Rushdie. A controvérsia que envolveu a publicação desta obra no final dos anos oitenta e que tem tendência a se prolongar – ainda que com menor intensidade na actualidade – surge como um verdadeiro fruto proibido. Como sabemos a publicação deste livro valeu a Rushdie a emissão de uma fatwa pelo Ayatollah Khomeini – líder religioso e espiritual da revolução iraniana de 1979.
A história de Os Versículos Satânicos desenrola-se em torno de duas personagens: Gibreel Farishta e Saladin Chamcha. Estas duas figuras, que surgem numa primeira parte do livro como representantes do bem e do mal, são responsáveis por um encadeado de acontecimentos que envolvem a discrição de inúmeros elementos de natureza religiosa que correspondem ao desenvolvimento do islamismo na Índia. Curiosa a forma como Rushdie inclui, entre capítulos dedicados à narração da história central, episódios, eventualmente até hiperbolizados e satirizados, da realidade do Islão.
Rushdie é um homem profundamente culto e conhecer da profundeza religiosa que vive ainda em confronto da actual Índia. Para o leitor português comum, que desconhece a cultura indiana e o mundo islâmico, é difícil encontrar suficientes pontos de referência para que se consiga compreender, em toda a sua plenitude, este magnífico romance de Rushdie.
No entanto, e para além da miríade de referências de cariz sócio-cultural que encontramos neste romance, não é possível deixarmos de destacar a magnificência da escrita de Salman Rushdie. Os Versículos Satânicos está impecavelmente escrito e narra uma história que prende o leitor da primeira à última página. Note-se que a falta de referência culturais que pode ser um impeditivo à leitura da obra contém também um reverso positivo: o encantamento com a multiculturalidade que representa uma visita a uma realidade idílica.
Os Versículos Satânicos pode não ser o mais fácil dos romances de Rushdie e até nem mesmo o melhor. No entanto é indiscutível que é uma obra marcante na literatura do século XX, mais do que não fosse – e não é, porque têm imensos pontos positivos – pelos efeitos políticos e religiosos que trouxe com a sua publicação. Definitivamente uma obra a ler!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Casa Verde

A Casa Verde é um romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, prémio Nobel da Literatura em 2010.
Não é habitual passarmos tanto tempo de volta de um livro. Normalmente em pouco mais de uma semana conseguimos tê-lo lido. No entanto esta obra de Vargas Llosa ofereceu-nos imensas dificuldades. Não obstante ser uma história interessante que se desenrola no Peru, entre a floresta da Amazónia e a cidade de Piura, a verdade é que cronologicamente atravessa um período muito extenso e a miríade de personagens dificulta – conjuntamente com a forma como as mesmas são apresentadas e a maneira como o autor escolheu para as integrar na narrativa – muito a compreensão absoluta da descrição dos factos e acontecimentos.
A escrita de Vargas Llosa pareceu-nos um pouco confusa. Para um leitor não peruano, longe do conhecimento profundo da realidade da floresta amazónica e do tempo histórico em que decorre a narrativa, a sucessão aparentemente anárquica dos acontecimentos e a maneira como os mesmos se entrelaçam causa enormes dificuldades no acompanhamento da história.
Face ao que escrevemos consideramos A Casa Verde um livro difícil e pouco cativante. Naturalmente que Vargas Llosa será mesmo um escritor de enorme qualidade. Não é por mero acaso que o prémio Nobel lhe foi atribuído. Procuraremos, brevemente, voltar à sua escrita de forma a podermos refazer a nossa opinião sobre este escritor sul-americano.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Encontros Marcados

Encontros Marcados, é o mais recente livro do viajante/escritor Gonçalo Cadilhe.
Há quem considere a literatura de viagens um parente pobre do género literário, talvez devido à falta de conteudo ficcional ou talvez porque se pense que os viajantes/escritores são menos dotados na arte das palavras. Não é, definitivamente, essa a nossa opinião! E no que a Cadilhe diz respeito, então só quem nunca leu um dos seus livros pode pensar dessa maneira.
Cadilhe é um viajante de excepção. Conhecedor do Mundo, ardarilho profissional, pesquizador de culturas e narrador de emoções, Cadilhe é, ao mesmo tempo, um escritor muito interessante e, Encontros Marcados, é um excelente exemplo do que afirmamos.
Ao longo dos últimos anos temos vindo a acompanhar a obra de Cadilhe. O que sempre nos emocionou nos seus livres é a forma cuidada com que relata, não os hoteis que visitou, mas antes as pessoas que conheceu no caminho.
Em Encontros Marcados, não encontramos o relato de uma viagem mas sim fragmentos que marcaram o autor e que permitiram conduzir a sua construação enquanto viajante mas sobretudo enquanto Homem. Não sendo uma autobiografia, como Cadilhe refere na nota introdutória, poderá, pelo menos, ajudar-nos a conhecer melhor o autor.
Encontros Marcados, não é o típico livro de viagens. Mais do que a narração de um caminho ou destino material é uma viagem ao interior de Gonçalo Cadilhe. Aconselhável a todos os fãs dos livros de Cadilhe.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

After Dark - Os Passageiros da Noite

After Dark – Os Passageiros da Noite, é uma obra de Haruki Murakami, popular escritor japonês.
Ao longo dos últimos anos temos vindo a ler a obra de Murakami com um prazer sempre redobrado em função dos fantasiosos e magníficos mundos criados pelo escritor japonês que cativam extraordinariamente os leitores. E foi com essa expectativa que fomos para After Dark – Os Passageiros da Noite.
Apesar de o espírito e estilo de Murkami estarem presentes neste After Dark – Os Passageiros da Noite este não é um romance que possamos qualificar de extraordinário. Personagens bem desenhada, enigmáticas e em alguns casos quase mirabolantes, mas um argumento bem mais fraco do que o habitual.
A ideia de uma noite por um bairro de Tóquio, embora potencialmente fascinante (sobretudo quando o autor é Murakami), não foi capaz de nos encantar. Não que o livro seja mau, porque não é. Mas fica abaixo do inicialmente esperado, como que uma desilusão.
Murakami é um escritor extraordinário, de excepção, onde se realça a facilidade de cruzamento entre duas culturas que se encontram tão nos antípodas. Note-se, no entanto, que não é por After Dark – Os Passageiros da Noite ser um livro menos conseguido que Murakami deixa de ser um dos melhores.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O nosso reino

O nosso reino foi o primeiro romance do já aqui comentado Valter Hugo Mãe jovem escritor português e uma das grandes referências literárias da actualidade no nosso país.
Temos, num passado recente, vindo a ler a poderosa obra de Hugo Mãe. O nosso reino faz parte de uma tetralogia (conjuntamente com O remorso de baltazar serapião, O apocalipse dos trabalhadores e A maquina de fazer espanhóis – os dois últimos já aqui analisados). Aparentemente começámos pelo final. No entanto o facto de fazerem parte de uma tetralogia não impede que estas obras possam ser lidas de forma autónoma.
Hugo Mãe é um escritor de excepção. Não tendo uma escrita de fácil leitura oferece aos seus leitores livros muito poderosos e que abordam assuntos bem diferentes daqueles que habitualmente invadem a literatura contemporânea.
Hugo Mãe, em O nosso reino é traz-nos a narração, na primeira pessoa, da vida de uma jovem criança que vive confrontada com duas temáticas avassaladoras: a morte e Deus. Numa vertigem violenta, a personagem vê família e amigos desaparecerem num cataclismo emocional tremendo.
O nosso reino é um grande livro embora de difícil leitura. Aconselhável a quem procura emoções fortes e livros pouco vulgares e àqueles que pretendem ler boa literatura portuguesa.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Planalto e a Estepe

O Planalto e a Estepe é o mais recente romance do angolano Pepetela, Prémio Camões em 1997 e autor, entre outros, do aqui já analisado O quase fim do Mundo.
Quando pela primeira vez pegámos num livro de Pepetela tivemos alguma dificuldade em nos identificarmos imediatamente com o autor. Sendo angolano, a sua narrativa apresenta-se musicada e a estrutura frásica adquire um ritmo diferente dos autores portugueses. No entanto, e depois do impacto inicial, ficámos com uma excelente imagem do escritor nascido em Benguela.
O Planalto e a Estepe foi uma óptima confirmação do talento de Pepetela. Certo é que não conhecemos ainda o trabalho mais antigo do escritor angolano. Mas este O Planalto e a Estepe é um livro muitíssimo bem conseguido que conta a história de um jovem angolano que, durante os anos 60 viagem para Portugal para estudar e que acaba na URSS preparando-se para a construção de uma democracia socialista no seu país natal.
Pepetela é um escritor despretensioso. Escreve, no entanto, magistralmente. Em O Planalto e a Estepe dá-nos a conhecer uma belíssima história de amor e faz-nos percorrer os caminhos sinuosos das mentiras dos regimes comunistas.
O Planalto e a Estepe é um livro magnífico! Pode ser que não seja uma obra-prima mas a verdade é que foi escrito com imensa alma. Talvez porque seja fundado numa história que verdadeiramente aconteceu. A ler!

domingo, 26 de junho de 2011

Combateremos a Sombra

Combateremos a Sombra é um romance da escritora portuguesa Lídia Jorge.
Lídia Jorge é uma conhecida e reputada escritora portuguesa, autora de romances, contos e uma peça de teatro e vencedora uma extensa lista de prémios, nacionais e estrangeiros. Entre as suas obras mais conhecidas encontra-se A Costa dos Murmúrios.
Foi, naturalmente, com grande expectativa que iniciámos a leitura de Combateremos a Sombra, a primeira obra que tivemos oportunidade de ler da autoria de Lídia Jorge.
Combateremos a Sombra é um extenso romance que se prolonga por quase quinhentas páginas e conta a história de Osvaldo Campos, psiquiatra, que se vê afogado num turbilhão de acontecimentos que vão afectar a sua vida pessoal e profissional.
Lídia Jorge é uma autora de escrita simples. Não faz uso de grandes recursos estilísticos ou de um vocabulário demasiadamente denso. Capítulos dentro da medida e personagens que, embora pobres, estão razoavelmente bem descritas.
No entanto, Combateremos a Sombra é um fraco romance. A narrativa, centrada numa tríade que inclui, para além do psiquiatra, uma paciente e uma jovem fotógrafa refugiada num apartamento numa avenida fictícia de Lisboa, parece mais o guião de uma má telenovela. Talvez porque o romance esteja sempre no fio da navalha para passar a policial.
Não ficámos nada impressionados com Lídia Jorge e muito menos ainda com Combateremos a Sombra. Esperávamos que, de uma autora vencedora de tantos prémios, tivesse surgido uma obra cativante, de bom argumento e com alguma argúcia e brilho estético. Certamente que, proximamente, não voltaremos a esta escritora.

domingo, 12 de junho de 2011

A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina

A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina são dois contos da autoria de Italo Calvino e que, juntos, compõem um dos mais interessantes livros do escritor italiano.
Nos últimos anos temos vindo a ler, pausadamente, a obra do grande mestre italiano Calvino. Entre Cidades Invisíveis, Todas as Cosmicómicas, O Barão Trepador e outros, temos encontrado sempre livros que nos prendem pela irrealidade onde nos fazem navegar, pela loucura expressamente declarada e ilusão maravilhosa com que presenteiam o leitor.
Este livro, que junta dois pequenos contos, é um pouco diferente. Em a A Nuvem de Smog, a história de um homem, anónimo, que percorre as ruas do quotidiano, e onde parece ser personagem secundária. Um conto tentado a tornar-se outra coisa qualquer, como refere o próprio autor. Bem verdade. A Nuvem de Smog, poderia muito bem ter sido um romance e não um conto.
Em A Formiga Argentina, a história de uma invasão de formigas na Riviera. Por vezes, os críticos de literatura, tendem a ter visões extrapoladas sobre a obra dos autores. E Calvino nega, neste caso, as interpretações feitas por estes críticos que viam uma realidade onírico-kafkiana aponto-o como o mais realista e biográfico conto que escreveu na vida.
Calvino é um escritor que nos prende sempre às suas narrativas. Sejam pintadas sobre a realidade ou fruto de uma miraculosa imaginação, Italino Calvino tinha a imensa capacidade dos grandes contadores de histórias. A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina é um excelente exemplo destas duas realidades.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Miguel Street

Miguel Street é uma muito interessante obra de Vidiadhar Surajprasad Naipaul, escritor britânico nascido em Trinidade e Tobago, e prémio Nobel da Literatura em 2001.
Naipaul, de quem já tínhamos lido Sementes Mágicas, faz-nos, neste Miguel Street, viajar até uma rua na cidade de Porto de Espanha em Trinidade e Tobago e apresenta-nos alguns dos seus moradores e as suas histórias de vida.
Miguel Street é um livro muito divertido e quase caricatural. Através de uma miríade de personagens é-nos dado a conhecer esta ilha das Caraíbas e o seu louco modo de vida que é, tanto descontraído, como ao mesmo tempo repleto de imagens que revelam a pobreza das suas gentes.
Em Sementes Mágicas tínhamos encontrado uma obra um pouco mais densa e com um conteúdo mais etéreo. Em Miguel Street, pelo contrário, somos confrontados com um romance bastante descontraído. A ideia de descrever, através de várias e diferentes personagens, a vida de uma rua num país das Caraíbas é muito original e resulta na perfeição.
Miguel Street é um livro de fácil leitura e que prende a atenção do leitor do início ao fim. Talvez não seja a obra-prima de Naipaul, mas é, indiscutivelmente um bom livro. Recomenda-se!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Kyoto

Kyoto é uma obra do japonês Yasunary Kawabata, Nobel da Literatura em 1968.
Kyoto foi a primeira leitura entre os romances de Kawabata, por muitos considerada a sua obra-prima.
Escrito num estilo simples, com profusas e belas alusões sobre a natureza – com particular destaque para as flores – Kyoto é, ao mesmo tempo, um livro de grande complexidade pelo facto de ser resultado da visão sobre uma civilização completamente díspar da ocidental e da qual temos poucas referências.
A narrativa, centrada em Chieko, percorre questões relacionadas com aspectos tradicionais da região de Kyoto e trata, especialmente, da problemática da separação e do reencontro. Outras questões, como a das diferenças sociais e as relacionadas com as mudanças em sociedades profundamente tradicionais são também objecto deste romance de Kawabata.
Kyoto é um interessante livro. Infelizmente, a falta de referências culturais impediu-nos de o desfrutar com maior intensidade. Tal facto não impede, no entanto, de reconhecermos o seu valor literário e de o consideramos uma obra bela.

sábado, 21 de maio de 2011

Barroco Tropical

Barroco Tropical é um romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Barroco Tropical foi a primeira obra que tivemos oportunidade de ler de Agualusa e foi uma óptima surpresa. Surpresa, não porque desconhecêssemos as boas críticas de quem tem sido objecto, mas sobretudo porque confirmámos a verdade das mesmas.
Agualusa escreve com paladar africano. As personagens deste Barroco Tropical são absolutamente magníficas, repletas de diferentes tonalidades e preenchidas com o sabor da diversidade étnica de Angola. Entre Bartolomeu Falcato, escritor e bígamo e Kianda, cantora e intérprete do mundo, encontramos uma miríade de outras personagens que ajudam a completar um puzzle em torno de um anjo caído.
A acção decorre em Luanda no ano de 2020, numa realidade, que embora com ligações evidentes à Angola dos dias de hoje, se encontra alterada hiperbólica e fantasiosamente leva-nos a conhecer a dicotomia da moderna sociedade de classes e da fusão entre o mundo moderno e o místico.
Agualusa pareceu-nos um belíssimo escritor da global língua portuguesa. Artista, jogador de palavras, verdadeiro contador de histórias, traz-nos, com Barroco Tropical, o paladar de África e um cheirinho de mundo místico. Um bom livro e um autor, definitivamente, a acompanhar com muito interesse!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile

A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, é um livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
Esta atípica obra – não é um romance, um ensaio, um conjunto de contos, mas antes «uma reportagem» – resulta da aventura de um homem real, Miguel Littín, que, durante cerca de seis semanas, alguns anos depois de ter sido proscrito pelo regime de Pinochet, filmou, clandestinamente, um documentário no seu país natal sobre as atrocidades do ditador chileno.
Apesar de não se configurar como um típico romance, a verdade é que este livro de García Márquez – como aliás parece ser toda a sua obra – é de uma facilidade de leitura impressionante. A narrativa por detrás da aventura de Littín também ajuda a manter o leitor preso ao livro, mas a verdade é que Gárcia Marquéz é um escritor de verdadeira excepção e consegue sempre colocar a tónica onde é mais importante e conferir aos seus livros interesse fora do vulgar.
A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, é um livro interessante para quem quer conhecer um pouco mais do Chile e do regime que aí vigorou após o assassinato de Salvador Allende e durante o consolado de Augusto Pinochet.
A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, obra bem escrita, que se estende por pouco mais de 180 páginas, lê-se num ápice. Um leitor que tenha a oportunidade de entrar no mundo de Gárcia Marquéz dificilmente volta a ter vontade de querer sair. Este é um grande livro de um enorme escritor.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Duplo

O Duplo é uma obra do russo Fiódor Dostoiévski, escritor oitocentista e um dos maiores da história da literatura.
O Duplo não foi a primeira obra de Dostoiévski que tivemos oportunidade de ler. Já antes tínhamos viajado pelo mundo da roleta em O Jogador e mais uma vez confirmámos a impar capacidade de Dostoiévski de escrever sobre o ser humano.
O Duplo é uma obra poderosa. Decorre em São Petersburgo durante o inicio de inverso e relata a história de Iákov Petróvitch Goliádkin, jovem russo, funcionário intermédio da estrutura da função pública do antigo império dos Czares.
O relato, que incide num período temporal relativamente curto, assume-se como mirabolante e onde é muito difícil distinguir o que é efectivamente real. Goliádkin percorre, ao longo da história e desde a primeira página, um tortuoso caminho que o levará à loucura. Não sendo, apesar de tudo, um romance narrado na primeira pessoa, tal facto não impede que o leitor não se sinta muitas vezes confuso quanto à realidade relatada.
Dostoiévski foi um enorme romancista. As sensações transmitidas através de um relato sobre um indivíduo mentalmente perturbado são de uma verosimilhança atroz. Para mais, e porque este romance pode ter uma multiplicidade de sentidos, avulta ainda a incapacidade de um determinado sujeito em conviver em sociedade e a forma cruel com que a sociedade trata quem está à margem ou quem é colocado fora do sistema.
O Duplo, apesar das suas pouco mais de cento e cinquenta páginas, é um grande e complexo livro e um escritor de excepção. A sua leitura é, para quem aprecia os clássicos, obrigatória.

sábado, 30 de abril de 2011

A casa do silêncio

A casa do silêncio é um romance do escritor turco Orhan Pamuk, prémio Nobel da Literatura em 2006.
Pamuk era um autor desconhecido para nós, pois nunca antes tínhamos tido a oportunidade de ler nenhuma obra do Nobel turco. A casa do silêncio parece-nos ter sido um bom mote inicial.
A casa do silêncio está repleta de referências de carácter cultural, histórico e político. Impressionante a forma simples com que algumas questões de enorme complexidade são introduzidas no corpo do romance e a maneira como as personagens são moldadas nesse sentido.
Pamuk pareceu-nos um escritor de verdadeira classe. Sobretudo porque escreve de forma simples. Tal não significa que as personagens não sejam de enorme profundidade.
Em A casa do silêncio existem seis narradores diferentes: homens e mulheres; novos e velhos; ricos e pobres. E a riqueza destas personagens – bem como a multiplicidade de perspectivas que uma história contada nestes moldes oferece – confere um especial perfume a um ambiente carregado e denso.
A casa do silêncio é um óptimo livro. As analepses recorrentes – em particular com Fatma, personagens principal do romance – permitem introduzir questões são relevantes na cultura de um país muçulmano como as da morte, de Deus, do adultério ou do álcool. Decididamente, Pamuk é um autor para continuar a ler e este seu romance, definitivamente a ler.

sábado, 16 de abril de 2011

A Quinta Essência

A Quinta Essência é um belo romance da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís. Agustina Bessa-Luís, autora de uma vastíssima obra de onde se destacam os romances, foi, ao longo da sua vida, agraciada com vários prémios literários, sendo, indubitavelmente, uma das grandes escritoras portuguesas do século XX. Agustina escreve deliciosamente. As personagens, descritas ao pormenor, quer física, quer psicologicamente, são de enorme densidade e profundidade. Os ambientes, repletos de cheiros e relevos, transportam-nos directamente da ficção para a realidade. No entanto, são as narrativas que merecem o principal destaque na obra da autora, talvez porque repletas de vida e capazes de nos prender à evolução dos factos. A Quinta Essência revela em Agustina uma notável percepção face à história. Os contornos evocados pela progressiva degradação financeira da família Pessanha – associando-a à revolução de Abril – bem como a temática – ainda que parcialmente camuflada – da transferência de Macau de Portugal para a China são o mote essencial a partir do qual se constrói um mundo onde de poder, espiritualidade, amor e filosofia oriental. A Quinta Essência é um livro maravilhosamente bem escrito. José Carlos, personagem central, vê-se confrontado com um regresso ao tempo das epopeias. Entre Portugal continental e Macau desenrola-se uma história de contornos místicos, sobretudo porque docemente polvilhada por uma miríade de referências à cultura chinesa e à presença portuguesa no extremo oriente. Agustina Bessa-Luís ofereceu-nos uma brilhante obra que merece ser lida e conhecida. Depois de Sebastião José – obra bibliográfica – A Quinta Essência foi o primeiro romance desta autora que tivemos oportunidade de ler. E recomenda-se com vigor e entusiasmo!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Rebeldes

Rebeldes, é uma obra do fantástico escritor hungaro Sándor Márai. Rebeldes, foi o quarto livro de Márai que tivemos oportunidade de ler e, mais uma vez, não nos desiludiu. A obra de Márai tem algo de negro. Por vezes são as personagens. Outras as circunstâncias ou o enredo. Em Rebeldes, talvez devido à época em que se desenrola, tudo é mais escuro, sobretudo as personagens que vivem anos de descoberta e de dúvida. Efectivamente, o enredo de Rebeldes decorre numa pequena cidade num território que viria a ser a Hungria, durante o último ano da Primeira Guerra Mundial e narra a história de um grupo de jovens rapazes da classe média/alta que, no termo dos seus estudos liceais, vivem a profundidade da revolta perante um sistema, e mais concretamente, perante a autoridade. Márai é um autor de excepção. Nem todos conseguem captar com simplicidade a complexidade das experiências humanas e dos sentimentos de diferentes indivíduos. É que Márai fá-lo com clareza, quer retrate homens, quer mulheres sejam novos, ou velhos! A clareza em Márai esculpe personagens cujo significado transcende à da mera descrição de características de ordem física ou moral. Rebeldes, é um óptimo livro. Talvez não seja o melhor de Sándor Márai o que não faz com que seja menos bom. A temática abordada é de dificuldade elevada, pelo que é melhor ser lido com tranquilidade. Muitos segredos estão escondidos entre as linhas.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sôbolos rios que vão

Sôbolos rios que vão, é o mais recente livro – provavelmente o mais autobiográfico de todos – de António Lobo Antunes, escritor português, autor de uma vasta obra, e recentemente agraciado com um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Curiosa a recepção, no título, de Camões!
Não é a primeira vez que trazemos aqui uma obra de Lobo Antunes. Todos os seus leitores conhecem a dificuldade que é entrar dentro de um mundo onde os planos, aparentemente, correm muitas paralelamente e os cenários se confrontam em choques verdadeiramente titânicos. Os livros de Lobo Antunes são assim, ciclópicos, entusiasmantes, aterradoramente perturbadores e complexos.
O mesmo se passa com este Sôbolos rios que vão, uma metáfora que decorre no espaço de quinze dias, de 21 de Março a 4 de Abril. A temática é a doença. E dentro da doença, as recordações, a vergonha, a dúvida.
Lobo Antunes é um génio! Apenas os iluminados conseguem escrever sobre os pensamentos e torná-los claros. Apenas os dotados são capazes de entrar tão profundamente nos profundos significados da alma humana e de retirar – tantas vezes violentamente – o sumo da existência e até da própria inexistência.
Estamos definitivamente convertidos. Se inicialmente foi difícil compreender os meandros do pensamento deste genial escritor português, hoje somos capazes de olhar para a sua obra da única forma que ela pode ser vida. É que a poesia – ainda que feita de prosa – tem de ser lida com a alma. Sôbolos rios que vão, é magnífico!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Marlboro Sarajevo

Marlboro Sarajevo é um livro de contos do escritor bósnio, nascido em Sarajevo, Miljenko Jergović.
Não é habitual fazermos aqui comentários a livros de contos. É um estilo que raramente temos oportunidade de ler mas que, de quando em vez, suscita a nossa curiosidade. Ademais, é relativamente fácil lê-los. E, no caso de Marlboro Sarajevo, foi com enorme prazer. São cerca de trinta contos, muitíssimo bem escritos.
Miljenko Jergović é um autor da ex-Jugoslávia, nascido em Sarajevo Bósnia e Herzegovina, mas que vive, actualmente, em Zagreb na Croácia.
A riqueza cultural dos Balcãs é atestada pela profusão linguística de uma miríade de povos unidos, durante muito tempo, sob o jugo ditatorial de Tito. É um país de uma extraordinária beleza e de uma história intemporal.
Marlboro Sarajevo é, manifestamente, o reflexo das várias guerras nos Balcãs, com particular destaque para aquela que viria a conduzir ao fim da Jugoslávia. Escrito e publicado durante o certo a Sarajevo, os livros deste conto ilustram a realidade melancólica e tristemente apática da guerra e dos seus efeitos sobre os indivíduos e objectos. Sendo cru não é excepcionalmente violento.
Jergović pareceu-nos um autor dotado. Escreve com simplicidade e clareza e os contos são belos (uma beleza triste) e profundos. Existem, certamente, outras formas de contar a guerra e a destruição, mas neste livro Jergović soube faze-lo poeticamente.
Marlboro Sarajevo foi uma muito agradável surpresa. A literatura não se faz exclusivamente de autores anglo-saxónicos e de histórias de vampiros. A realidade é quase sempre mais inventiva que a própria ficção e por isso este livro de Jergović é, claramente, muito recomendável.

terça-feira, 15 de março de 2011

As perturbações do pupilo Törless

As perturbações do pupilo Törless é uma obra do genial e complexo Robert Musil autor de O homem sem qualidades.
Robert Musil é um dos grandes nomes da literatura mundial do século XX. A sua obra, que se encontra, mais recentemente, traduzida pela Dom Quixote é de uma erudição extraordinária e a complexidade filosófico-metódica do seu pensamento encerra em si mesmo um desafio de enorme dificuldade.
Não obstante, Musil é perfeito na escrita. Consegue traduzir na sua obra algumas das principais questões filosóficas da sua época. Para mais, as personagens estão muitíssimo bem construídas e entende-se perfeitamente qual o sentido que quis dar à narrativa.
As perturbações do pupilo Törless foi o primeiro livro de Musil (1906) e é, em comparação com O homem sem qualidades, um romance acessível e perfeitamente compreensível pelo leitor médio.
A história centra-se num jovem austríaco e nas dúvidas e angustias de que sofre num colégio particular, sobretudo no que toca à sua relação com outros jovens da mesma instituição e com um em particular: Basini.
É um livro fisicamente violento! Uma das questões principais está relacionada com a homossexualidade mas em causa está também o excesso de violência física e psicológica bem com as divagações, meta-filosóficas, em torno de conceitos como os de alma, de infinitude ou realidade.
A edição que tivemos oportunidade de ler (Dom Quixote) conta ainda com uma excelente introdução a Musil de João Barrento. Indispensável para quem quer entender melhor este complexo e atraente autor. Livro, definitivamente, a ler.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Case Venie

Case Venie é um romance da italiana Romana Petri, escrita de reconhecidos méritos e amplamente premiada.
A ideia de romancear o final da segunda guerra mundial em Itália no momento seguinte à assinatura do armistício entre este estado do sul da Europa e os Aliados e subsequente invasão alemã é interessante e admitíamos, à partida, ser capaz de resultar numa obra com alma e dimensão histórica.
Infelizmente Petri parece ter optado por querer incluir neste livro uma estranha e mal delineada alusão às relações entre vivos e mortos, centrada na figura principal da obra: Alcina.
Petri não apresenta, neste livro, uma escrita erudita ou sedutora ao ponto de nos colar aos elementos instrumentais da narrativa. A riqueza sensorial de uma época única da história, bem como a profundidade temática do momento poderiam ter dado azo à exploração da realidade da resistência italiana, o que teria sido profundamente mais interessante. Não é que Petri escreva mal ou que seja incapaz de narrar uma história. Só que, apesar do esforço, nos pareceu insuficiente.
A tentativa – aplicada mas mal conseguida – de fazer da personagem principal um elo de ligação entre mortos e vivos, entre o passado e o futuro, parece-nos demasiado forçada. É que o resultado final poderia ter sido melhor caso não tivesse sido esta linha a seguida.
Case Venie, no entanto, não é um livro terrível ou miserável. Os dois últimos capítulos salvam, de alguma forma, a face da autora porque conseguem imprimir alguma da emoção que vai estando camuflada ao longo de quase toda a obra. Infelizmente não conseguem fazer desta obra mais do que um livro suficiente.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica é uma extraordinária obra do brasileiro, praticamente desconhecido em terras lusas, Raduan Nassar.
Nassar, autor de obra breve e contida, pareceu-nos um escritor de grande nível literário e cultural. A sua escrita, repleta de metáforas e alegorias, é de grande complexidade. Para mais, os capítulos, são na sua grande maioria em texto corrido, o que dificulta ainda mais a sua leitura. Neste sentido, a recensão – em posfácio – de Sabrina Sedlmayer (na edição da Relógio D’Água) é de grande utilidade na compreensão de muitos aspectos menos evidentes numa leitura descontextualizada e sem qualquer apoio científico.
Lavoura Arcaica é, evidentemente, um reflexo das características de Nassar. Uma obra poderosa e em muitos momentos bastante violenta sobre uma temática que é hoje, como tem sido há séculos e continuará a ser no futuro, de enorme impacto emocional sobre os leitores: o incesto.
No entanto julgamos que reduzir Lavoura Arcaica a um livro sobre o incesto é diminuir, radical e injustamente, a profundidade deste livro. As múltiplas, e muito intrincadas, referências de natureza religiosa, a sagacidade na explanação sobre a natureza humana, o campo como centro da acção conferem a este livro características únicas que fazem dele uma verdadeira obra-prima.
Nassar foi uma óptima surpresa. A literatura brasileira, tantas vezes desconhecida entre nós, é capaz de produzir autores e livros de verdadeira excepção. Lavoura Arcaica é um livro monstruoso! Mas, e como todos os grandes livros, não parece ser para todos! É apenas para os incautos e para os verdadeiros apreciadores de boa literatura!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Contos hieroglíficos

Contos hieroglíficos, é uma obra do inglês Horace Walpole, político e escritor inglês do século XVIII.
Há livros estranhos, diferentes, quase loucos! Este Contos hieroglíficos é, provavelmente, a mais estranha obra que tivemos oportunidade de ler até à data.
Como classificar uma obra onde o disparate, a completa ausência de lógica, o absurdo assumem o papel principal? Que críticas tecer a um livro que apenas se pode ler pelo prazer simples de descobrir em cada frase a contradição da frase anterior?
Walpole, cuja principal obra foi O castelo de Otranto, embora tenha escrito textos fundados no culto ao paradoxal, terá, na época, tido um impacto significativo nas letras inglesas. Talvez porque – a avaliar por Contos hieroglíficos – embora tudo pareça ilógico, os contos que este reproduz conseguem, por incrível que tal seja, cativar o leitor. Quem sabe se não será devido ao facto de todas as frases encerrarem enormes surpresas.
Não se poderá ler Contos hieroglíficos a pensar encontrar a mais bela ou profunda história de amizade ou o canto poético do amor. No entanto, a leitura também deve ser divertida e surpreendente. E Contos hieroglíficos é uma coisa e outra. Um livro, sem dúvida, a ler!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Herança de Eszter

A Herança de Eszter é um fantástico e maravilhosamente bem escrito livro do escritor de origem húngara Sándor Márai.
Márai, de quem já tivemos oportunidade de ler As velas ardem até ao fim e A Mulher Certa, é um autor magnífico. A sua escrita poderosamente perturbante cativa os leitores desde o inicio até ao fim e os seus livros, tendencialmente envoltos numa bruma fantasmagórica, despertam violentamente a atenção de que os lê.
A Herança de Eszter é, também, um livro repleto de motivos de interesse. A personagem principal, Eszter, mulher só, mortificada pela presença ausente de um homem – Lajos – que alterou dramaticamente a sua vida, descreve a forma como foi, pela última vez, conscientemente enganada pelas artes retóricas do amante que nunca o foi.
Márai escreve de forma subtilmente magnífica. As suas personagens, sentimentalmente densas mas perfeitamente desenhadas, são absolutamente inebriantes. Por vezes, o argumento nem parece o melhor, mas a forma como a história é contada convence sem margem para dúvidas.
A Herança de Eszter é um livro extraordinário. Lê-se de um fôlego – com cerca de 150 páginas – mas os efeitos que produz nos leitores perduram por muito tempo. Talvez seja este o factor que permite distinguir os grandes livros e os grandes autores de outros que não passam de medianos: estas obras ficam para sempre, porque o seu conteúdo não é circunstancial mas antes intemporal. A Herança de Eszter é, pois, um livro muito recomendável.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Memorial do Convento

Memorial do Convento é, talvez, a mais conhecida e estudada obra do Nobel da Literatura português, José Saramago.
Já há algum tempo que iniciámos a leitura da obra de Saramago. O estilo, limpo, escorreito e simples está presente na generalidade dos seus livros de forma constante. Saramago não se distingue pelos arrebites estilísticos antes pela forma como conta as histórias.
Em Memorial do Convento temos muito mais do que o relato da construção do Convento de Mafra. Temos muito mais do que a história de Baltazar e Blimunda. Temos, sobretudo, o mundo fantasioso das passarolas, o amor místico e perfeito entre duas personagens improváveis, a camuflada crítica à religiosidade empedernida e à dualidade social.
Memorial do Convento é um excelente livro. As personagens são cativantes e ao mesmo tempo perturbadoras. A simplicidade melódica de Baltazar e a espiritualidade encantadora de Blimunda são magníficas, da mesma forma que Bartolomeu (o padre jesuíta) é a antítese da Igreja.
Memorial do Convento está repleto de pormenores de excelência. Saramago tem a inconfundível capacidade de escrever com as palavras do Povo e de incluir nas suas obras o resultado de uma sapiência popular tantas vezes desenhada nos provérbios.
Memorial do Convento é um livro a visitar. Mas não porque resultado de uma leitura obrigatória para os estudantes, antes como puro deleite por uma história muitíssimo bem contada.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Santuário

Santuário é um livro do escritor americano, Prémio Nobel da Literatura em 1949, William Faulkner.
Santuário, um livro cuja acção decorre num cenário fictício no Estado do Mississípi nos Estados Unidos da América, é uma obra violenta que aborda a temática da violação, da morte e acompanha alguns meses da vida de Temple Drake, uma jovem universitária apanhada num ciclo vertiginoso de terror e medo de Horace Benbow, advogado numa estéril tentativa de aplicação da justiça num caso de homicídio e Popeye, uma personagem ambígua e muitíssimo obscura e que pontua, de forma sistemática, todas as cenas principais deste livro.
Faulkner, de quem já tínhamos lido O Som e a Fúria, é um autor brilhante. A sua escrita, de uma profundidade aterradora, centra-se, não tanto no preenchimento de todos as faces da narrativa mas sobretudo na construção de personagens enigmáticas e de cenários meio pintados.
Santuário é um livro agradável mas violento. As temáticas abordadas e descritas podem chocar o leitor, sobretudo no que concerne à temática da violação, descrita, ainda que de forma parcelar, com assustadora profundidade.
William Faulker não é um autor de fácil interpretação e leitura mas as suas obras são de grande beleza estética e as suas narrativas são sempre capazes de prender os leitores ao livro. Santuário não é uma obra extraordinária ou imperdível mas é um bom livro.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Conhecimento do Inferno

Conhecimento do Inferno é uma obra de António Lobo Antunes, que, conjuntamente com Memória de Elefante e Cus de Judas, faz parte de uma trilogia dedica aos recantos mais profundos da alma.
Conhecimento do Inferno foi uma das primeiras obras do escritor lisboeta e é, tal como a generalidade dos seus romances, profundamente marcado pelas influências de que o autor é alvo, nomeadamente a guerra colonial ou o exercício da sua profissão de médico psiquiatra.
E, precisamente, neste magnífico romance é exultada a extraordinária e complexa relação do narrador com a vida num hospital psiquiátrico e as reminiscências da vida e guerra colonial portuguesa das décadas de sessenta e setenta, numa diegese emocionalmente violenta e profunda.
O cenário de uma viagem de automóvel é pontilhado de acessos de memória descritiva sobre acontecimento temporalmente espalhados e, muitas vezes, verdadeiramente confusos.
A obra de Lobo Antunes é de grande beleza e perfeccionismo, mas também de enormíssima complexidade, sobretudo, porque ao estilo de Joyce ou de Faulkner, as mudanças no narrador são muitas vezes abruptas, sem qualquer sinal de aviso.
No entanto, neste Conhecimento do Inferno, encontramos frases, parágrafos, páginas, capítulos verdadeiramente geniais, de um nível extraordinário, capazes de tocarem o céu! E isto só está ao alcance de poucos, muito poucos!
Lobo Antunes é um dos maiores escritores vivos. A sua obra, que retrata com enorme profundidade parte muito significativa dos últimos quarenta anos da história portuguesa, é incontornável. Conhecimento do Inferno é um livro a ler. Com calma, paciência, tranquilidade e tempo, mas um livro imperdível.