segunda-feira, 29 de março de 2010

A máquina de fazer espanhóis

A máquina de fazer espanhóis é o mais recente romance do português vencedor do Prémio José Saramago em 2006 Valter Hugo Mãe.
Há alturas na nossa vida em que nos deparamos com questões que extravasam a nossa capacidade de resposta imediata. Uma dessas questões é a seguinte: onde será que temos andado que só agora descobrimos a loucura genial de Valter Hugo Mãe? É que Hugo Mãe é um autor de primeiríssima água, uma lufada de ar fresco nas letras em português, uma imaginação inigualável e dotado de um estilo e capacidade de escrita que há-de ficar para a história. Hugo Mãe é do melhor que temos lido e não estamos só a referir-nos a autores portugueses!
A máquina de fazer espanhóis é uma obra fantástica e deslumbrante. É inspirador e de uma magnificência extraordinária. É um bálsamo, um elogio à arte da escrita, um raio de Sol numa tarde de Inverno. É um livro espirituoso, profundo, fabulosamente bem escrito e com personagens perfeitamente bem esculpidas. O estilo do autor é sobranceiro e límpido. O enfoque metafísico-filosófico está na justa proporção com um leve travo a concepções de natureza histórica relativas ao nosso país. É uma obra, toda ela, a cheirar a Portugal!
Quanto à narrativa: é preciso ter coragem para imaginar e passar a escrito a história de um octogenário que vê a sua esposa falecer e que vai para um lar. Uma temática não explorada com suficiência na literatura.
Talvez o leitor deste blogue nunca tenha lido nada de Valter Hugo Mãe. Também nós nunca o tínhamos feito mas ficámos seduzidos desde a primeira página. Hugo Mãe é um autor a não perder, a ler e a reler e sobretudo a pensar. A mensagem tem um significado muito mais extenso do que a mera leitura das palavras pode parecer ter. A máquina de fazer espanhóis é um grande livro e a sua leitura é obrigatória!

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Geografia da Felicidade

A Geografia da Felicidade é um divertido e interessante livro do jornalista americano Eric Weiner que se propõe a viajar e conhecer alguns dos mais felizes e infelizes países do nosso planeta.
Eric Weiner tem uma escrita simples, despreocupada e sem grandes artifícios de linguagem, aliás, como a generalidade dos jornalistas. Há quem diga que pode ser melhor que Bill Bryson (um famosíssimo escritor de viagem) mas os estilos são bem diferentes. Bryson é, sobretudo, um viajante enquanto que Weiner tem o jornalismo e a procura de factos bem intrincada no seu código genético.
Weiner, que como jornalista trabalhou como correspondente em países como a Índia, Israel ou o Japão, fez as malas e percorreu caminhos que o levaram a lugares tão heterogéneos como a Holanda o Butão, a Moldávia ou a Tailândia em busca de respostas que o levassem a concluir onde reside a felicidade de um povo ou de uma nação.
A Geografia da Felicidade é um livro diferente. Está entre uma crónica de viagens e um ensaio sobre as razões da felicidade dos povos mas é acima de qualquer outra coisa um livro que, a partir da primeira página, nos cativa. Tudo isto deve-se, provavelmente, devido ao facto de a escrita ser simples e de nos guiar por um conjunto de questões por onde o nosso pensamento já fluiu, nomeadamente se nos questionarmos também sobre a nossa própria felicidade.
A Geografia da Felicidade nunca será um livro para a história. Mas é interessante. E de quando em vez também gostamos de ler livros só pelo que as temáticas abordadas nos suscitam!

quinta-feira, 18 de março de 2010

A Peste

A Peste é uma obra do francês Albert Camus – Prémio Nobel da Literatura em 1957 – e por muitos considerada a mais importante referência deste autor nascido na Argélia.
A obra de Camus não é de simples interpretação. O existencialismo latente nos seus livros está também patente em A Peste. As suas personagens, construídas e bordadas a fio de ouro, são, fruto da situação em que estão colocadas, exemplos da humanidade e do seu próprio contrário, da inumanidade.
O maior problema na obra de Camus para o leitor impreparado reside no facto de a alegoria estar construída de uma forma dissimulada, como se o próprio objecto do livro fosse o exemplo construído e não o seu significado mais oculto. Em Camus é necessário saber ler nas entrelinhas e procurar os mais dúbios sentidos.
É que A Peste não é um simples livro que pretenda retratar apenas a vida de uma cidade sujeita a um flagelo capaz de condenar à morte, em poucos meses, mais de metade de uma cidade. A Peste não é apenas uma obra de reflexão sobre o sentido da vida e da relação entre seres humanos impotentes quando confrontados com uma calamidade. A Peste não é um mero romance no qual se ilustram personagens mais ou menos profundas e se lhe atribuem sentimentos frágeis.
Não, A Peste é, talvez, o livro de Camus, no qual o autor francês coloca em causa os fundamentos da existência humana, põe a nu as fragilidades da virtude, da amizade, da tolerância e do amor, no qual questiona permanentemente o leitor sobre as bases fundamentais no qual assenta a sua entidade corpórea e terrena.
Albert Camus é um dos maiores escritores do século XX e A Peste é uma obra admirável. Apesar de tudo não é para ler em qualquer momento, é demasiado difícil para isso. Para ler este livro é preciso que ele nos chame!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Gente Independente

Gente Independente é um romance (considerado pelo The Independent como o livro do século) do islandês laureado com o Nobel da Literatura em 1955 Halldór Laxness.
A opinião que os leitores têm de um determinado livro é sempre condicionada por um conjunto de factores de ordem diversa e que assentam, muitas das vezes, em considerações de natureza pessoal como os gostos intrínsecos de cada um. Gente Independente é aclamado, por grande parte da crítica, como um dos melhores romances do século XX. Não temos dúvidas, depois da leitura atenta que fizemos da obra, que Gente Independente é efectivamente um grande livro mas talvez esteja, apesar de tudo, longe de ser o melhor livro do século.
Laxness é, como alias a generalidade dos escritores com gabarito para ganhar um Nobel, um escritor culto, apurado e com uma escrita bastante precisa e clara. Em Gente Independente conseguem-se encontrar, com alguma facilidade, a expressão da adjectivação supra uma vez que a erudição do autor está presente em cada um das quase 500 páginas desta obra.
Não é fácil escrever uma obra sobre a génese e as características de um povo como faz Laxness neste livro. A forma quase poética como é narrada a vida de um pobre agricultor islandês na passagem do século XIX para o século XX é em muitas alturas comovente e enternecedora, sobretudo porque em Gente Independente encontramos uma história de coragem, de vontade, de luta constante do homem contra a natureza para além de uma profunda reflexão sobre a natureza do homem e as venturas de um povo incrustado num dos mais hostis ambientes do planeta. Encontramos também considerações de natureza filosófica e política: o individualismo versus o socialismo; a América versus a Rússia; a persistência versus a desistência; a independência versus a derrota!
Gente Independente não está entre os nossos dez romances favoritos de todos os tempos mas não é por esse motivo que deixa de ser um enorme livro. Um grande livro porque não só as personagens estão belissimamente bem construídas mas também porque é impossível não nos envolvermos no culto ao heróico povo islandês.
Esta é uma obra de fôlego. Um elogio à arte de retratar um povo e de cantar os feitos heróicos do mesmo. Gente Independente pode, talvez, não ser o romance do século mas é definitivamente uma obra imperdível!