segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nós

Nós, é uma obra absolutamente extraordinária e original, do escritor russo Evgueni Ivanovich Zamiatine, publicada pela primeira vez em 1924.
Nós é uma distopia, ou anti-utopia, e pretende relatar uma sociedade futurista onde os habitantes de um Estado Único perdem a sua individualidade e passam a ser meros números, desprovidos da capacidade de pensarem e de tomarem decisões de acordo com o livre arbítrio.
Nós, não será, porventura, a mais conhecida das distopias do século XX – em comparação com 1984 ou com Admirável Mundo Novo – mas é precursora de qualquer uma destas obras e pode, eventualmente, ter servido de inspiração para os trabalhos de Orwell e Huxley.
A sociedade futurista descrita por Zamiatine, onde os indivíduos vêm controladas todas as suas funções, deste o exercício físico aos momentos em que podem ter relações sexuais, onde a sua capacidade de pensar está limitada bem como a sua liberdade – em nome de uma suposta felicidade – faz-nos lembrar as tentativas totalitárias que se viriam a seguir no excurso da história da humanidade, sem que, no entanto tivesse esse intuito.
Zamiatine revelou-se como um escritor original e de escrita simples – sobretudo tendo em consideração a complexidade da temática. E a sua mensagem, chega à generalidade dos leitores de forma clara e ao mesmo tempo violenta!
Nós, é um livro admirável! Sobretudo porque nos faz pensar sobre realidades totalitárias que não fazem apenas parte da história e que são, cada vez mais frequentemente, usadas por governos ditos democráticos em tentativas, mais ou menos legais, de impor formas unívocas de pensamento e de limitação das liberdades individuais em valores argumentados de mais importantes.
Esta é uma obra, tal como outras distopias que se lhe seguiram, de leitura obrigatória. O conhecimento de realidades, aparentemente, ficcionais pode ajudar, decisivamente, os leitores e cidadãos a tornarem-se mais atentos a realidades camufladas. Nós, é um livro fenomenal!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Invenção de Morel

A Invenção de Morel é um livro do argentino Adolfo Bioy Casares pela primeira vez publicado em 1940.
Esta foi a primeira obra que lemos de Casares, que nos presenteia com um livro poderosíssimo sobre a simbiose imperfeita entre a loucura e o maravilhoso mundo do fantástico, no qual a personagem principal vive a ilusão de uma realidade mágica que julga conhecer e que, depois de revelada, resulta na confusão da própria personagem com o sonho anterior vivido.
A Invenção de Morel é uma obra extraordinária e de enorme originalidade. Um homem que, fugido da justiça, se refugia numa ilha deserta e vê, semanalmente, repetidas as mesmas imagens e acontecimentos, prostra-se numa vã tentativa de compreender o inverosímil e de assimilar, ao ponto de se apaixonar por uma imagem!
O mundo dos sonhos, ou dos hologramas – que é o caso do presente livro – no qual os indivíduos não distinguem da realidade corresponde a um caminho perigoso. Julgamos ser para essa realidade que chama a atenção Casares. Um mundo de sombras, cavernas e fumos, onde nada é o que parece.
Casares é um escritor extremamente culto, cultura essa que se reflecte na sua obra! Só um autor de excepção consegue verbalizar uma ideia tão fabulosa! A escrita é simples, apesar da complexidade da temática, tornando A Invenção de Morel num livro acessível para a generalidade dos leitores.
A Invenção de Morel é um grande livro! A sua mensagem, fascinante, é de utilidade extrema numa sociedade de Homens que lutam por distinguir entra a ficção e a realidade! A ler, sem dúvida!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Obrigada pelo lume

Obrigada pelo lume é um fantástico romance do escritor uruguaio Mario Benedetti.
Não conhecíamos a obra de Benedetti! E que pena! Porque este romance de Benedetti tem a força de um cavalo selvagem! É intenso, potencialmente verosímil, assustador, explicativo. É um romance extraordinário porque nos apresenta, em forma de ficção, a mais crua das realidades e dos factos.
O romance conta-nos a história do Uruguai da década de sessenta do século passado e de Ramón Budiño, filho de um poderosíssimo empresário uruguaio que fez fortuna através da corrupção.
Não pense, no entanto, o nosso leitor que Obrigada pelo lume é uma obra que retracta apenas o fenómeno da corrupção na América latina. Sobretudo porque este livro é sobre a essência do ser humano, sobre as suas dúvidas e reflexões, sobre a inconstância perante a multiplicidade de opções e sobre sexo, sobre o passado e as relações entre homens. E por isso é muito violento. Porque a realidade raramente se compadece com visões cor-de-rosa!
Benedetti é um escritor apurado. Escreve de forma limpa, sem a utilização de uma variedade excêntrica de recursos estilísticos. Escreve, quase sempre, com o narrador a falar na primeira pessoa. E por isso espelha tantas vezes a essência do ser humano.
Obrigada pelo lume é uma excelente obra. Um livro recomendável e que evidencia, como é habitual nos escritores sul-americanos, a realidade dos povos e das nações. É, portanto, um livro muito recomendável.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crónica de uma Morte Anunciada

Crónica de uma Morte Anunciada é uma obra extraordinária obra do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, prémio Nobel da Literatura em 1982.
Crónica de uma Morte Anunciada não foi o primeiro livro que tivemos oportunidade de ler deste Garcia Márquez. Há uns anos lemos Cem anos de Solidão e O Amor em Tempos de Cólera, dois dos mais magníficos livros escritos nos últimos cinquenta anos e que revelam bem o génio deste fenomenal escritor colombiano.
É que Garcia Márquez é um escritor ao bom estilo sul-americano. Obras repletas de uma quente sedução, com personagens ritmadas e ambientes descritos com uma velocidade estonteante talvez porque o mundo sul-americano se vive com outra intensidade!
E Crónica de uma Morte Anunciada não foge à regra. O narrador, que também é personagem, narra, alguns anos depois de decorridos os factos, com pormenor jornalístico, a morte, ou o assassinato, ou o crime de Santiago Nasar, acusado por uma noiva na noite de núpcias de desonra!
A história é contada a um ritmo alucinante. As personagens são exploradas divinamente e o leitor é violentamente impelido a ler página atrás de página em perfeita sofreguidão.
Garcia Márquez, como se sabe, é genial e encara o verdadeiro espírito latino porque não tem receio de violentar o leitor com as descrições mais verosímeis e cantadas. Crónica de uma Morte Anunciada é um livro fantástico e merece ser lido por todos os verdadeiros amantes da literatura.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ortodoxia

Ortodoxia é uma interessantíssima obra do inglês de G. K. Chesterton.
Ortodoxia é um ensaio sobre a questão religiosa, escrito há mais de cem anos, numa altura, tal como nos dias de hoje, em que as questões religiosas se assumiam como estando no centro de um interessante debate.
Chesterton, que é um escritor hábil e talentoso, um mestre no uso da palavra, tenta demonstrar, fazendo uso de argumentos fortes – embora muitíssimo discutíveis – a existência de Deus e o porquê de outras doutrinas do inicio do século XX estarem erradas quando afirmam a inexistência de um ser superior e magnânimo.
Este é um livro particularmente bem escrito. Chesterton usa, amiudadamente, a metáfora e a alegoria como forma de expressão do seu pensamento e das suas ideias. Sendo um excelente escritor tenta convencer através dos exemplos a que vai aludindo.
É interessante verificar a forma polida como se debate no dealbar do século XIX e inicio do século XX. Procura-se contrariar os argumentos da parte contrária através de um esforço exegético da sua própria doutrina numa tentativa de colocar grandes questões da humanidade num patamar quase científico.
Ortodoxia não é, naturalmente, um romance e os leitores não podem esperar uma narrativa repleta de incerteza ou finais felizes. Um ensaio desta natureza, embora com interesse, não poderia reunir esse género de requisitos. Para aqueles que querem aprofundar a questão, recomenda-se. Para os outros, não!