terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O apocalipse dos trabalhadores

O apocalipse dos trabalhadores é um dos primeiros trabalhos de um dos mais proeminentes escritores portugueses da nova geração, Valter Hugo Mãe.
Hugo Mãe, que nos fascinou absolutamente com A máquina de fazer espanhóis, voltou a faze-lo (embora este O apocalipse dos trabalhadores seja um livro anterior) com a magnífica obra que ora apresentamos.
Já conhecíamos o estilo avassalador da escrita de Hugo Mãe que, através de história simples mas de enorme profundidade, nos dão a conhecer muitos dos traços actuais da vida em sociedade e do mundo português. Em O apocalipse dos trabalhadores conhecemos a história de duas mulheres-a-dias, um velho reformado e um jovem ucraniano a viver em Portugal.
Aparentemente, esta poderia ser a narrativa de uma qualquer telenovela de horário nobre. A diferença é que Hugo Mãe conta a história de forma brilhante, dando a conhecer os anseios, as perturbações e as expectativas de indivíduos que poderíamos reconhecer em tantas das pessoas que encontramos todos os dias.
Para mais – e provavelmente o mais brilhante desta obra – Hugo Mãe ficciona sonhos da personagem principal – Maria da Graça – com São Pedro e a tentativa que esta faz – no mundo de Morfeu – de voltar à conversa como seu antigo patrão – que dela abusava sexualmente – por quem se havia apaixonado!
O apocalipse dos trabalhadores é uma obra admirável. O mundo das letras em português é, indiscutivelmente, mais rico devido à presença de Valter Hugo Mãe e da sua mirabolante imaginação. Este é um livro indispensável!

sábado, 11 de dezembro de 2010

A um Deus Desconhecido

A um Deus Desconhecido é um romance do americano John Steinbeck, autor do famoso As vinhas da ira e prémio Nobel da literatura em 1962.
Steinbeck é um autor muito influenciado pela realidade americana do inicio do século XX e pelas difíceis condições económicas da imensa classe rural da época, sendo que parte da sua obra retracta, precisamente, esta problemática e A um Deus Desconhecido é um livro é um bom exemplo deste facto.
No entanto, A um Deus Desconhecido, toca também, uma outra questão: a da religião. E neste livro, Steinbeck, aborda este assunto, construindo uma personagem que funda as suas crenças num forte paganismo que procura afasta a certeza da religião tradicional.
Steinbeck é um autor simples. Não existem grandes floreados ou artifícios metafóricos ou alegóricos na sua escrita. É certo que a temática tem, em si, uma forte componente simbólica, mas a narrativa é construída sem significativa ornamentação.
Não quer isto dizer que o livro tenha um impacto menor. As personagens estão muito bem arquitectadas, em particular a personagem principal Joseph Wayne. E o cenário está bem descrito, com pormenor suficiente para nos fazer imaginar com satisfação as planícies da Califórnia no inicio do século XX.
A um Deus Desconhecido é um bom livro. Entretêm e dá a conhecer uma realidade pouco abordada (pelo menos de forma satisfatória) pela literatura moderna. É, indiscutivelmente, um livro a ler.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Cidade e as Serras

A Cidade e as Serras é uma obra do escritor português oitocentista, Eça de Queiroz.
Ao longo dos últimos anos temos vindo, aqui, a fazer várias críticas/análises das obras do mestre português Eça de Queiroz e nunca escondemos a admiração desmedida que sentimos por este autor que consideramos o maior de sempre!
O estilo crítico de Eça, fundamentado numa profunda análise da sociedade, dos seus vícios e das suas figuras mais rocambolescas, filtrado pela pena impar de um narrador sublime, é, sempre, uma lufada de realidade e de actualidade.
Em A Cidade e as Serras surge a dicotomia entre a realidade do campo e a da cidade. O confronto entre a modernidade, da tecnologia, da moda e da decadente nobreza francesa de oitocentos, representada pela cidade e a placidez, a tranquilidade, a simplicidade e a alegria do campo representado pelas serras.
Eça é maravilhoso! E as suas personagens são absolutamente deliciosas! Jacinto, o rico proprietário refugiado em Paris, nos Campos Elísios, devido à fuga do seu antepassado miguelista, e Zé Fernandes, o seu remediado amigo que o acompanha pelo faustoso mundo parisiense e mais tarde na serra em Portugal.
A Cidade e as Serras é um grande livro. Aliás, como são todos aqueles que surgiram da mente do maior vulto do romance português de todos os tempos! E, à semelhança de muitas das suas outras obras, avulta em A Cidade e as Serras a impar capacidade de ser um romance intemporal. A cidade versus o campo é um antagonismo que não morreu em meados do século XX. Permanece viva! E com redobrado interesse neste inicio do século XXI! Recomenda-se, portanto, com muito interesse!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Nós

Nós, é uma obra absolutamente extraordinária e original, do escritor russo Evgueni Ivanovich Zamiatine, publicada pela primeira vez em 1924.
Nós é uma distopia, ou anti-utopia, e pretende relatar uma sociedade futurista onde os habitantes de um Estado Único perdem a sua individualidade e passam a ser meros números, desprovidos da capacidade de pensarem e de tomarem decisões de acordo com o livre arbítrio.
Nós, não será, porventura, a mais conhecida das distopias do século XX – em comparação com 1984 ou com Admirável Mundo Novo – mas é precursora de qualquer uma destas obras e pode, eventualmente, ter servido de inspiração para os trabalhos de Orwell e Huxley.
A sociedade futurista descrita por Zamiatine, onde os indivíduos vêm controladas todas as suas funções, deste o exercício físico aos momentos em que podem ter relações sexuais, onde a sua capacidade de pensar está limitada bem como a sua liberdade – em nome de uma suposta felicidade – faz-nos lembrar as tentativas totalitárias que se viriam a seguir no excurso da história da humanidade, sem que, no entanto tivesse esse intuito.
Zamiatine revelou-se como um escritor original e de escrita simples – sobretudo tendo em consideração a complexidade da temática. E a sua mensagem, chega à generalidade dos leitores de forma clara e ao mesmo tempo violenta!
Nós, é um livro admirável! Sobretudo porque nos faz pensar sobre realidades totalitárias que não fazem apenas parte da história e que são, cada vez mais frequentemente, usadas por governos ditos democráticos em tentativas, mais ou menos legais, de impor formas unívocas de pensamento e de limitação das liberdades individuais em valores argumentados de mais importantes.
Esta é uma obra, tal como outras distopias que se lhe seguiram, de leitura obrigatória. O conhecimento de realidades, aparentemente, ficcionais pode ajudar, decisivamente, os leitores e cidadãos a tornarem-se mais atentos a realidades camufladas. Nós, é um livro fenomenal!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Invenção de Morel

A Invenção de Morel é um livro do argentino Adolfo Bioy Casares pela primeira vez publicado em 1940.
Esta foi a primeira obra que lemos de Casares, que nos presenteia com um livro poderosíssimo sobre a simbiose imperfeita entre a loucura e o maravilhoso mundo do fantástico, no qual a personagem principal vive a ilusão de uma realidade mágica que julga conhecer e que, depois de revelada, resulta na confusão da própria personagem com o sonho anterior vivido.
A Invenção de Morel é uma obra extraordinária e de enorme originalidade. Um homem que, fugido da justiça, se refugia numa ilha deserta e vê, semanalmente, repetidas as mesmas imagens e acontecimentos, prostra-se numa vã tentativa de compreender o inverosímil e de assimilar, ao ponto de se apaixonar por uma imagem!
O mundo dos sonhos, ou dos hologramas – que é o caso do presente livro – no qual os indivíduos não distinguem da realidade corresponde a um caminho perigoso. Julgamos ser para essa realidade que chama a atenção Casares. Um mundo de sombras, cavernas e fumos, onde nada é o que parece.
Casares é um escritor extremamente culto, cultura essa que se reflecte na sua obra! Só um autor de excepção consegue verbalizar uma ideia tão fabulosa! A escrita é simples, apesar da complexidade da temática, tornando A Invenção de Morel num livro acessível para a generalidade dos leitores.
A Invenção de Morel é um grande livro! A sua mensagem, fascinante, é de utilidade extrema numa sociedade de Homens que lutam por distinguir entra a ficção e a realidade! A ler, sem dúvida!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Obrigada pelo lume

Obrigada pelo lume é um fantástico romance do escritor uruguaio Mario Benedetti.
Não conhecíamos a obra de Benedetti! E que pena! Porque este romance de Benedetti tem a força de um cavalo selvagem! É intenso, potencialmente verosímil, assustador, explicativo. É um romance extraordinário porque nos apresenta, em forma de ficção, a mais crua das realidades e dos factos.
O romance conta-nos a história do Uruguai da década de sessenta do século passado e de Ramón Budiño, filho de um poderosíssimo empresário uruguaio que fez fortuna através da corrupção.
Não pense, no entanto, o nosso leitor que Obrigada pelo lume é uma obra que retracta apenas o fenómeno da corrupção na América latina. Sobretudo porque este livro é sobre a essência do ser humano, sobre as suas dúvidas e reflexões, sobre a inconstância perante a multiplicidade de opções e sobre sexo, sobre o passado e as relações entre homens. E por isso é muito violento. Porque a realidade raramente se compadece com visões cor-de-rosa!
Benedetti é um escritor apurado. Escreve de forma limpa, sem a utilização de uma variedade excêntrica de recursos estilísticos. Escreve, quase sempre, com o narrador a falar na primeira pessoa. E por isso espelha tantas vezes a essência do ser humano.
Obrigada pelo lume é uma excelente obra. Um livro recomendável e que evidencia, como é habitual nos escritores sul-americanos, a realidade dos povos e das nações. É, portanto, um livro muito recomendável.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crónica de uma Morte Anunciada

Crónica de uma Morte Anunciada é uma obra extraordinária obra do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, prémio Nobel da Literatura em 1982.
Crónica de uma Morte Anunciada não foi o primeiro livro que tivemos oportunidade de ler deste Garcia Márquez. Há uns anos lemos Cem anos de Solidão e O Amor em Tempos de Cólera, dois dos mais magníficos livros escritos nos últimos cinquenta anos e que revelam bem o génio deste fenomenal escritor colombiano.
É que Garcia Márquez é um escritor ao bom estilo sul-americano. Obras repletas de uma quente sedução, com personagens ritmadas e ambientes descritos com uma velocidade estonteante talvez porque o mundo sul-americano se vive com outra intensidade!
E Crónica de uma Morte Anunciada não foge à regra. O narrador, que também é personagem, narra, alguns anos depois de decorridos os factos, com pormenor jornalístico, a morte, ou o assassinato, ou o crime de Santiago Nasar, acusado por uma noiva na noite de núpcias de desonra!
A história é contada a um ritmo alucinante. As personagens são exploradas divinamente e o leitor é violentamente impelido a ler página atrás de página em perfeita sofreguidão.
Garcia Márquez, como se sabe, é genial e encara o verdadeiro espírito latino porque não tem receio de violentar o leitor com as descrições mais verosímeis e cantadas. Crónica de uma Morte Anunciada é um livro fantástico e merece ser lido por todos os verdadeiros amantes da literatura.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ortodoxia

Ortodoxia é uma interessantíssima obra do inglês de G. K. Chesterton.
Ortodoxia é um ensaio sobre a questão religiosa, escrito há mais de cem anos, numa altura, tal como nos dias de hoje, em que as questões religiosas se assumiam como estando no centro de um interessante debate.
Chesterton, que é um escritor hábil e talentoso, um mestre no uso da palavra, tenta demonstrar, fazendo uso de argumentos fortes – embora muitíssimo discutíveis – a existência de Deus e o porquê de outras doutrinas do inicio do século XX estarem erradas quando afirmam a inexistência de um ser superior e magnânimo.
Este é um livro particularmente bem escrito. Chesterton usa, amiudadamente, a metáfora e a alegoria como forma de expressão do seu pensamento e das suas ideias. Sendo um excelente escritor tenta convencer através dos exemplos a que vai aludindo.
É interessante verificar a forma polida como se debate no dealbar do século XIX e inicio do século XX. Procura-se contrariar os argumentos da parte contrária através de um esforço exegético da sua própria doutrina numa tentativa de colocar grandes questões da humanidade num patamar quase científico.
Ortodoxia não é, naturalmente, um romance e os leitores não podem esperar uma narrativa repleta de incerteza ou finais felizes. Um ensaio desta natureza, embora com interesse, não poderia reunir esse género de requisitos. Para aqueles que querem aprofundar a questão, recomenda-se. Para os outros, não!

sábado, 30 de outubro de 2010

África Acima

África Acima é um livro de Gonçalo Cadilhe. Um grande e fantástico livro de viagens como todos os outros que Cadilhe nos tem dado a provar.
Depois de andar pelos passos de Magalhães, de considerar que a Lua pode esperar, de nos fazer uma resenha do seu planisfério pessoal e de querer um km de cada vez, Gonçalo Cadilhe andou desta vez por África, «uma viagem épica por um continente impressionante.»
Cadilhe, um verdadeiro viajante, como é seu hábito, pegou na sua mochila, e recusando o transporte aéreo, tratou de viajar entre a África do Sul e Marrocos. Pelo caminho passou pela Namíbia, Angola, Zimbabué, República do Congo, Nigéria, Mauritânia, Marrocos, entre outros, numa odisseia de mais de oito meses, quinze países e vinte sete mil quilómetros.
Quem conhece a literatura de Gonçalo Cadilhe sabe que não pode esperar a descrição pormenorizada dos hotéis ou das mais esplendorosas cidades do mundo. Sabe no entanto que Cadilhe pinta como nenhum outro, momentos de uma magia, cumplicidade e alegria.
África Acima é um livro magnífico. Não é um mero livro de viagens, é um tratado sobre a amizade, o conhecimento, a partilha e o amor. Amor pela Terra, pelos indivíduos, pela vida animal. África Acima é um livro memorável!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Parábolas e Fragmentos

Parábolas e Fragmentos é uma obra de um dos maiores escritores do século XX, Franz Kafka.
Esta obra não, traduzida e prefaciada por João Barrento, não é um romance nem sequer um ensaio, mas antes um conjunto de textos em forma de parábola, ou seja, profundamente simbólicos, sendo que são quase na sua totalidade de difícil compreensão, pelo menos que respeita ao seu conteúdo figurado.
Para além de um conjunto significativo de parábolas esta obra contém ainda um conjunto de fragmentos, frases dispersas de Kafka, que revelam o génio e originalidade do autor.
Franz Kafka foi um escritor de enorme e reconhecido talento e que influenciou uma parte significativa do panorama literário do século XX. O seu espírito iluminado, a perfeita harmonia com que tratava as palavras e as frases, os ambientes absurdos são fascinantes, fazem apaixonar leitores cultos e experientes. Talvez nem sempre seja fácil entrar na sua escrita, sobretudo porque a sua escrita embora simples encerra significados muito complexos mas depois de se compreenderem as metáforas, as parábolas e as alegorias, Kafka passa a ser referência.
Se é Parábolas e Fragmentos um livro essencial? Se o leitor quiser ler Kafka talvez não seja o melhor livro para o fazer. Agora se é um fã deste autor, então leia-se, e rapidamente!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Homem que era Quinta-Feira

O Homem que era Quinta-Feira é uma magnífica obra do britânico G. K. Chesterton, escritor, ensaísta, jornalista – entre muitas outras actividades – que viveu entre o século XIX e o século XX.
O Homem que era Quinta-Feira é um livro muitíssimo interessante sobre uma temática cativante e repleta de um surrealismo alegórico fascinante. Chesterton recria, num jogo de mascaras e de ilusões a (i)realidade de uma suposta organização anarquista onde ninguém é quem aparenta ser.
Chesterton escreve o inacreditável de uma forma extremamente simples. Apesar da complexidade resultante de um constante jogo de luzes o autor consegue prender o leitor desde a primeira à última página numa constante necessidade de leitura da página seguinte.
O estilo é simples e as personagens estão muitíssimo bem descritas, quer a nível físico, quer a nível psicológico. Fundamental é a caracterização feita a nível psicológico que nos permite entender completamente o objectivo do autor.
O Homem que era Quinta-Feira é um excelente livro. É verdade que não trata de vampiros nem de mundos fantasmagóricos – e talvez por isso seja tão bom – mas é também uma obra repleta de fantasia e de irrealidade. É sem dúvida uma obra a ler!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Mito de Sísifo

O Mito de Sísifo é uma obra do escritor/filósofo Alter Camus.
Apesar de todas as obras de Camus estarem eivadas de uma enorme carga e componente de natureza filosófica O Mito de Sísifo é uma obra muito difícil e de elevada complexidade.
O tema do absurdo é explorado por Camus em múltiplas acepções e com referências à literatura do século XIX e XX, como Dosteievsky ou Kafka.
O normal leitor não está preparado para esta obra de Camus. Um ensaio filosófico sobre uma temática tão abstracta como o absurdo é um enormíssimo desafio mesmo para os leitores mais preparados e versados na arte da filosofia, pelo que não aconselhamos O Mito de Sísifo, a quem não a domine amplamente..

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Crónica do Pássaro de Corda

Crónica do Pássaro de Corda é um romance de um dos nossos escritores favoritos, o japonês Haruki Murakami.
Haruki Murakami é um dos mais fabulosos escritores vivos e a sua obra é sempre enigmática, mágica, perturbante e profundamente cativante. A facilidade com que Murakami conta uma história é quase inacreditável e os mundos por si criados, apesar do surrealismo militante que em si encerram, são deslumbrantes.
Crónica do Pássaro de Corda é considerado por muitos críticos a obra-prima de Murakami e foi vencedor do Prémio Yomiuri. E, efectivamente, este é um excelente romance. Mas talvez não seja o melhor livro que lemos de Murakami.
A narrativa segue a mesma linha das obras de Murakami que lemos até agora. Personagens – muitas e dispersas – e realidades surreais e uma fabulosa capacidade de entreter o leitor. Mas não nos enlouqueceu de alegria como a generalidade das obras deste autor.
A personagem principal é Toru Okada que vive numa alucinada perseguição – entre a realidade aparente e o sonho verosímil – pela sua fugidia mulher que o abandona sem aparente justificação. À medida que a narrativa avança – e as personagens surgem em catadupa – vamos descortinando o génio criador de Murakami e sentindo o porquê deste ser um dos maiores escritores vivos.
Crónica do Pássaro de Corda é um excelente livro. Talvez não tenha surgido na melhor altura – porque todos os livros têm um momento para serem lidos. Mas os fãs do autor vão, certamente, encontrar motivos suficientes para lerem este romance.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

BuenaYork

BuenaYork é um livro de viagens de Gonçalo Gil Mata um português temerário e desejoso de viver uma das maiores – senão mesmo a maior – aventuras da sua vida.
Imagine o nosso leitor uma viagem de mota entre Buenos Aires e Nova York, a solo, durante mais de 7 meses e percorrendo 40.000 quilómetros por 17 países.
Foi esta a aventura vivida por Gil Mata, um engenheiro informático que decidiu fugir da rotina e viver um dos seus grandes sonhos. E que bom foi Gil Mata ter tido a vontade de partilhar com o público a sua odisseia. Que privilégio foi acompanhar a leitura deste livro e conhecer a realidade de países tão distintos – e distantes – como Argentina, Peru, Nicarágua ou Estados Unidos da América. Que privilégio foi ter vivido ao lado de um viajante as agruras do tempo e dos assaltos e ao mesmo tempo o fascínio da amizade e a beleza das paisagens.
BuenaYork é um típico livro de viagens. E ainda bem. Este é o género de literatura que faz bem ao espírito. E, não sendo Gil Mata um escritor encartado, a verdade é que não deixa de ser uma escrita conseguida e cativante. Não será nenhum Garcia Marques ou um Sepúlveda, mas tem a capacidade de manter o leitor atento e concentrado no essencial: partilha de sentimentos!
BuenaYork é um livro para os amantes da literatura de viagens. Pode não ser tão bom como os de Gonçalo Cadilhe ou de Bill Bryson mas é, não obstante, muitíssimo interessante.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Homem Duplicado

O Homem Duplicado é um romance do recentemente falecido Nobel português José Saramago, um dos maiores autores em língua portuguesa do século XX e provavelmente o mais original de todos!
Saramago, ao longo da sua vida, escreveu dezenas de romances de enormíssima qualidade. A forma apaixonada como se expressava era um elogio à arte de bem contar uma história. Para mais, Saramago escreveu numa vida muito daquilo que a maioria dos escritores – a nível mundial – não saberiam ou não teriam coragem de escrever em cem vidas!
No entanto, e apesar de consideramos Saramago um génio, O Homem Duplicado não nos deixou particularmente entusiasmados ou fascinados. Sendo uma ideia interessante – talvez mesmo original? – a verdade é que este livro não nos cativou na mesma medida que outras obras lidas do mesmo autor recentemente. Parece que faltou qualquer coisa para que o livro se pudesse tornar inquestionável para nós! Sobretudo porque em algumas alturas parece que a narrativa é quase previsível.
Nada disto obsta a que este O Homem Duplicado não seja um bom livro, porque o é. Talvez não seja é aquilo que se poderia esperar de uma temática tão interessante como o título sugere. Como é óbvio as personagens estão muitíssimo bem desenvolvidas – sobretudo do ponto de vista psicológico – e os ambientes narrados ao estilo saramaguiano onde impera a capacidade de imaginação do próprio leitor.
José Saramago brindou-nos ao longo dos vastos anos da sua existência com magnificas obras literárias. Talvez O Homem Duplicado não seja o melhor dos seus trabalhos mas é um bom livro e certamente os fãs deste do Nobel português vão conseguir descobrir os seus encantos! Recomenda-se, naturalmente!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Jogo das Contas de Vidro

O Jogo das Contas de Vidro é um maravilhoso e extraordinário romance do escritor alemão, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1946 e autor de alguns dos maiores e mais profundos romances do século XX, Hermann Hesse.
A nossa entrada no mundo particular de Hesse deu-se com a leitura de Siddhartha, um livro fantástico e mágico e que tem sido nosso ponto de referência ao longo dos últimos anos. Mais recentemente tivemos a oportunidade de ler Narciso e Goldmundo um magistral romance existencialista e de uma originalidade assinalável.
Hermann Hesse é um escritor polido e culto. Possui um verdadeiro talento enquanto contador de estórias e os seus livros estão repletos de frases mágicas e personagens encantadoras que embevecem o leitor e o cativam ao longo de toda a novela.
O Jogo das Contas de Vidro – por muitos considerado o melhor dos romances de Hermann Hesse – não foge à regra e é um livro excepcional. Hesse era um homem de uma cultura avassaladora e reflecte de forma perfeita o conhecimento do mundo na forma como se escreve, sendo que esta obra é paradigmática no que a este ponto diz respeito.
Em O Jogo das Contas de Vidro encontramos a narração da vida de Josef Knecht, mestre do jogo das contas de vidro. O estilo é bastante original (pelo menos do que conhecemos). Hesse relata a vida de um homem desde a sua infância até à sua morte como se estivesse a escrever uma biografia de alguém. Original porque na realidade Knecht é uma personagem absolutamente ficcional e porque a realidade retractada por Hesse nesta obra é também ela inexistente.
Sendo uma biografia não o é apenas no sentido de relatar a vivência de uma homem e os seus feitos mas também no sentido em que descobre as dúvidas, as opções e os sentimentos de um individuo confrontado com o domínio dos seu saber misterioso e o desejo de viver uma vida secular.
O Jogo das Contas de Vidro é um dos melhores romances que tivemos oportunidade de ler até hoje. Apesar da narrativa se estender por quase quatrocentas e cinquenta páginas (na edição da Dom Quixote que lemos) em nenhum momento surge qualquer enfado ou sonolência. Hesse é um mestre na utilização da palavra e é, portanto, um deleite ler as suas obras. Este é um livro muito recomendado!

domingo, 1 de agosto de 2010

Viagens Sentimentais

Viagens Sentimentais foi o primeiro livro do jornalista/escritor de viagens ou andarilho – para utilizar a expressão que com que o autor se auto-descreve – Tiago Salazar.
Salazar – de quem já tínhamos lido A Casa do Mundo – confirma-se como um excelente escritor de viagens, sobretudo porque Viagens Sentimentais permite ao autor oferecer outra faceta da sua forma de escrever, talvez porque os locais visitados por este livro – exceptuando a Europa – propiciam mais o relato das experiencias pessoais do autor.
Viagens Sentimentais é um grande livro de viagens, sobretudo no que toca ao relato de alguns paraísos perdidos em África, na América do Sul e na Ásia, nos quais Salazar escreve verdadeira poesia e encanta verdadeiramente o leitor que se apaixona totalmente pelos locais descritos.
Tiago Salazar conjuntamente com Gonçalo Cadilhe preenchem um lugar ainda pouco explorado no universo editorial livresco do nosso país. Apostar em autores como estes é permitir aos leitores viajar com os livros e conhecer universos perdidos.
Viagens Sentimentais é um livro para todos os apaixonados por este estilo de literatura. É, sobretudo, a garantia de um par de horas divertidas e cativantes.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Sol Nasce Sempre (Fiesta)

O Sol Nasce Sempre (Fiesta) é um romance do americano Ernest Hemingway, autor cuja obra temos vindo a conhecer ao longo dos últimos anos e que apreciamos com cada vez maior intensidade.
Hemingway é um dos maiores escritores do século XX. A miríade de situações vividas possibilitou-lhe a capacidade de escrever sobre os mais distintos assuntos, desde a passagem pela Primeira Guerra Mundial até aos safaris em África.
Em O Sol Nasce Sempre (Fiesta) Hemingway transporta-nos à nova decadência da década de vinte do século passado e dá-nos a conhecer, numa primeira fase, o ambiente diletante de Paris, dos cafés e das festas borbulhantes, aos passeios nas boulevards cintilantes de uma cidade mágica e centro cultura mundial.
Não obstante a maravilhosa descrição de Paris, este Fiesta é sobretudo conhecido devido à sua segunda parte: a descrição da festa brava na cidade espanhola de Pamplona com as suas típicas touradas à espanhola.
Não é fácil encontrar descrições tão encantadoras da tourada à espanhola como aquela que nos é feita por Hemingway neste Fiesta. O pormenor e a paixão transmitida e o relato realístico da faena na qual o toureiro desafia a morte são magistrais.
O Sol Nasce Sempre (Fiesta) não é um livro apenas e só para aficionados. Ainda que algumas das descrições possam ferir algumas sensibilidades esta é uma obra que relata muito mais do que apenas a festa brava. Hemingway era um génio. É pecado não o ler!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Exílio e o Reino

O Exílio e o Reino é um livro de Albert Camus que reúne um conjunto de seis novelas dedicadas à reflexão sobre o conceito de exílio.
Ao longo dos últimos anos temos vindo a ler com cada vez maior entusiasmo e satisfação a bibliografia deste autor/filósofo francês de origem argelina e já nenhuma dúvida resta que é, indubitavelmente, um dos maiores escritores da história da literatura.
Camus é um autor de uma profundidade esfusiante, brilhante na arte de compreender o indivíduo e de fazer reflectir essa compreensão da natureza intrínseca do Homem em belas narrativas repletas de intensidade e significado. Em O Exílio e o Reino encontramos, mais uma vez, essas capacidades expressas de forma absoluta e inquestionável.
Pode haver quem diga, e haverá certamente, que Camus não é o mais fácil dos escritores e que nem sempre a mensagem é a mais clara. Pode-se até dizer que a densidade filosófica das suas obras torna difícil encontrar o seu mais intimo significado e que a sua erudição é contraproducente no panorama literário da actualidade. O que se não pode dizer é que as suas novelas não são do mais perfeito que foi escrito no século XX ou que as suas alegorias e metáforas não representam a virtude da arte da escrita.
Camus é um dos nossos autores favoritos e lemos cada um dos seus livros com avidez e com uma nítida sensação de cometermos um pecado. Camus é um autor extraordinário e a sua leitura obrigatória!

terça-feira, 6 de julho de 2010

O Símbolo Perdido

O Símbolo Perdido é a mais recente obra do best-seller norte-americano Dan Brown.
O Código de Da Vinci foi o primeiro livro de Dan Brow que tivemos a oportunidade de ler há cerca de seis anos atrás. Considerámo-lo, na altura, um livro excepcional pela capacidade que o autor demonstrava de cativar o leitor através de um encantador estilo de policial histórico. O Código de Da Vinci foi um dos mais interessantes livros que lemos desde sempre.
Após O Código de Da Vinci fomos lendo todos os livros do escritor norte-americano sendo que a partir de determinada altura compreendemos que o estilo utilizado por Brown era sempre o mesmo e que as suas obras não tinham qualquer encanto literário. Verdadeiros page-turners, indubitavelmente, mas incapazes de nos fascinarem.
O Símbolo Perdido é exactamente igual às anteriores obras de Brown. A verdade é que o estilo deste autor é uma fórmula de sucesso e a pesquisa que realiza para os seus livros é, aparentemente, excepcional. Este é um livro, que tal como os anteriores, se lê de um fôlego e numa ânsia brutal de conhecer sempre o capítulo seguinte.
Desta feita Brow aborda a temática da maçonaria (aliás já brevemente aflorada em O Código de Da Vinci) tema que suscita paixões dado o facto de estar envolto em grande secretismo. E Brown fá-lo de forma competente e honesta.
Apesar de tudo é preciso que se note que O Símbolo Perdido não é, nem nunca será, um grande livro. Isto independentemente da número de exemplares que vender. É um sucesso da mesma forma que serão todos os outros que o autor escrever no mesmo estilo enquanto o público não se fartar, mas não é um exemplar da arte de bem escrever.
O Símbolo Perdido é, não obstante, recomendado a todos os fãs de Dan Brow, até porque com este autor é caso para dizer que o leitor encontra sempre aquilo de que vai à procura!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Há Sempre um Amanhã

Há Sempre um Amanhã é um romance da americana Pearl S. Buck, escritora de quem já tivemos a oportunidade de ler o magnífico O Patriota.
Pearl Buck, que na já na anterior crítica consideramos uma autora de grande capacidade narrativa e enorme sensibilidade traz-nos em Há Sempre um Amanhã uma visão da América rural da década de vinte do século passado ao invés da visão do mundo oriental de O Patriota.
Não podem subsistir quaisquer dúvidas sobre a qualidade literária de Pearl Buck (reconhecida aliás no Nobel que 1938) mas neste livro encontramos, provavelmente, o lado mais novelesco da autora numa narrativa que faz um apelo decisivo à esperança e à capacidade de luta de uma jovem – Joan – contra os infortúnios de uma vida repleta de acontecimentos negativos e castradores da individualidade.
Há Sempre um Amanhã é também uma obra sobre a força inquestionável de uma jovem mulher na América campestre do inicio do século XX. É uma expressão da libertação da mulher face a um mundo conservador e profundamente religioso e aborda questões tão diversas como as relações entre brancos e negros e a deficiência física/mental.
Esta obra de Pearl Buck esteve longe de suscitar o mesmo interesse que O Patriota. Talvez porque seja muito mais uma novela do que um romance. Seja como for é um bom livro. E hoje em dia encontrar um bom livro é muito difícil!

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Destino Turístico

O Destino Turístico é o mais recente romance do magnífico e bastante prolixo escritor português Rui Zink.
Zink é um dos nomes maiores das letras portuguesas com uma carreira longa e repleta de obras de grande profundidade e interesse. Apesar de tudo, O Destino Turístico foi o seu primeiro livro que tivemos oportunidade de ler! E que livro!
Por muito que as revistas, os jornais ou os escaparates das livrarias se esforcem por demonstrar o contrário, os livros não são todos iguais nem sequer têm todos a mesma qualidade, ou sequer são susceptíveis de fermentar a mesma paixão. Tudo isto porque grandes partes dos escritores vendáveis na actualidade são medíocres. As obras que escrevem são, na sua maioria, e apenas, resultado de enormes máquinas de marketing que promovem um produto muitas vezes mau e sem qualquer qualidade.
Não é, naturalmente, o caso de Rui Zink que nos traz nesta obra um verdadeiro rasgo de genialidade. A imaginação de Zink é delirante e as personagens perfeitamente gizadas. Um país moldado à vontade do turismo e um homem em busca de respostas e de uma tranquilidade que demora a chegar.
O Destino Turístico é um livro para quem quer pensar e reflectir sobre as consequências dos actos dos outros na nossa vida e sobre um potencial futuro onde o desequilíbrio dos pratos da balança sofreu uma imprevisível mudança. É um livro para quem não tem medo de pensar em respostas para questões colocadas por outros. É, sobretudo, um grande livro. A não perder!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sputnik, meu amor

Sputnik, meu amor é mais um livro do magnífico e best-seller escritor japonês Haruki Murakami.
Ao longo dos últimos anos temo-nos habituado a ler com imenso prazer e expectativa a obra de Haruki Murakami que consideramos o maior e mais talentoso escritor do panorama literário internacional. A intensidade e o absurdo surrealista que está presente nos seus livros são absolutamente cativantes e suscita-nos sempre os mais entusiasmados pensamentos e as mais profundas reflexões. Daí que tenhamos optado por ler os seus livros a conta-gotas, para que não arrisquemos a ter um overdose do autor.
Sputnik, meu amor é um bom livro, interessante, cativante, enternecedor e com personagens ao bom estilo de Murakami: com uma dose de insânia e surrealismo saudável. Apesar de tudo, Sputnik, meu amor é, possivelmente, das obras de Murakami que até ao momento tivemos oportunidade de ler, a menos interessante de todas.
Note-se, apesar de tudo, que o livro não deixa de ser bom. Continua transportar-nos para o mundo da ilusão e fantasia a que Murakami já nos habituou. O problema é que talvez não seja suficiente. De Haruki Murakami esperamos sempre o mais irreal possível, esperamos sempre que nos surpreenda com aquela mitologia japonesa que está presente em grande parte das suas obras e, infelizmente, Sputnik, meu amor, sabe-nos a pouco.
Não pensem, não obstante, os fãs de Haruki Murakami que podem não gostar do livro. Pelo menos nós gostámos muito e aconselhamos a sua leitura. O que dizemos é que pode, eventualmente, não ser o melhor e mais interessante livro de Murakami.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ensaio sobre a Lucidez

Ensaio sobre a Lucidez é uma obra do Nobel português José Saramago.
Como já todos sabemos Saramago é um escritor com um estilo atípico que se reflecte, quer nas temáticas que aborda, quer na forma como dá forma às suas ideias, como as passa para o papel e, sobretudo, na forma como utiliza a pontuação.
Como não poderia deixar de ser, Ensaio sobre a Lucidez não foge a esta regra e é um reflexo, em toda a linha, desta forma de escrita do autor.
Saramago é um autor que se destaca pela sua imaginação delirante. Os seus trabalhos são, regra geral, intrincados pensamentos e meditações profundas sobre o significado de mitos, dogmas ou sobre factos históricos ou sociais e Ensaio sobre a Lucidez aborda precisamente a temática referente aos factos de natureza social/política na medida em que se debruça sobre o fenómeno do voto em branco.
Nesta obra encontramos muitos traços kafkianos nomeadamente na abordagem que se faz das consequências uma votação massiva em branco pela população da capital de um país. A questão sobre a procura da verdade permite sempre aos autores enredarem-se num complexo emaranhado e na tentativa de transformarem a realidade no absurdo.
A ideia do livro é muito boa mas temos a sensação que Saramago se perde logo no princípio e que depois não se volta a encontrar. É que a obra sugere muitas e interessantes questões que depois acabam por não ter resposta ou pelo menos a resposta que é sugerida não nos satisfez inteiramente.
Ensaio sobre a Lucidez é um bom livro. Talvez não seja fantástico porque esperamos sempre mais do Nobel português, mas para os fãs de Saramago é, provavelmente, um livro a não perder.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Queda

A Queda é um livro de Albert Camus um dos brilhantes autores franceses do século XX e expressão incomparável da literatura existencialista e do absurdo.
A literatura de Albert Camus é das mais difíceis e cativantes que temos tido oportunidade de analisar. Os seus romances/ensaios são sempre de uma profundidade existencial perturbadora, as suas personagens contaminadas de um magnetismo atroz e perturbador e os ambientes criados revelam ponderação e enorme capacidade de abstracção.
A Queda segue bem a linha daquilo que temos lido em Camus. Um homem que encontra casualmente outro homem e com o qual constrói um intrincado de anti-diálogos no qual o primeiro se pronuncia sobre a sua vida e o papel numa realidade que é toda ela absurda e metafísica.
Esta é a narrativa de um juiz-penitente que se confessa ao mesmo tempo que avalia o mundo que o rodeia. As considerações que tece sobre o género humano, sobre as suas falhas, convulsões e incapacidades, coloca em causa a simplicidade com que a Vida é avaliada e experimentada. É uma obra de enorme profundez e abrangência.
Camus não é um escritor cujo significado da obra encontremos desde a primeira página. É complexo e, cremos nós, desejou sempre sê-lo. A Queda segue a linha do autor e é também um livro genial. Se recomendamos? Será possível não recomendar a obra dum arauto da existência e da reflexão?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

o Homem que Morreu

O Homem que Morreu, ou O Galo à Solta na sua primeira designação, é um pequeno romance do muito controverso escritor inglês D. H. Lawrence mais conhecido pelo seu O Amante de Lady Chatterley.
Se há livros polémicos devido à temática abrangida O Homem que Morreu sê-lo-á indubitavelmente dado que o assunto se prende com Jesus Cristo (embora nunca estas palavras sejam usadas no texto) e a temática da sexualidade.
Apesar de tudo, polémico não significa que a ideia não esteja brilhantemente construída e desenvolvida. Não significa que o livro seja mau ou indecoroso. Significa apenas que Lawrence teve a coragem de desenvolver uma temática ligada a Jesus Cristo numa época pouco tolerante.
Em O Homem que Morreu encontramos a perfeição das parábolas e um magnífico registo metafórico. A personagem principal ressuscita mas este regresso à vida é meramente parcial, tal como o galo que está preso pela perna e que vai perdendo a pujança e a alegria de viver, sendo certos que ambos se restauram com a conquista da liberdade. No caso da nossa personagem principal esse rejúbilo concretiza-se com a prática sexual com uma figura mitológica.
O Homem que Morreu é um livro de uma profundidade extraordinária e de uma complexidade assinalável mas de uma beleza indescritível e tocante. Uma obra-prima que aconselhamos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Solar

Solar é o mais recente romance do escritor bestseller inglês Ian McEwan autor de Amesterdão entre muitos outros livros.
McEwan que é um dos mais galardoados e vendidos autores da actualidade e que recebeu prémios tão distintos como o Somerset Maugham Award, Whitbread Award, Booker Prize entre muitos outros revelou-se como uma das maiores desilusões que tivemos nos últimos anos e não pareceu justificar com este Solar qualquer prémio ou distinção que já tenha tido no passado.
Tudo porque este Solar é um livro muito fraquinho. O enredo é previsível, pobre, com o recurso a uma mistura quase patética entre a profundidade de uma análise científica e uma tentativa de sátira a um mundo proto-moderno onde o relativismo moral se assume como vector fundamental e onde as personagens são descritas com a profundidade de um filme de fim-de-semana.
McEwan é, talvez, um autor demasiado moderno e simples. Demonstra pouca atenção na pintura das cenas onde decorre a acção e não se conseguem compreender totalmente as personagens que cria. A ideia de um Prémio Nobel da Física que depois de galardoado se afasta da investigação e que acaba por desenvolver o trabalho feito por um amante da sua quinta mulher depois de ter assistido à sua morte acidental é, para sermos simpáticos, muito pouco interessante.
Todas as análises estão sujeitas a um determinado subjectivismo que deriva dos gostos pessoais de cada leitor. Para nós Solar não vale metade do dinheiro que gastámos com ele e McEwan passou a ser um proscrito. Este livro é uma farsa mas que cada um faça a sua própria interpretação.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Estrela Distante

Estrela Distante é um pequeno romance de um dos mais lidos escritores chilenos do momento Roberto Bolaño.
Ao longo dos últimos anos temo-nos habituado a ler e apreciar muitos escritores sul-americanos sobretudo devido à força estonteante como escrevem e como se debruçam sobre as graves e diversas convulsões sociopolíticas da região. Estrela Distante é precisamente, apesar de muitas diferenças assinaláveis, um dos exemplos desta realidade.
Nesta obra – a primeira que tivemos oportunidade de ler deste autor – encontramos bem plasmada a crítica/reflexão sobre os problemas associados à ditadura chilena. E, embora poeticamente, o autor não esconde a dureza dessa realidade nem as perturbações da mesma na vida diária de milhões de chilenos.
Apesar de tudo, Estrela Errante é também, apesar de não ser o ser só, um livro sobre um homem e sobre arte. O homem é Ruiz-Tagle ou Wieder e a arte é a poesia ainda que esta esteja ao serviço do mal.
Estrela Distante é um livro poderoso e é, ao mesmo tempo, um livro complicado e pouco acessível para o normal leitor. Isto porque nem sempre é fácil seguir o pensamento intrincado do autor no que diz respeito aos factos relatados visto que nos pareceu que Bolaño não prima pela simplicidade na sua escrita.
Bolaño é um escritor em ascensão no nosso país sobretudo depois da publicação de 2666. Apesar de tudo Estrela Distante não nos convenceu do brilhantismo deste escritor. Não é que o livro seja mau mas não é tão bom como aquilo que dele querem fazer.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Mulher Certa

A Mulher Certa é uma fantástica obra do escritor de origem húngara Sándor Márai (autor de quem já tivemos oportunidade de ler As velas ardem até ao fim) composta por 3 partes distintas – e ainda um epílogo.
Sándor Márai é um escritor genial e a sua escrita de uma profundidade inolvidável. A forma simples e directa com que se pronuncia sobre alguns dos mais intensos problemas do ser humano são um elogio à arte da escrita e revelam uma capacidade inigualável de compreensão da natureza humana.
A Mulher Certa é uma obra esplêndida onde encontramos a mesma história contada por três personagens diferentes, Marika, Péter e Judit – e um epílogo onde surge uma quarta personagem que ajuda a esclarecer alguns pontos em aberto – numa versão erudita de um triângulo sentimental.
O tema essencial deste livro é sociedade húngara na primeira metade do século XX e duas dicotomias: uma de natureza sentimental e outra de cariz social. O autor opta por se referir sobretudo à forma perfeita como as relações entre homens e mulheres evoluem e se completam, aos distanciamentos implícitos, ao amor, ciúme, compreensão e procura interior e, noutra dimensão, alude às relações sociais, à luta silenciosa entre o prole e o burguês, à inveja e às diferenças e desigualdades intrínsecas entre homens e mulheres e entre ricos e pobres.
A Mulher Certa é um romance de uma beleza extraordinária. Cativante, emocionante, perscrutador, capaz de suscitar questões e de oferecer algumas respostas, A Mulher Certa é uma obra que não pode deixar de ser lida. Talvez seja assim toda a obra de Márai, paradoxal, por um lado de uma complexidade evidente e de por outro de uma simplicidade tocante. A não perder.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Barão Trepador

O Barão Trepador é mais um deslumbrante livro (segundo da trilogia Os Nossos Antepassados) do italiano de origem cubana Italo Calvino.
Ao longo dos últimos anos temos vindo a ler a obra deste genial e brilhante artista da palavra, cultivador da fantasia e das ideias mirabolantes que é Calvino com interesse crescente. Se em As cidades Invisíveis estranhámos o estilo foi com O Cavaleiro Inexistente que finalmente ficámos apaixonados pela simplicidade da escrita e pela fantasia da imaginação.
Em O Barão Trepador ficamos a conhecer a história de Cosimo, um nobre italiano do final do século XVIII e inicio do século XIX que, um dia, resolve subir a uma árvore do jardim e nunca mais descer. E é em cima das árvores da sua região e um pouco por toda a Europa que Cosimo vai fazer a sua vida, estudando, lendo, apaixonando-se, combatendo incêndios, caçando, participando nas actividades normais de um habitante do século das luzes.
O Barão Trepador é mais um exercício de portentosa imaginação de Calvino, autor que tem a capacidade de fazer do inverosímil algo de plausível e que, ao mesmo tempo, é um magistral contador de histórias.
A obra de Calvino é uma constante surpresa. De todos os autores que tivemos até hoje oportunidade de ler este é, provavelmente, um dos mais loucos e brilhante, ou seja, um dos melhores. O Barão Trepador é um excelente livro, não apenas para aqueles que já conhecem Calvino como pode ser também óptimo para ser o primeiro a ser lido. É, portanto, um livro muito recomendável.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A máquina de fazer espanhóis

A máquina de fazer espanhóis é o mais recente romance do português vencedor do Prémio José Saramago em 2006 Valter Hugo Mãe.
Há alturas na nossa vida em que nos deparamos com questões que extravasam a nossa capacidade de resposta imediata. Uma dessas questões é a seguinte: onde será que temos andado que só agora descobrimos a loucura genial de Valter Hugo Mãe? É que Hugo Mãe é um autor de primeiríssima água, uma lufada de ar fresco nas letras em português, uma imaginação inigualável e dotado de um estilo e capacidade de escrita que há-de ficar para a história. Hugo Mãe é do melhor que temos lido e não estamos só a referir-nos a autores portugueses!
A máquina de fazer espanhóis é uma obra fantástica e deslumbrante. É inspirador e de uma magnificência extraordinária. É um bálsamo, um elogio à arte da escrita, um raio de Sol numa tarde de Inverno. É um livro espirituoso, profundo, fabulosamente bem escrito e com personagens perfeitamente bem esculpidas. O estilo do autor é sobranceiro e límpido. O enfoque metafísico-filosófico está na justa proporção com um leve travo a concepções de natureza histórica relativas ao nosso país. É uma obra, toda ela, a cheirar a Portugal!
Quanto à narrativa: é preciso ter coragem para imaginar e passar a escrito a história de um octogenário que vê a sua esposa falecer e que vai para um lar. Uma temática não explorada com suficiência na literatura.
Talvez o leitor deste blogue nunca tenha lido nada de Valter Hugo Mãe. Também nós nunca o tínhamos feito mas ficámos seduzidos desde a primeira página. Hugo Mãe é um autor a não perder, a ler e a reler e sobretudo a pensar. A mensagem tem um significado muito mais extenso do que a mera leitura das palavras pode parecer ter. A máquina de fazer espanhóis é um grande livro e a sua leitura é obrigatória!

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Geografia da Felicidade

A Geografia da Felicidade é um divertido e interessante livro do jornalista americano Eric Weiner que se propõe a viajar e conhecer alguns dos mais felizes e infelizes países do nosso planeta.
Eric Weiner tem uma escrita simples, despreocupada e sem grandes artifícios de linguagem, aliás, como a generalidade dos jornalistas. Há quem diga que pode ser melhor que Bill Bryson (um famosíssimo escritor de viagem) mas os estilos são bem diferentes. Bryson é, sobretudo, um viajante enquanto que Weiner tem o jornalismo e a procura de factos bem intrincada no seu código genético.
Weiner, que como jornalista trabalhou como correspondente em países como a Índia, Israel ou o Japão, fez as malas e percorreu caminhos que o levaram a lugares tão heterogéneos como a Holanda o Butão, a Moldávia ou a Tailândia em busca de respostas que o levassem a concluir onde reside a felicidade de um povo ou de uma nação.
A Geografia da Felicidade é um livro diferente. Está entre uma crónica de viagens e um ensaio sobre as razões da felicidade dos povos mas é acima de qualquer outra coisa um livro que, a partir da primeira página, nos cativa. Tudo isto deve-se, provavelmente, devido ao facto de a escrita ser simples e de nos guiar por um conjunto de questões por onde o nosso pensamento já fluiu, nomeadamente se nos questionarmos também sobre a nossa própria felicidade.
A Geografia da Felicidade nunca será um livro para a história. Mas é interessante. E de quando em vez também gostamos de ler livros só pelo que as temáticas abordadas nos suscitam!

quinta-feira, 18 de março de 2010

A Peste

A Peste é uma obra do francês Albert Camus – Prémio Nobel da Literatura em 1957 – e por muitos considerada a mais importante referência deste autor nascido na Argélia.
A obra de Camus não é de simples interpretação. O existencialismo latente nos seus livros está também patente em A Peste. As suas personagens, construídas e bordadas a fio de ouro, são, fruto da situação em que estão colocadas, exemplos da humanidade e do seu próprio contrário, da inumanidade.
O maior problema na obra de Camus para o leitor impreparado reside no facto de a alegoria estar construída de uma forma dissimulada, como se o próprio objecto do livro fosse o exemplo construído e não o seu significado mais oculto. Em Camus é necessário saber ler nas entrelinhas e procurar os mais dúbios sentidos.
É que A Peste não é um simples livro que pretenda retratar apenas a vida de uma cidade sujeita a um flagelo capaz de condenar à morte, em poucos meses, mais de metade de uma cidade. A Peste não é apenas uma obra de reflexão sobre o sentido da vida e da relação entre seres humanos impotentes quando confrontados com uma calamidade. A Peste não é um mero romance no qual se ilustram personagens mais ou menos profundas e se lhe atribuem sentimentos frágeis.
Não, A Peste é, talvez, o livro de Camus, no qual o autor francês coloca em causa os fundamentos da existência humana, põe a nu as fragilidades da virtude, da amizade, da tolerância e do amor, no qual questiona permanentemente o leitor sobre as bases fundamentais no qual assenta a sua entidade corpórea e terrena.
Albert Camus é um dos maiores escritores do século XX e A Peste é uma obra admirável. Apesar de tudo não é para ler em qualquer momento, é demasiado difícil para isso. Para ler este livro é preciso que ele nos chame!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Gente Independente

Gente Independente é um romance (considerado pelo The Independent como o livro do século) do islandês laureado com o Nobel da Literatura em 1955 Halldór Laxness.
A opinião que os leitores têm de um determinado livro é sempre condicionada por um conjunto de factores de ordem diversa e que assentam, muitas das vezes, em considerações de natureza pessoal como os gostos intrínsecos de cada um. Gente Independente é aclamado, por grande parte da crítica, como um dos melhores romances do século XX. Não temos dúvidas, depois da leitura atenta que fizemos da obra, que Gente Independente é efectivamente um grande livro mas talvez esteja, apesar de tudo, longe de ser o melhor livro do século.
Laxness é, como alias a generalidade dos escritores com gabarito para ganhar um Nobel, um escritor culto, apurado e com uma escrita bastante precisa e clara. Em Gente Independente conseguem-se encontrar, com alguma facilidade, a expressão da adjectivação supra uma vez que a erudição do autor está presente em cada um das quase 500 páginas desta obra.
Não é fácil escrever uma obra sobre a génese e as características de um povo como faz Laxness neste livro. A forma quase poética como é narrada a vida de um pobre agricultor islandês na passagem do século XIX para o século XX é em muitas alturas comovente e enternecedora, sobretudo porque em Gente Independente encontramos uma história de coragem, de vontade, de luta constante do homem contra a natureza para além de uma profunda reflexão sobre a natureza do homem e as venturas de um povo incrustado num dos mais hostis ambientes do planeta. Encontramos também considerações de natureza filosófica e política: o individualismo versus o socialismo; a América versus a Rússia; a persistência versus a desistência; a independência versus a derrota!
Gente Independente não está entre os nossos dez romances favoritos de todos os tempos mas não é por esse motivo que deixa de ser um enorme livro. Um grande livro porque não só as personagens estão belissimamente bem construídas mas também porque é impossível não nos envolvermos no culto ao heróico povo islandês.
Esta é uma obra de fôlego. Um elogio à arte de retratar um povo e de cantar os feitos heróicos do mesmo. Gente Independente pode, talvez, não ser o romance do século mas é definitivamente uma obra imperdível!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A confissão de Lúcio

A confissão de Lúcio é uma obra de um dos grandes vultos da cultura literária portuguesa Mário de Sá-Carneiro, insigne poeta, contista e ficcionista, um expoente do Modernismo no nosso país.
A confissão de Lúcio – aliás, como a generalidade dos trabalhos de Sá-Carneiro – não é um texto de simples e fácil leitura ou compreensão, representando uma mescla entre o fantástico e o surreal na qual a narrativa parece encontrar a sua fonte essencial.
Mário de Sá-Carneiro é um escritor de enorme génio. A sua escrita é de uma perfeição encantadora e a sua imaginação perturbantemente delirante.
Em A confissão de Lúcio encontramos uma história bem construída e desenvolvida em torno da narração, em analepse, de factos e circunstâncias que justificam a não punição da personagem principal pela morte de um seu amigo. No entanto, como já referimos, a leitura deste texto assume-se de uma complexidade acima do normal devido ao surrealismo da exposição.
A confissão de Lúcio é um grande livro de um enorme escritor. A leitura deste género de obras é um imperativo categórico na medida em que a maioridade emocional e intelectual que se extrai da sua análise é um composto fundamental na formação do indivíduo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Narciso e Goldmundo

Narciso e Goldmundo é um das mais relevantes e famosos livros do escritor alemão – vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1946 – Hermann Hesse.
A obra de Hesse é vasta, polémica e docemente salpicada de uma natureza existencialista e filosófica, sendo que Narciso e Goldmundo pontifica como um exemplo perfeito desta dupla adjectivação.
Este é um livro repleto de uma leve, mas ao mesmo tempo poderosa, reflexão sobre o sentido da vida e lugar de cada indivíduo na sociedade. De um lado Narciso, homem ponderado, instruído da mais erudita sabedoria e sagaz observador da natureza humana. Encontra na religião o sentido da sua existência e um amor de difícil concretização. Do outro Goldmundo, eterno jovem, perspicaz, poderosamente selvagem e arguto. Na miríade de mulheres encontra a satisfação de uma alma inquieta e faz demanda constante pelo significado da sua existência o seu modo de vida.
Hermann Hesse é um dos mais brilhantes escritores do século XX. A sua escrita, dotada de uma impressionante sensualidade, apesar de pouco dedilhada, não deixa de impressionar pela capacidade de exprimir os difíceis significados de muitas realidades de uma forma singela e aparentemente perfeita.
Narciso e Goldmundo (sendo certo que não conhecemos muita da obra deste artista) parece seguir a linha de outros romances de Hesse onde a filosofia é a alma mater da mesma. Esta é uma obra a não perder, uma verdadeira obra-prima do romance filosófico, um livro muito fácil de ler e com um significado extraordinário.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

No teu deserto

No teu deserto é a mais recente obra do escritor/jornalista português Miguel Sousa Tavares que desta feita no trás aquilo a que o próprio designa por quase romance.
Neste livro Sousa Tavares, que é provavelmente um dos melhores escritores portugueses da actualidade (é pelo menos um dos mais vendidos), oferece ao leitor uma estória com contornos bem pessoais e baseados em factos verídicos. Sousa Tavares escreve de uma forma harmoniosa e tem o maior talento dos grandes narradores descritivos: sabe pintar com as cores certas os momentos indicados.
Este é um livro que nos descreve o amor. O cenário é o deserto do Sahara com todo o misticismo que decorre da vida/presença nestes locais. Como em muitos de livros que descrevem o amor por vezes sentimos que existe um excesso de melifluidade nas palavras escolhidas e na forma como as situações são relatadas. Nada de muito grave apesar de tudo, a lembrar a literatura do brasileiro Paulo Coelho, mascavada de uma espiritualidade um pouco forçada.
Este é também um livro que nos relata uma viagem. A aventura de viajar com um jipe de fabrico português no final dos anos oitenta dá-nos uma sensação de façanha que ajuda a preencher o nosso imaginário.
Miguel Sousa Tavares é um bom escritor e No teu deserto é um bom livro. Lê-se de um trago e deixa-nos sonhar um bocadinho e permite afastarmo-nos da realidade que nos consome durante tanto tempo da nossa vida. Aconselha-se a sua leitura, especialmente a quem andar perdido.

O último navegador

O último navegador é o primeiro romance (e talvez não venha a haver mais nenhum) do conhecido actor português Vergílio Castelo.
Ao longo dos últimos anos temos tido a oportunidade de ler muitos romances, de autores portugueses e estrangeiros, clássicos ou modernos, e imaginamos a dificuldade que possa ser empreender numa tarefa tão difícil como escrever um livro. Apesar de tudo, cada vez são mais os indivíduos que, sem méritos conhecidos na área, resolver publicar romances.
O último navegador de Vergílio Castelo não é um bom livro e provavelmente nunca o virá a ser. O argumento parece saído de uma telenovela da TVI e o estilo do autor, embora não seja péssimo, é demasiado previsível, recheado de frases feitas e lugares-comuns, com personagens pouco desenvolvidas /trabalhadas numa ânsia brutal de descrever uma utopia de um Portugal futuro e adiado.
Não queremos com isto dizer que Vergílio Castelo escreva mal ou que o livro não tenha qualquer mérito. A obra até se lê com alguma facilidade e a narrativa tem algum sentido. Nota-se até alguma preocupação de incluir no livro algumas preocupações de natureza meta-filosófica. No entanto é tudo demasiado vulgar e banal sem sequer um pequeno vislumbre de brilhantismo, apenas uma sátira novelesca à sociedade actual.
Na generalidade dos casos, os livros que aqui temos criticado tem merecido uma observação positiva, no entanto este romance de Vergílio Castelo não pode de maneira nenhuma figurar entre aqueles que merecem a nossa distinção livro a não perder.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1 km de cada vez

1 km de cada vez é o mais recente livro de Gonçalo Cadilhe, o viajante-escritor e um dos mais prodigiosos artistas da palavra da actualidade.
Somos grandes fãs de Gonçalo Cadilhe. Desde que tivemos a oportunidade de ler o seu primeiro livro que nos apaixonámos pela prosa poética que são as descrições das suas viagens onde muito mais importante dos que os lugares visitados são as experiências recolhidas e os laços que se estabelecem com as pessoas.
Neste livro Gonçalo Cadilhe presenteia-nos com textos desordenados de lugares que visitou mas que o marcaram indelevelmente, desde as pequenas ilhas do Pacifico, às grandes Catedrais da Europa. Seja como for o lugar é pouco importante, porque relevante mesmo é o prazer que se retira da leitura.
Este é um livro emocionante. Cadilhe tem o dom da palavra e de cativar o leitor. Foram várias as vezes que não conseguimos deixar de ficar com os olhos humedecidos face ao brilhantismo da narração.
Cadilhe é português seguindo a boa tradição portuguesa: um povo de viajantes e de poetas. Num dos textos (A importância de não ser de lado nenhum) Cadilhe escreve-nos sobre o facto de os portugueses se considerarem um povo especial e refere que outros povos encontram na sua identidade algo de semelhante. Talvez seja como escreve o autor e não sejamos mais especiais do que os holandeses, os turcos ou os polinésios, mas ninguém viaja e escreve como nós e disso Cadilhe é o melhor exemplo da actualidade.
1 km de cada vez é absolutamente imprescindível. Não é um livro de viagem, é antes um livro sobre a vida.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Todas as Cosmicómicas

Todas as Cosmicómicas é uma obra do italiano de origem cubana Italo Calvino.
Já aqui comentámos este fantástico e original escritor e tecemos elogios merecidos. Um livro deve expor uma determinada narrativa. A generalidade dos autores é capaz de o fazer com interesse e competência mas são muito poucos os que o conseguem fazer com genialidade, originalidade e brilhantismo. Estas são características reservadas apenas aos melhores e àqueles que se conseguem, efectivamente, distinguir.
Italo Calvino é um destes escritores que têm, quase obrigatoriamente, de ser lidos. A sua delirante imaginação, a sua impar capacidade de trazer à tona os mais profundos pensamentos sobre os quais se debruça o Homem são marca de génio e de vanguardismo literário e filosófico.
Todas as Cosmicómicas é um livro com vários contos onde Qfwfq, personagem principal, disserta sobre temáticas tão esotéricas como a origem da terra, das aves, dos meteoritos ou dos cristais e também sobre problemáticas tão filosoficamente densas como a noção de espaço e tempo.
Esta obra não é, devido à sua componente esotérica e metafísica, um livro fácil. Muitas vezes é, inclusive, difícil situarmo-nos no contexto da obra e seguirmos a complexidade do pensamento transcrito. Mas Todas as Cosmicómicas é um livro genial e como tal deve ser lido.