quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A Capital

A Capital é, mais uma, brilhante obra do, provavelmente, maior escritor português de todos os tempos: Eça de Queirós.
Eça escreveu ao longo da sua vida um conjunto de romances de grande qualidade literária e que se destacam, não apenas pelo brilhantismo da sua metódica caracterização de personagens e locais, mais também, e provavelmente sobretudo, pela brutal e clarificadora crítica social.
Em A Capital a crítica social é feroz. A crítica que se faz não apenas à personagem principal Artur Corvelo, figura idiota, profundamente sensível, chegando mesmo a ser ligeiramente efeminada, provinciana e idílica, faz-se também à própria cidade de Lisboa, preenchida por gente enfatuada e que é retratada, nesta obra, como uma cidade de pecado, de falcatrua e de uma opulência pedante.
Eça de Queirós é genial. As suas personagens são tão bem descritas que conseguimos, inclusive, cheirar o seu perfume. Os ambientes, as noites no São Carlos, os serões nas casas ricas, os jantares nos hotéis caros e os passeios de tipóia – aliás presentes em muitas das obras de Eça – são pintados com cores verosímeis e claras.
A Capital é um grande livro. Brilhante, conspirador e vibrante. Artur Corvelo é uma personagem fascinante e o séquito de actores secundários adoça ainda mais esta novela. Eça é para ler, é o Portugal oitocentista e a bola de cristal do Portugal de hoje e, certamente, de amanhã. Este é um livro a não perder.

sábado, 21 de novembro de 2009

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol é, mais um, magnífico e brilhante livro do escritor japonês Haruki Murakami.
Ao contrário de outros livros que temos lido do mesmo autor onde o surrealismo é uma constante, esta obra, que foi escrita em 1992 – embora só editada este ano no nosso país – é muito mais ligeira e retrata uma realidade possível.
Em A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, Murakami traz-nos, com uma precisão de poeta, a temática do amor e inunda-nos, durante as pouco mais de 240 páginas, com palavras simples, sensuais e emocionantes sobre a paixão. O jazz, o Japão no dealbar da década de 90, um homem simples, uma amizade eterna, um amor fugaz.
Murakami é um dos nossos escritores favoritos. O seu génio é na nossa opinião, um dos mais completos e complexos da actualidade e as suas narrativas perfumadas incomodam pelo quase excesso de qualidade e pela forma como conseguem tocar no leitor. Murakami é um poeta que escreve prosa, é um pintor que deseja caracteres, é um escultor que cinzela em páginas brancas estórias verdadeiramente maravilhosas.
A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol é um livro obrigatório. Não porque algum dia venha, eventualmente, a ser considerado um clássico, mas porque nos trás tudo aquilo que um livro deve trazer: emoções, sensações, perfume… É um livro, como todos os outros do mesmo autor, profundamente recomendável.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Uma aventura até ao Sul

Uma Aventura até ao Sul é um livro de viagens de Ewan McGregor e Charley Boorman, dois famosos actores britânicos que já antes nos haviam oferecido o célebre O caminho mais longo no qual, os dois, fizeram uma viagem de mota à volta do globo.
Somos fãs incondicionais de livros de viagens. Mas não quaisquer livros. Bons livros, que retratem não apenas e só os locais e os sítios visitados, mas que nos falem das experiências vividas e das pessoas marcantes conhecidas. Este será talvez o principal motivo que faz de Uma Aventura até ao Sul um excelente livro de viagens.
Ewan McGregor e Charley Boorman, à semelhança do que já haviam feito anteriormente, optaram desta vez por fazer uma viagem de mota desde John O’Groats na Escócia ao Cabo Agulhas na África do Sul.
Pelo caminho passaram por países magníficos onde a beleza natural dos desertos e a magnificência dos oásis os maravilharam, partilharam a savana com os animais em estado selvagem e fizeram, o mais que apelativo, percurso pelo fantástico continente africano.
Para mais, estes dois actores britânicos não se furtam a expressar o que sentiram nas visitas que realizaram. Relatam os seus encontros com os meninos soldados do Uganda, com o processo de desarmamento de minas na Etiópia ou com a tribo dos Samburu no Quénia.
Uma Aventura até ao Sul é um livro magnífico e que, certamente, todos os amantes de viagens vão adorar pelo que não podemos deixar de o aconselhar com a certeza de que só podem vir a gostar de o ler.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quando Éramos Peixes

Quando Éramos Peixes é um livro de Neil Shubin, destacado paleontólogo e professor de anatomia que descobriu o Tiktaalik (fóssil de um antepassado do ser humano), sobre a história relativa à evolução do ser humano desde o surgimento da vida no planeta terra até aos nossos dias.
Este é um livro bastante semelhante a O nosso corpo de Keith Harrison, sobre a mesma temática e também seguindo a mesma linha de pensamento, mas ao contrário do livro de Harrison que é muito simples e claro, este é muitíssimo mais técnico o que faz com que seja em muitos momento maçador.
Shubin, aproveitando o facto de ter um saber de experiência feito, relata, baseando-se na teoria de que o Homem descende dos peixes, as principais características do ser humano actual e a forma como as adquirimos.
Quando Éramos Peixes é um livro interessante apesar de demasiado técnico para leitores que não estão familiarizados com os mais elementares princípios da biologia. Será, no entanto, uma excelente escolha para quem domina minimamente a matéria e quer descobrir um bocadinho mais sobre a evolução do Homem.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O nosso corpo

O nosso corpo é um interessantíssimo livro de Keith Harrison doutorado em zoologia que nos relata, de uma forma simples, objectiva e clara a evolução do ser humano desde o momento do surgimento da vida no planeta Terra até aos nossos dias.
Não somos especialistas na área deste livro o que faria com que, caso este fosse demasiado técnico, tivéssemos perdido todo o interesse no mesmo desde o primeiro momento. Não foi o caso, uma vez que a simplicidade de exposição por parte do autor nos conduziu numa viagem fantástica onde encontrámos respostas claras para questões muito complexas.
Esta obra é de facto interessante. Numa época em que Darwin e a sua teoria da Selecção Natural voltou a estar na moda, surgiram muitos livros sobre a temática. A evolução do ser humano é um assunto fascinante e que é, sem dúvida, objecto essencial da formação de um indivíduo como elemento conhecedor de si próprio.
O nosso corpo é um livro que pode ser lido por qualquer pessoa, dos mais velhos aos mais novos. É, sobretudo, uma óptima escolha para quem quer conhecer de forma clara o processo de formação da vida. É, portanto, uma obra que aconselhamos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Estrela Errante

Estrela Errante é um romance de J. M. G. Le Clézio, escritor francês e Prémio Nobel da Literatura em 2008.
Nesta obra, escrita em grande parte na primeira pessoa por intermédio de duas personagens - embora relevadas de forma diferente - que parecem estar nos antípodas uma da outra (Esther, francesa, judia; Nejma, palestiniana) dá-se a conhecer a guerra, o desespero, a morte, a esperança e a alegria.
A fuga dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial é, cada vez mais, um marco literário com profusão de obras escritas. Neste caso faz-se referência à fuga dos judeus franceses em direcção ao Estado de Israel logo após a sua criação depois do fim da guerra.
Não deixa também de ser interessante a dicotomia criada. De um lado a criação do Estado de Israel, do outro a deslocação das populações palestinianas para campos de refugiados e a hecatombe social que tal situação criou.
Estrela Errante é uma obra poderosa. Le Clézio consegue dar-nos a conhecer algumas das mais vibrantes sensações do ser humano numa viagem à dor física e espiritual de duas mulheres que lutam por se encontrarem num mundo em convulção e mudança.
J. M. G. Le Clézio é um escritor polido. A sua escrita é simples e limpa e o argumento toca-nos pela proximidade temporal. Não existe recurso a arabescos ou subterfúgios de natureza vanguardista. A narrativa diz-nos algo porque nos conseguimos identificar com as personagens sentindo o seu sofrimento e a sua alegria.
Ficámos bem impressionados com este Nobel francês. Estrela Errante é uma obra bem conseguida e construída sob uma temática que nos parece estar ainda longe de estar esgotada. Esta é, sem qualquer dúvida, uma leitura que aconselhamos.