sexta-feira, 29 de maio de 2009

A casa do mundo

A casa do mundo é um livro do escritor/jornalista português Tiago Salazar no qual este relata as suas viagens pela Europa.
Temos à partida de confessar que gostamos particularmente de livros sobre viagens. O encanto proporcionado por quem viaja e tem o talento para escrever sobre os locais e pessoas que conheceu durante as suas deambulações é fascinante e ocupa na nossa mente um lugar especial.
Não conhecíamos Tiago Salazar. Sobre viagens temos tido a oportunidade de ler, sobretudo, Gonçalo Cadilhe e Bill Bryson que nos encantam com os maravilhosos lugares que visitam.
A escrita de Salazar é diferente. Não é que não se refira a pessoas, mas é mais parecida com uma crónica de revista de viagens, onde o autor descreve os lugares que visitou, os locais onde esteve hospedado e as iguarias que provou.
Não é que não seja interessante, porque é. Antes preferiríamos que este tivesse escrito sobre as pessoas. Afinal, o que conta verdadeiramente no final – muito mais importante que a gastronomia ou a qualidade do hotel – é o que aprendemos com o nosso semelhante.
Seja como for, Salazar é um óptimo escritor. Tem classe, muita! De Madrid a Moscovo, da Lituânia a Malta passando por um cruzeiro pelo Mediterrâneo, este autor proporciona-nos momentos mágicos, sobretudo quando o calor do Sol começa a apertar.
Assim sendo, para os amantes da literatura de viagens este livro de Salazar é uma obra obrigatória. Para os outros… Enfim, cada um gosta do que gosta!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um homem: Klaus Klump

Um homem: Klaus Klump é mais uma fascinante obra do escritor português Gonçalo M. Tavares.
Mais do que um mero livro, esta obra de Gonçalo M. Tavares é um elogio à arte de bem escrever e de pensar, sendo que muitas partes do mesmo parecem ter sido colocadas de uma forma anárquica no texto e descontextualizadas da temática principal do mesmo: a guerra.
Este é, tal como esperávamos, um profundamente livro violento e poderoso. As imagens e metáforas que o autor nos oferece são perfumadas com um doce travo de surrealismo e profunda capacidade imaginativa, causando no leitor um tremendo impacto e perturbação.
Depois de termos lido Jerusalém, não esperávamos outra coisa de Gonçalo M. Tavares. O seu estilo complexo e taciturno é apaixonante e vibrante e a ilusão cáustica da sua escrita um enorme prazer.
Em função desta análise não poderíamos, como é natural, deixar de aconselhar vivamente a leitura de mais esta obra de Gonçalo M. Tavares.

sábado, 23 de maio de 2009

As velas ardem até ao fim

As velas ardem até ao fim é um maravilhoso e portentoso romance de Sándor Márai escritor de origem húngara.
Dizem algumas críticas que este é um romance sobre a amizade entre dois homens que se encontram mais de quarenta anos depois de se verem. A nossa visão é ligeiramente diferente: este é um romance sobre a tristeza, a solidão e a dúvida.
Márai relata-nos o encontro em dois homens velhos que se encontram muitos anos depois de um adeus nunca dito e de terem vivido uma amizade tão forte como a paixão. O ambiente da narrativa é pesado. Castelos, caça, a riqueza de uns e a miséria de outros. Os factos apresentados e os longos monólogos da personagem principal têm a força de punhais aguçados.
Márai é um escritor de mão cheia. Escreve com uma harmonia inesperada e sensual. As palavras que escolhe, as imagens que desenha, a qualidade dos caminhos que percorre, a sobreposição dos factos são de uma qualidade pouco vista. Interessante ainda, é o facto de a parte principal da narrativa se desenrolar num espaço temporal relativamente curto.
As velas ardem até ao fim é um livro fascinante e provavelmente um dos melhores que tivemos oportunidade de ler nos últimos anos, pelo que, não poderíamos deixar de o recomendar com toda a certeza de ser uma boa escolha para a grande maioria dos leitores.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O evangelho segundo Jesus Cristo

O evangelho segundo Jesus Cristo é uma brilhante obra de José Saramago na qual este autor ficciona sobre a vida de Jesus Cristo desde o momento da sua concepção até ao da sua morte.
Como nota prévia devemos informar os nossos leitores que não somos conhecedores dos evangelhos do novo testamento com profundidade suficiente que nos permita fazer uma análise muito profunda deste livro de Saramago.
Efectivamente, e apesar de tudo, estamos em crer que nesta obra, Saramago faz um relato apócrifo da vida de Cristo, pelo menos de acordo com o Novo Testamento.
No entanto, é esta adulteração da realidade contada pelos apóstolos bem como das críticas explicita que faz à Igreja, fazem de O evangelho segundo Jesus Cristo um grande livro.
O estilo de Saramago é conhecido da generalidade dos leitores. O seu ritmo rápido e livre – consubstanciado na forma como apresenta os diálogos e a narrativa – impulsiona-nos para uma leitura desconcertante e difícil. Apesar de tudo o génio do autor sobressai no brilhantismo da exposição dos factos e na caracterização profunda das personagens.
O tema de análise é fenomenal. Muitos autores têm tentado questionar os dogmas religiosos mas poucos atingiram ou poderão vir a atingir a dimensão do escritor português. É precisamente esta vertente da obra que faz deste um livro polémico e susceptível de vários e dúbias interpretações.
Apesar de tudo, não podemos naturalmente deixar de aconselhar esta obra. Saramago faz parte da cultura literária portuguesa e lê-lo é hoje, mais do que nunca, imprescindível.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Jerusalém

Jerusalém é um romance do jovem e muito talentoso escritor português Gonçalo M. Tavares e que foi já vencedor de inúmeros prémios literários.
Gonçalo M. Tavares foi uma completa surpresa. É bem verdade que já há algum tempo que vínhamos acompanhando o percurso deste jovem escritor, mas nunca tínhamos tido a oportunidade de ler a sua obra. E que obra. Se este Jerusalém for um exemplo daquilo que M. Tavares é capaz julgo estarmos na presença de um verdadeiro caso de sucesso, um verdadeiro diamante que se vai lapidando aos poucos.
Jerusalém é um título assombroso. A violência brutal com que nos atingiu é digna de relevo. Este livro é portentoso, uma verdadeira força da natureza, invulgar e estranhamente cativante.
Para começar este é um livro sobre loucos. Loucos na verdadeira acepção da palavra. Um livro sobre indivíduos com desvios comportamentais comprovados, sendo que toda a narrativa gira em volta desta realidade.
O número de personagens é elevado, mas todas directamente relacionadas com o objecto essencial na narrativa que está escrita recorrendo a um conjunto de analepses que funcionam como fragmentos anárquicos que se entrelaçam uns nos outros de uma forma bastante peculiar e sedutora.
É uma alegria ler um autor como Gonçalo M. Tavares. O ilusório cenário, a magnificência da sua escrita, a profundidade das suas personagens, o fascínio pelo mágico mundo negro ao qual nos transporta fazem deste livro uma dos mais memoráveis que tivemos oportunidade de ler nos últimos anos. Começou hoje a busca pela sua restante obra publicada.
Face a tudo o que dissemos este é um livro que aconselhamos. Mais, este é um autor que recomendamos!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Dança, Dança, Dança

Dança, Dança, Dança é mais um excepcional romance do japonês Haruki Murakami que surge na sequência de Em busca do carneiro Selvagem.
Murakami é um escritor invulgar. O seu estilo selvagem, surpreendente e mágico fazem deste autor um dos mais extraordinários romancista do actual panorama literário mundial. Arriscamos mesmo ir mais longe, estamos em crer que Murakami pode mesmo ser o maior escritor vivo.
Ler Murakami faz lembrar Salvador Dalí. Imaginamos que se Dalí em vez de pintor tivesse sido escritor talvez as suas obras de arte se aproximassem daquilo que Murakami escreve.
Dança, Dança, Dança é uma pedra pesada num lago inerte. Os maravilhosos salpicos, a fantasia da poesia feita prosa, os mágicos ambientes, os surreais encontros e desencontros transportam-nos para um mundo apenas possível graças à imaginação sem limites de um homem predestinado.
Todas as suas personagens são um misto de alegria fantasmagórica e de surrealismo poético. Neste livro algumas delas são recuperadas da obra Em busca do carneiro selvagem mas todas elas são de uma profundidade existencial que assombra qualquer leitor.
A estória é fenomenal. Não adiantaremos aqui pormenores da mesma, mas podemos dizer que mais uma vez Murakami nos faz viajar pelo Japão e desta vez até um bocadinho mais longe. Amor, busca interior, problematização sobre a vida moderna e uma viagem a alguns dos gostos musicais do autor são ingredientes que fazem de Dança, Dança, Dança uma obra-prima da literatura do último quartel do século XX.
Como é óbvio, este é um livro que recomendamos. Muito! Quem nunca leu Murakami não se pode considerar um bom leitor. Se existe um universo kafkiano terá, necessariamente de existe um mundo harukiano.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Shalimar o Palhaço

Shalimar o Palhaço, é um romance de Salman Rushdie autor de língua inglesa, que mais do que contar uma simples estória se mostrou ser mais uma obra-prima literária.
Rushdie optou neste livro por contar, primeiramente, uma estória sobre Caxemira, território no norte do subcontinente indiano e sobre os graves problemas político-religiosos que afectam aquela região do planeta desde a independência da Índia e do Paquistão.
Este é também um livro de amor. O amor de um muçulmano – Shalimar o Palhaço – por uma hindu – Boonyi – o amor de um embaixador americano de origem francesa pela sua filha – Índia – o amor de um povo multicultural pela sua terra.
A analepse foi o recurso estilístico escolhido por Rushdie para contar esta estória. O livro inicia-se com o assassinato de Max Ophuls por Shalimar o Palhaço e toda a narrativa se desenrola a partir daí, através de uma caracterização precisa e brilhante de cada uma das personagens principais, dando a conhecer os seus mais íntimos pormenores recorrendo ao seu passado.
Rushdie é verdadeiramente um autor talentoso. Antes de entrarmos no livro a sua escrita pode parecer um pouco pesada e violenta e a sua atenção perfeccionista aos pormenores e às referências de natureza cultural e histórica pode ser até enfadonha, mas a partir do momento em que dominamos completamente a estória das personagens o livro torna-se magnifico.
Naturalmente que Shalimar o Palhaço é um livro que aconselhamos. Rushdie pode estar, mais dia, menos dia, à beira de ser premiado com um Nobel. Oxalá assim seja, é um artista das palavras e tem uma obra universal.