quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sputnik, meu amor

Sputnik, meu amor é mais um livro do magnífico e best-seller escritor japonês Haruki Murakami.
Ao longo dos últimos anos temo-nos habituado a ler com imenso prazer e expectativa a obra de Haruki Murakami que consideramos o maior e mais talentoso escritor do panorama literário internacional. A intensidade e o absurdo surrealista que está presente nos seus livros são absolutamente cativantes e suscita-nos sempre os mais entusiasmados pensamentos e as mais profundas reflexões. Daí que tenhamos optado por ler os seus livros a conta-gotas, para que não arrisquemos a ter um overdose do autor.
Sputnik, meu amor é um bom livro, interessante, cativante, enternecedor e com personagens ao bom estilo de Murakami: com uma dose de insânia e surrealismo saudável. Apesar de tudo, Sputnik, meu amor é, possivelmente, das obras de Murakami que até ao momento tivemos oportunidade de ler, a menos interessante de todas.
Note-se, apesar de tudo, que o livro não deixa de ser bom. Continua transportar-nos para o mundo da ilusão e fantasia a que Murakami já nos habituou. O problema é que talvez não seja suficiente. De Haruki Murakami esperamos sempre o mais irreal possível, esperamos sempre que nos surpreenda com aquela mitologia japonesa que está presente em grande parte das suas obras e, infelizmente, Sputnik, meu amor, sabe-nos a pouco.
Não pensem, não obstante, os fãs de Haruki Murakami que podem não gostar do livro. Pelo menos nós gostámos muito e aconselhamos a sua leitura. O que dizemos é que pode, eventualmente, não ser o melhor e mais interessante livro de Murakami.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ensaio sobre a Lucidez

Ensaio sobre a Lucidez é uma obra do Nobel português José Saramago.
Como já todos sabemos Saramago é um escritor com um estilo atípico que se reflecte, quer nas temáticas que aborda, quer na forma como dá forma às suas ideias, como as passa para o papel e, sobretudo, na forma como utiliza a pontuação.
Como não poderia deixar de ser, Ensaio sobre a Lucidez não foge a esta regra e é um reflexo, em toda a linha, desta forma de escrita do autor.
Saramago é um autor que se destaca pela sua imaginação delirante. Os seus trabalhos são, regra geral, intrincados pensamentos e meditações profundas sobre o significado de mitos, dogmas ou sobre factos históricos ou sociais e Ensaio sobre a Lucidez aborda precisamente a temática referente aos factos de natureza social/política na medida em que se debruça sobre o fenómeno do voto em branco.
Nesta obra encontramos muitos traços kafkianos nomeadamente na abordagem que se faz das consequências uma votação massiva em branco pela população da capital de um país. A questão sobre a procura da verdade permite sempre aos autores enredarem-se num complexo emaranhado e na tentativa de transformarem a realidade no absurdo.
A ideia do livro é muito boa mas temos a sensação que Saramago se perde logo no princípio e que depois não se volta a encontrar. É que a obra sugere muitas e interessantes questões que depois acabam por não ter resposta ou pelo menos a resposta que é sugerida não nos satisfez inteiramente.
Ensaio sobre a Lucidez é um bom livro. Talvez não seja fantástico porque esperamos sempre mais do Nobel português, mas para os fãs de Saramago é, provavelmente, um livro a não perder.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Queda

A Queda é um livro de Albert Camus um dos brilhantes autores franceses do século XX e expressão incomparável da literatura existencialista e do absurdo.
A literatura de Albert Camus é das mais difíceis e cativantes que temos tido oportunidade de analisar. Os seus romances/ensaios são sempre de uma profundidade existencial perturbadora, as suas personagens contaminadas de um magnetismo atroz e perturbador e os ambientes criados revelam ponderação e enorme capacidade de abstracção.
A Queda segue bem a linha daquilo que temos lido em Camus. Um homem que encontra casualmente outro homem e com o qual constrói um intrincado de anti-diálogos no qual o primeiro se pronuncia sobre a sua vida e o papel numa realidade que é toda ela absurda e metafísica.
Esta é a narrativa de um juiz-penitente que se confessa ao mesmo tempo que avalia o mundo que o rodeia. As considerações que tece sobre o género humano, sobre as suas falhas, convulsões e incapacidades, coloca em causa a simplicidade com que a Vida é avaliada e experimentada. É uma obra de enorme profundez e abrangência.
Camus não é um escritor cujo significado da obra encontremos desde a primeira página. É complexo e, cremos nós, desejou sempre sê-lo. A Queda segue a linha do autor e é também um livro genial. Se recomendamos? Será possível não recomendar a obra dum arauto da existência e da reflexão?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

o Homem que Morreu

O Homem que Morreu, ou O Galo à Solta na sua primeira designação, é um pequeno romance do muito controverso escritor inglês D. H. Lawrence mais conhecido pelo seu O Amante de Lady Chatterley.
Se há livros polémicos devido à temática abrangida O Homem que Morreu sê-lo-á indubitavelmente dado que o assunto se prende com Jesus Cristo (embora nunca estas palavras sejam usadas no texto) e a temática da sexualidade.
Apesar de tudo, polémico não significa que a ideia não esteja brilhantemente construída e desenvolvida. Não significa que o livro seja mau ou indecoroso. Significa apenas que Lawrence teve a coragem de desenvolver uma temática ligada a Jesus Cristo numa época pouco tolerante.
Em O Homem que Morreu encontramos a perfeição das parábolas e um magnífico registo metafórico. A personagem principal ressuscita mas este regresso à vida é meramente parcial, tal como o galo que está preso pela perna e que vai perdendo a pujança e a alegria de viver, sendo certos que ambos se restauram com a conquista da liberdade. No caso da nossa personagem principal esse rejúbilo concretiza-se com a prática sexual com uma figura mitológica.
O Homem que Morreu é um livro de uma profundidade extraordinária e de uma complexidade assinalável mas de uma beleza indescritível e tocante. Uma obra-prima que aconselhamos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Solar

Solar é o mais recente romance do escritor bestseller inglês Ian McEwan autor de Amesterdão entre muitos outros livros.
McEwan que é um dos mais galardoados e vendidos autores da actualidade e que recebeu prémios tão distintos como o Somerset Maugham Award, Whitbread Award, Booker Prize entre muitos outros revelou-se como uma das maiores desilusões que tivemos nos últimos anos e não pareceu justificar com este Solar qualquer prémio ou distinção que já tenha tido no passado.
Tudo porque este Solar é um livro muito fraquinho. O enredo é previsível, pobre, com o recurso a uma mistura quase patética entre a profundidade de uma análise científica e uma tentativa de sátira a um mundo proto-moderno onde o relativismo moral se assume como vector fundamental e onde as personagens são descritas com a profundidade de um filme de fim-de-semana.
McEwan é, talvez, um autor demasiado moderno e simples. Demonstra pouca atenção na pintura das cenas onde decorre a acção e não se conseguem compreender totalmente as personagens que cria. A ideia de um Prémio Nobel da Física que depois de galardoado se afasta da investigação e que acaba por desenvolver o trabalho feito por um amante da sua quinta mulher depois de ter assistido à sua morte acidental é, para sermos simpáticos, muito pouco interessante.
Todas as análises estão sujeitas a um determinado subjectivismo que deriva dos gostos pessoais de cada leitor. Para nós Solar não vale metade do dinheiro que gastámos com ele e McEwan passou a ser um proscrito. Este livro é uma farsa mas que cada um faça a sua própria interpretação.