terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O apocalipse dos trabalhadores

O apocalipse dos trabalhadores é um dos primeiros trabalhos de um dos mais proeminentes escritores portugueses da nova geração, Valter Hugo Mãe.
Hugo Mãe, que nos fascinou absolutamente com A máquina de fazer espanhóis, voltou a faze-lo (embora este O apocalipse dos trabalhadores seja um livro anterior) com a magnífica obra que ora apresentamos.
Já conhecíamos o estilo avassalador da escrita de Hugo Mãe que, através de história simples mas de enorme profundidade, nos dão a conhecer muitos dos traços actuais da vida em sociedade e do mundo português. Em O apocalipse dos trabalhadores conhecemos a história de duas mulheres-a-dias, um velho reformado e um jovem ucraniano a viver em Portugal.
Aparentemente, esta poderia ser a narrativa de uma qualquer telenovela de horário nobre. A diferença é que Hugo Mãe conta a história de forma brilhante, dando a conhecer os anseios, as perturbações e as expectativas de indivíduos que poderíamos reconhecer em tantas das pessoas que encontramos todos os dias.
Para mais – e provavelmente o mais brilhante desta obra – Hugo Mãe ficciona sonhos da personagem principal – Maria da Graça – com São Pedro e a tentativa que esta faz – no mundo de Morfeu – de voltar à conversa como seu antigo patrão – que dela abusava sexualmente – por quem se havia apaixonado!
O apocalipse dos trabalhadores é uma obra admirável. O mundo das letras em português é, indiscutivelmente, mais rico devido à presença de Valter Hugo Mãe e da sua mirabolante imaginação. Este é um livro indispensável!

sábado, 11 de dezembro de 2010

A um Deus Desconhecido

A um Deus Desconhecido é um romance do americano John Steinbeck, autor do famoso As vinhas da ira e prémio Nobel da literatura em 1962.
Steinbeck é um autor muito influenciado pela realidade americana do inicio do século XX e pelas difíceis condições económicas da imensa classe rural da época, sendo que parte da sua obra retracta, precisamente, esta problemática e A um Deus Desconhecido é um livro é um bom exemplo deste facto.
No entanto, A um Deus Desconhecido, toca também, uma outra questão: a da religião. E neste livro, Steinbeck, aborda este assunto, construindo uma personagem que funda as suas crenças num forte paganismo que procura afasta a certeza da religião tradicional.
Steinbeck é um autor simples. Não existem grandes floreados ou artifícios metafóricos ou alegóricos na sua escrita. É certo que a temática tem, em si, uma forte componente simbólica, mas a narrativa é construída sem significativa ornamentação.
Não quer isto dizer que o livro tenha um impacto menor. As personagens estão muito bem arquitectadas, em particular a personagem principal Joseph Wayne. E o cenário está bem descrito, com pormenor suficiente para nos fazer imaginar com satisfação as planícies da Califórnia no inicio do século XX.
A um Deus Desconhecido é um bom livro. Entretêm e dá a conhecer uma realidade pouco abordada (pelo menos de forma satisfatória) pela literatura moderna. É, indiscutivelmente, um livro a ler.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Cidade e as Serras

A Cidade e as Serras é uma obra do escritor português oitocentista, Eça de Queiroz.
Ao longo dos últimos anos temos vindo, aqui, a fazer várias críticas/análises das obras do mestre português Eça de Queiroz e nunca escondemos a admiração desmedida que sentimos por este autor que consideramos o maior de sempre!
O estilo crítico de Eça, fundamentado numa profunda análise da sociedade, dos seus vícios e das suas figuras mais rocambolescas, filtrado pela pena impar de um narrador sublime, é, sempre, uma lufada de realidade e de actualidade.
Em A Cidade e as Serras surge a dicotomia entre a realidade do campo e a da cidade. O confronto entre a modernidade, da tecnologia, da moda e da decadente nobreza francesa de oitocentos, representada pela cidade e a placidez, a tranquilidade, a simplicidade e a alegria do campo representado pelas serras.
Eça é maravilhoso! E as suas personagens são absolutamente deliciosas! Jacinto, o rico proprietário refugiado em Paris, nos Campos Elísios, devido à fuga do seu antepassado miguelista, e Zé Fernandes, o seu remediado amigo que o acompanha pelo faustoso mundo parisiense e mais tarde na serra em Portugal.
A Cidade e as Serras é um grande livro. Aliás, como são todos aqueles que surgiram da mente do maior vulto do romance português de todos os tempos! E, à semelhança de muitas das suas outras obras, avulta em A Cidade e as Serras a impar capacidade de ser um romance intemporal. A cidade versus o campo é um antagonismo que não morreu em meados do século XX. Permanece viva! E com redobrado interesse neste inicio do século XXI! Recomenda-se, portanto, com muito interesse!