quinta-feira, 29 de abril de 2010

Estrela Distante

Estrela Distante é um pequeno romance de um dos mais lidos escritores chilenos do momento Roberto Bolaño.
Ao longo dos últimos anos temo-nos habituado a ler e apreciar muitos escritores sul-americanos sobretudo devido à força estonteante como escrevem e como se debruçam sobre as graves e diversas convulsões sociopolíticas da região. Estrela Distante é precisamente, apesar de muitas diferenças assinaláveis, um dos exemplos desta realidade.
Nesta obra – a primeira que tivemos oportunidade de ler deste autor – encontramos bem plasmada a crítica/reflexão sobre os problemas associados à ditadura chilena. E, embora poeticamente, o autor não esconde a dureza dessa realidade nem as perturbações da mesma na vida diária de milhões de chilenos.
Apesar de tudo, Estrela Errante é também, apesar de não ser o ser só, um livro sobre um homem e sobre arte. O homem é Ruiz-Tagle ou Wieder e a arte é a poesia ainda que esta esteja ao serviço do mal.
Estrela Distante é um livro poderoso e é, ao mesmo tempo, um livro complicado e pouco acessível para o normal leitor. Isto porque nem sempre é fácil seguir o pensamento intrincado do autor no que diz respeito aos factos relatados visto que nos pareceu que Bolaño não prima pela simplicidade na sua escrita.
Bolaño é um escritor em ascensão no nosso país sobretudo depois da publicação de 2666. Apesar de tudo Estrela Distante não nos convenceu do brilhantismo deste escritor. Não é que o livro seja mau mas não é tão bom como aquilo que dele querem fazer.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Mulher Certa

A Mulher Certa é uma fantástica obra do escritor de origem húngara Sándor Márai (autor de quem já tivemos oportunidade de ler As velas ardem até ao fim) composta por 3 partes distintas – e ainda um epílogo.
Sándor Márai é um escritor genial e a sua escrita de uma profundidade inolvidável. A forma simples e directa com que se pronuncia sobre alguns dos mais intensos problemas do ser humano são um elogio à arte da escrita e revelam uma capacidade inigualável de compreensão da natureza humana.
A Mulher Certa é uma obra esplêndida onde encontramos a mesma história contada por três personagens diferentes, Marika, Péter e Judit – e um epílogo onde surge uma quarta personagem que ajuda a esclarecer alguns pontos em aberto – numa versão erudita de um triângulo sentimental.
O tema essencial deste livro é sociedade húngara na primeira metade do século XX e duas dicotomias: uma de natureza sentimental e outra de cariz social. O autor opta por se referir sobretudo à forma perfeita como as relações entre homens e mulheres evoluem e se completam, aos distanciamentos implícitos, ao amor, ciúme, compreensão e procura interior e, noutra dimensão, alude às relações sociais, à luta silenciosa entre o prole e o burguês, à inveja e às diferenças e desigualdades intrínsecas entre homens e mulheres e entre ricos e pobres.
A Mulher Certa é um romance de uma beleza extraordinária. Cativante, emocionante, perscrutador, capaz de suscitar questões e de oferecer algumas respostas, A Mulher Certa é uma obra que não pode deixar de ser lida. Talvez seja assim toda a obra de Márai, paradoxal, por um lado de uma complexidade evidente e de por outro de uma simplicidade tocante. A não perder.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Barão Trepador

O Barão Trepador é mais um deslumbrante livro (segundo da trilogia Os Nossos Antepassados) do italiano de origem cubana Italo Calvino.
Ao longo dos últimos anos temos vindo a ler a obra deste genial e brilhante artista da palavra, cultivador da fantasia e das ideias mirabolantes que é Calvino com interesse crescente. Se em As cidades Invisíveis estranhámos o estilo foi com O Cavaleiro Inexistente que finalmente ficámos apaixonados pela simplicidade da escrita e pela fantasia da imaginação.
Em O Barão Trepador ficamos a conhecer a história de Cosimo, um nobre italiano do final do século XVIII e inicio do século XIX que, um dia, resolve subir a uma árvore do jardim e nunca mais descer. E é em cima das árvores da sua região e um pouco por toda a Europa que Cosimo vai fazer a sua vida, estudando, lendo, apaixonando-se, combatendo incêndios, caçando, participando nas actividades normais de um habitante do século das luzes.
O Barão Trepador é mais um exercício de portentosa imaginação de Calvino, autor que tem a capacidade de fazer do inverosímil algo de plausível e que, ao mesmo tempo, é um magistral contador de histórias.
A obra de Calvino é uma constante surpresa. De todos os autores que tivemos até hoje oportunidade de ler este é, provavelmente, um dos mais loucos e brilhante, ou seja, um dos melhores. O Barão Trepador é um excelente livro, não apenas para aqueles que já conhecem Calvino como pode ser também óptimo para ser o primeiro a ser lido. É, portanto, um livro muito recomendável.