segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os anões

Os anões é um romance (aliás o único romance) de Harold Pinter, Prémio Nobel da Literatura em 2005 e que se celebrizou na escrita de peças de teatro.
Esta obra, acaba aliás por ser, no seu estilo, um pouco parecida com uma peça de teatro. Para romance quase não tem narrativa sendo o seu texto quase exclusivamente composto por diálogos.
Esta obra, apesar de pequena (tem pouco mais de 200 páginas) é de difícil leitura. Tem poucas personagens – três homens (amigos) e uma mulher – mas, ao mesmo tempo, é de difícil contextualização espaço-temporal e os capítulos parecem fragmentos de uma vida constantemente interrompida.
Por isso é-nos difícil dizer qual o objecto desta obra. Talvez seja um romance sobre amizade ou sobre a moralidade. Talvez seja um romance sobre um duplo triângulo relacional. Talvez seja uma obra sobre a dificuldade do Homem se encontrar numa sociedade em reconstrução.
Seja como for em muitos momentos este foi um livro sedutor. Romance interrogativo e metafísico e muito bem escrito.
Apesar de tudo este não é um livro que aconselhemos a todos os leitores. O nosso tempo é escasso e existem tantos bons livros (provavelmente muitos bem melhores do que este) que talvez seja melhor ir lendo outros em vez deste.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O livro do riso e do esquecimento

O livro do riso e do esquecimento é uma magnífica obra do escritor checo Milan Kundera.
Há muito tempo que não líamos um livro assim. É absolutamente soberbo, vertiginoso, eloquente e problemático. É uma obra de fôlego, um elogio à arte de bem escrever, uma verdadeira quimera.
Kundera – que já conhecíamos de A ignorância e de A insustentável leveza do ser – é um autor prodigioso. A forma como escreve – indo bem ao fundo da alma e questionando o sentido da existência – é deslumbrante. Cada capítulo, cada página, cada frase encerram significados metafóricos de uma profundidade alucinante.
O livro do riso e do esquecimento, não é no entanto, um romance vulgar. É antes, como escreve o próprio autor, um «romance em forma de variações». É sobretudo uma viagem ao imaginário mais profundo de Kundera mesclado com a ignomínia da realidade checa pós invasão dos tanques soviéticos.
As personagens são de uma densidade avassaladora. Homens e mulheres cujo interior é lentamente prostrado pela pena de Kundera. Homens e mulheres, ficcionados mas ao mesmo tempo reais, cujos pensamentos são artisticamente violados ao longo de pouco mais de 200 páginas.
O livro do riso e do esquecimento é uma das melhores obras que tivemos oportunidade de ler desde sempre. A sua leitura é profundamente recomendada. Talvez marque para muitos um ponto de viragem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Psicanalista

O Psicanalista é uma obra (triller/policial) de John Katzenbach e revelou-se uma boa surpresa.
Habitualmente não temos a oportunidade de ler muitos livros deste género literário mas esta obra é, efectivamente, uma daquelas que não nos deixa indiferente e que nos obriga a ir sempre em procura das páginas e capítulos seguintes.
O Psicanalista não será certamente um livro a figurar entre os candidatos a Nobel da Literatura – não existe nenhuma inovação na narrativa e a escrita é muito simples – mas não é por isso que deixa de estar bem escrito. Julgamos que o maior talento que um escritor de livros policiais pode ter é ser capaz de deixar o leitor num estado de avidez constante. Nisso Katzenbach revela ser um mestre.
Esta obra narra a estória de um psicanalista que é confrontado com a já habitual temática da demanda. Perseguido pelo seu passado (na figura metafórica de um Rumplestiltskin) cabe-lhe desvendar um mistério que pode, ou não, salvar a sua vida.
Para além desta demanda terrena neste livro encontramos também uma outra busca: a procura da compreensão do passado e da natureza humana.
Para os amantes dos romances policiais O Psicanalista é um livro a não perder. Para aqueles cujo este estilo não é o mais apreciado, este, não deixa de ser uma boa alteração de hábitos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Montanha Mágica

A Montanha Mágica é um fantástico e enorme romance do Prémio Nobel da Literatura Thomas Mann tendo sido publicado pela primeira vez em 1924 tendo tido, este ano, a sua primeira tradução para português directamente do alemão.
Thomas Mann é um escritor de mão cheia e a sua escrita revela a profundidade intelectual de um homem conhecedor da arte, da filosofia e da antropologia, o que se prostra na magnificência das páginas que escreve.
A Montanha Mágica conta a estória de Hans Castorp, jovem de boas famílias alemãs, que viaja até a um sanatório nas montanhas suíças para uma breve visita a um seu primo e onde permanece durante sete, nem longos nem curtos, anos.
Este romance está repleto de magnificas personagens, desenhadas com o apuro de um artista, levemente perfumadas com o reflexo da alta sociedade europeia do inicio do século XX. Alemães, holandeses, russos, italianos, numa profusão de concepções de natureza cultural e numa roda-viva de acontecimentos prodigiosos.
Tão importante como a narrativa, stricto sensu, são sem dúvida os entremeios reflexivos (ao estilo de Robert Musil) onde o autor tece considerações sobre um conjunto de ideias de natureza metafísica, onde o tempo é produto de constante ponderação e valoração, e onde a morte, o amor e a cultura andam sempre lado a lado.
A Montanha Mágica não é um livro fácil. As suas mais de 800 páginas, interrogativas e problemáticas, podem fazer os leitores menos incautos perder a vontade de encontrar o fim. Mas é um livro excepcional de um autor genial. Naturalmente, que sendo um dos clássicos da literatura mundial, não poderíamos deixar de aconselhar a todos os leitores.