quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Servidão Humana

Servidão Humana é um grandioso livro – estende-se por mais de 700 páginas – do inglês Somerset Maugham e talvez a sua obra-prima.
Temos vindo, ao longo dos últimos anos, a ler a obra deste escritor inglês (que foi também um dos grandes dramaturgos do século XX) com avidez e cautela, sendo que não podemos deixar de destacar O Fio da Navalha. A ASA fez agora o favor de republicar este fantástico romance.
Maugham é dotado de um enorme talento e capacidade de expressão. A sua escrita é leve, sem floreados ou arrebites, mas não deixa de ser profunda pelas questões que suscita e pelas personagens que são descritas.
Em Servidão Humana encontramos, como o próprio autor no prefácio refere, traços autobiográficos e experiencias reais reflectidas. Em Philip Carey, personagem central desta obra, verificamos existirem decalques da vida de Maugham podendo aquele ser considerado como um alter ego do autor. E Servidão Humana é um livro sobre Philip Carey, jovem órfão, que se vê confrontado com as dúvidas da juventude: Deus, a existência, o significado da vida, o destino, o amor, a condição humana.
Há obras marcantes, não tanto pela narrativa, mas sobretudo pelas questões que suscitam. Servidão Humana junta as duas coisas. Encontramos uma narrativa apaixonante (acompanhamos Philip Carey deste a juventude até à idade adulta), onde sofremos juntamente com a personagem, mas ao mesmo tempo somos despertados para um conjunto de questões de natureza meta-filosófica e sobre as quais não conseguimos deixar de pensar.
Servidão Humana é, reconhecido pela generalidade dos críticos, um dos grandes romances do século XX. A sua leitura é absolutamente obrigatória.

domingo, 6 de dezembro de 2009

As verdes colinas de África

As verdes colinas de África é uma obra do escritor americano premiado com um Prémio Nobel da Literatura em 1954 Ernest Hemingway.
Este romance, que é o resultado de um safari efectivamente feito por Hemingway durante a década de trinta, é um magnífico tratado sobre a arte da caça na qual o autor, na primeira pessoa, faz a descrição das caçadas feitas ao rinoceronte, ao leão, ao búfalo e ao antílope.
Hemingway, apesar de se auto-descrever como um fanfarrão (pelo menos no que diz respeito à caça) é, no nosso entender, um escritor despretensioso e profundamente realista. Das obras que temos lido sobre este escritor ficamos sempre com a ideia de que os seus relatos assentam sempre numa vivencia real das situações descritas, quer seja, como é neste caso (e pelo menos num outro), uma caçada, quer seja a passagem pela primeira guerra mundial (O Adeus às Armas), ou pela guerra civil espanhola (Por quem os sinos dobram).
Para mais Hemingway escreve de forma simples. Sem rodeios ou grandes artifícios é um grande contador de estórias que sabe como cativar o leitor e prende-lo à narrativa.
As verdes colinas de África é um clássico da literatura mundial e Hemingway um dos grandes artistas da palavra. Lê-lo não é importante é obrigatório, sendo que na temática das caçadas As verdes colinas de África é um livro essencial.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A Capital

A Capital é, mais uma, brilhante obra do, provavelmente, maior escritor português de todos os tempos: Eça de Queirós.
Eça escreveu ao longo da sua vida um conjunto de romances de grande qualidade literária e que se destacam, não apenas pelo brilhantismo da sua metódica caracterização de personagens e locais, mais também, e provavelmente sobretudo, pela brutal e clarificadora crítica social.
Em A Capital a crítica social é feroz. A crítica que se faz não apenas à personagem principal Artur Corvelo, figura idiota, profundamente sensível, chegando mesmo a ser ligeiramente efeminada, provinciana e idílica, faz-se também à própria cidade de Lisboa, preenchida por gente enfatuada e que é retratada, nesta obra, como uma cidade de pecado, de falcatrua e de uma opulência pedante.
Eça de Queirós é genial. As suas personagens são tão bem descritas que conseguimos, inclusive, cheirar o seu perfume. Os ambientes, as noites no São Carlos, os serões nas casas ricas, os jantares nos hotéis caros e os passeios de tipóia – aliás presentes em muitas das obras de Eça – são pintados com cores verosímeis e claras.
A Capital é um grande livro. Brilhante, conspirador e vibrante. Artur Corvelo é uma personagem fascinante e o séquito de actores secundários adoça ainda mais esta novela. Eça é para ler, é o Portugal oitocentista e a bola de cristal do Portugal de hoje e, certamente, de amanhã. Este é um livro a não perder.

sábado, 21 de novembro de 2009

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol é, mais um, magnífico e brilhante livro do escritor japonês Haruki Murakami.
Ao contrário de outros livros que temos lido do mesmo autor onde o surrealismo é uma constante, esta obra, que foi escrita em 1992 – embora só editada este ano no nosso país – é muito mais ligeira e retrata uma realidade possível.
Em A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, Murakami traz-nos, com uma precisão de poeta, a temática do amor e inunda-nos, durante as pouco mais de 240 páginas, com palavras simples, sensuais e emocionantes sobre a paixão. O jazz, o Japão no dealbar da década de 90, um homem simples, uma amizade eterna, um amor fugaz.
Murakami é um dos nossos escritores favoritos. O seu génio é na nossa opinião, um dos mais completos e complexos da actualidade e as suas narrativas perfumadas incomodam pelo quase excesso de qualidade e pela forma como conseguem tocar no leitor. Murakami é um poeta que escreve prosa, é um pintor que deseja caracteres, é um escultor que cinzela em páginas brancas estórias verdadeiramente maravilhosas.
A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol é um livro obrigatório. Não porque algum dia venha, eventualmente, a ser considerado um clássico, mas porque nos trás tudo aquilo que um livro deve trazer: emoções, sensações, perfume… É um livro, como todos os outros do mesmo autor, profundamente recomendável.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Uma aventura até ao Sul

Uma Aventura até ao Sul é um livro de viagens de Ewan McGregor e Charley Boorman, dois famosos actores britânicos que já antes nos haviam oferecido o célebre O caminho mais longo no qual, os dois, fizeram uma viagem de mota à volta do globo.
Somos fãs incondicionais de livros de viagens. Mas não quaisquer livros. Bons livros, que retratem não apenas e só os locais e os sítios visitados, mas que nos falem das experiências vividas e das pessoas marcantes conhecidas. Este será talvez o principal motivo que faz de Uma Aventura até ao Sul um excelente livro de viagens.
Ewan McGregor e Charley Boorman, à semelhança do que já haviam feito anteriormente, optaram desta vez por fazer uma viagem de mota desde John O’Groats na Escócia ao Cabo Agulhas na África do Sul.
Pelo caminho passaram por países magníficos onde a beleza natural dos desertos e a magnificência dos oásis os maravilharam, partilharam a savana com os animais em estado selvagem e fizeram, o mais que apelativo, percurso pelo fantástico continente africano.
Para mais, estes dois actores britânicos não se furtam a expressar o que sentiram nas visitas que realizaram. Relatam os seus encontros com os meninos soldados do Uganda, com o processo de desarmamento de minas na Etiópia ou com a tribo dos Samburu no Quénia.
Uma Aventura até ao Sul é um livro magnífico e que, certamente, todos os amantes de viagens vão adorar pelo que não podemos deixar de o aconselhar com a certeza de que só podem vir a gostar de o ler.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quando Éramos Peixes

Quando Éramos Peixes é um livro de Neil Shubin, destacado paleontólogo e professor de anatomia que descobriu o Tiktaalik (fóssil de um antepassado do ser humano), sobre a história relativa à evolução do ser humano desde o surgimento da vida no planeta terra até aos nossos dias.
Este é um livro bastante semelhante a O nosso corpo de Keith Harrison, sobre a mesma temática e também seguindo a mesma linha de pensamento, mas ao contrário do livro de Harrison que é muito simples e claro, este é muitíssimo mais técnico o que faz com que seja em muitos momento maçador.
Shubin, aproveitando o facto de ter um saber de experiência feito, relata, baseando-se na teoria de que o Homem descende dos peixes, as principais características do ser humano actual e a forma como as adquirimos.
Quando Éramos Peixes é um livro interessante apesar de demasiado técnico para leitores que não estão familiarizados com os mais elementares princípios da biologia. Será, no entanto, uma excelente escolha para quem domina minimamente a matéria e quer descobrir um bocadinho mais sobre a evolução do Homem.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O nosso corpo

O nosso corpo é um interessantíssimo livro de Keith Harrison doutorado em zoologia que nos relata, de uma forma simples, objectiva e clara a evolução do ser humano desde o momento do surgimento da vida no planeta Terra até aos nossos dias.
Não somos especialistas na área deste livro o que faria com que, caso este fosse demasiado técnico, tivéssemos perdido todo o interesse no mesmo desde o primeiro momento. Não foi o caso, uma vez que a simplicidade de exposição por parte do autor nos conduziu numa viagem fantástica onde encontrámos respostas claras para questões muito complexas.
Esta obra é de facto interessante. Numa época em que Darwin e a sua teoria da Selecção Natural voltou a estar na moda, surgiram muitos livros sobre a temática. A evolução do ser humano é um assunto fascinante e que é, sem dúvida, objecto essencial da formação de um indivíduo como elemento conhecedor de si próprio.
O nosso corpo é um livro que pode ser lido por qualquer pessoa, dos mais velhos aos mais novos. É, sobretudo, uma óptima escolha para quem quer conhecer de forma clara o processo de formação da vida. É, portanto, uma obra que aconselhamos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Estrela Errante

Estrela Errante é um romance de J. M. G. Le Clézio, escritor francês e Prémio Nobel da Literatura em 2008.
Nesta obra, escrita em grande parte na primeira pessoa por intermédio de duas personagens - embora relevadas de forma diferente - que parecem estar nos antípodas uma da outra (Esther, francesa, judia; Nejma, palestiniana) dá-se a conhecer a guerra, o desespero, a morte, a esperança e a alegria.
A fuga dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial é, cada vez mais, um marco literário com profusão de obras escritas. Neste caso faz-se referência à fuga dos judeus franceses em direcção ao Estado de Israel logo após a sua criação depois do fim da guerra.
Não deixa também de ser interessante a dicotomia criada. De um lado a criação do Estado de Israel, do outro a deslocação das populações palestinianas para campos de refugiados e a hecatombe social que tal situação criou.
Estrela Errante é uma obra poderosa. Le Clézio consegue dar-nos a conhecer algumas das mais vibrantes sensações do ser humano numa viagem à dor física e espiritual de duas mulheres que lutam por se encontrarem num mundo em convulção e mudança.
J. M. G. Le Clézio é um escritor polido. A sua escrita é simples e limpa e o argumento toca-nos pela proximidade temporal. Não existe recurso a arabescos ou subterfúgios de natureza vanguardista. A narrativa diz-nos algo porque nos conseguimos identificar com as personagens sentindo o seu sofrimento e a sua alegria.
Ficámos bem impressionados com este Nobel francês. Estrela Errante é uma obra bem conseguida e construída sob uma temática que nos parece estar ainda longe de estar esgotada. Esta é, sem qualquer dúvida, uma leitura que aconselhamos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os anões

Os anões é um romance (aliás o único romance) de Harold Pinter, Prémio Nobel da Literatura em 2005 e que se celebrizou na escrita de peças de teatro.
Esta obra, acaba aliás por ser, no seu estilo, um pouco parecida com uma peça de teatro. Para romance quase não tem narrativa sendo o seu texto quase exclusivamente composto por diálogos.
Esta obra, apesar de pequena (tem pouco mais de 200 páginas) é de difícil leitura. Tem poucas personagens – três homens (amigos) e uma mulher – mas, ao mesmo tempo, é de difícil contextualização espaço-temporal e os capítulos parecem fragmentos de uma vida constantemente interrompida.
Por isso é-nos difícil dizer qual o objecto desta obra. Talvez seja um romance sobre amizade ou sobre a moralidade. Talvez seja um romance sobre um duplo triângulo relacional. Talvez seja uma obra sobre a dificuldade do Homem se encontrar numa sociedade em reconstrução.
Seja como for em muitos momentos este foi um livro sedutor. Romance interrogativo e metafísico e muito bem escrito.
Apesar de tudo este não é um livro que aconselhemos a todos os leitores. O nosso tempo é escasso e existem tantos bons livros (provavelmente muitos bem melhores do que este) que talvez seja melhor ir lendo outros em vez deste.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O livro do riso e do esquecimento

O livro do riso e do esquecimento é uma magnífica obra do escritor checo Milan Kundera.
Há muito tempo que não líamos um livro assim. É absolutamente soberbo, vertiginoso, eloquente e problemático. É uma obra de fôlego, um elogio à arte de bem escrever, uma verdadeira quimera.
Kundera – que já conhecíamos de A ignorância e de A insustentável leveza do ser – é um autor prodigioso. A forma como escreve – indo bem ao fundo da alma e questionando o sentido da existência – é deslumbrante. Cada capítulo, cada página, cada frase encerram significados metafóricos de uma profundidade alucinante.
O livro do riso e do esquecimento, não é no entanto, um romance vulgar. É antes, como escreve o próprio autor, um «romance em forma de variações». É sobretudo uma viagem ao imaginário mais profundo de Kundera mesclado com a ignomínia da realidade checa pós invasão dos tanques soviéticos.
As personagens são de uma densidade avassaladora. Homens e mulheres cujo interior é lentamente prostrado pela pena de Kundera. Homens e mulheres, ficcionados mas ao mesmo tempo reais, cujos pensamentos são artisticamente violados ao longo de pouco mais de 200 páginas.
O livro do riso e do esquecimento é uma das melhores obras que tivemos oportunidade de ler desde sempre. A sua leitura é profundamente recomendada. Talvez marque para muitos um ponto de viragem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Psicanalista

O Psicanalista é uma obra (triller/policial) de John Katzenbach e revelou-se uma boa surpresa.
Habitualmente não temos a oportunidade de ler muitos livros deste género literário mas esta obra é, efectivamente, uma daquelas que não nos deixa indiferente e que nos obriga a ir sempre em procura das páginas e capítulos seguintes.
O Psicanalista não será certamente um livro a figurar entre os candidatos a Nobel da Literatura – não existe nenhuma inovação na narrativa e a escrita é muito simples – mas não é por isso que deixa de estar bem escrito. Julgamos que o maior talento que um escritor de livros policiais pode ter é ser capaz de deixar o leitor num estado de avidez constante. Nisso Katzenbach revela ser um mestre.
Esta obra narra a estória de um psicanalista que é confrontado com a já habitual temática da demanda. Perseguido pelo seu passado (na figura metafórica de um Rumplestiltskin) cabe-lhe desvendar um mistério que pode, ou não, salvar a sua vida.
Para além desta demanda terrena neste livro encontramos também uma outra busca: a procura da compreensão do passado e da natureza humana.
Para os amantes dos romances policiais O Psicanalista é um livro a não perder. Para aqueles cujo este estilo não é o mais apreciado, este, não deixa de ser uma boa alteração de hábitos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Montanha Mágica

A Montanha Mágica é um fantástico e enorme romance do Prémio Nobel da Literatura Thomas Mann tendo sido publicado pela primeira vez em 1924 tendo tido, este ano, a sua primeira tradução para português directamente do alemão.
Thomas Mann é um escritor de mão cheia e a sua escrita revela a profundidade intelectual de um homem conhecedor da arte, da filosofia e da antropologia, o que se prostra na magnificência das páginas que escreve.
A Montanha Mágica conta a estória de Hans Castorp, jovem de boas famílias alemãs, que viaja até a um sanatório nas montanhas suíças para uma breve visita a um seu primo e onde permanece durante sete, nem longos nem curtos, anos.
Este romance está repleto de magnificas personagens, desenhadas com o apuro de um artista, levemente perfumadas com o reflexo da alta sociedade europeia do inicio do século XX. Alemães, holandeses, russos, italianos, numa profusão de concepções de natureza cultural e numa roda-viva de acontecimentos prodigiosos.
Tão importante como a narrativa, stricto sensu, são sem dúvida os entremeios reflexivos (ao estilo de Robert Musil) onde o autor tece considerações sobre um conjunto de ideias de natureza metafísica, onde o tempo é produto de constante ponderação e valoração, e onde a morte, o amor e a cultura andam sempre lado a lado.
A Montanha Mágica não é um livro fácil. As suas mais de 800 páginas, interrogativas e problemáticas, podem fazer os leitores menos incautos perder a vontade de encontrar o fim. Mas é um livro excepcional de um autor genial. Naturalmente, que sendo um dos clássicos da literatura mundial, não poderíamos deixar de aconselhar a todos os leitores.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O cavaleiro inexistente

O cavaleiro inexistente é um pequeno romance do italiano Italo Calvino publicado pela primeira vez em 1959.
Calvino é um autor especial. Com uma singular simplicidade é capaz de transmitir ao leitor ideias de grande complexidade e profundidade.
Nesta obra Calvino narra-nos a estória de um cavaleiro que existe e que ao mesmo tempo não existe, sendo apenas uma armadura medieval, utilizando um estilo particularmente divertido, aproximando-se inclusive de uma verdadeira sátira.
O cavaleiro inexistente pode, no entanto, ser mais do que uma mera sátira, podendo ser uma alegoria sobre a vida e sobre o conceito de inexistência, porque ao longo das suas páginas podemos encontrar múltiplas reflexões sobre estas questões.
Este é um livro divertido e muito fácil de ler. Calvino é um autor polido, divertido e a leitura das suas obras é muitíssimo fluente, pelo que aconselhamos, indubitavelmente, a sua leitura.

domingo, 13 de setembro de 2009

O som e a fúria

O som e a fúria é uma obra do romancista americano William Faulkner, Prémio Nobel da Literatura em 1949 e que contém (na edição da Dom Quixote) uma particularmente bem escrita nota de introdução de António Lobo Antunes.
Nesta obra de Faulkner, dividida em quatro partes distintas, dá-se a conhecer a família Compson. A narrativa é feita por três indivíduos distintos: Benjy, Quentin e Jason, cada um com particularidades distintas e directamente relacionadas com o seu carácter e características específicas.
O som e a fúria é um livro violento e difícil que retracta a decadência de uma família do sul dos Estados Unidos e em particular a vida de Caddy Compson, irmã dos três narradores.
Faulkner, que domina a arte de bem escrever como poucos, dá largo uso à figura da analepse, sendo que em muitas situações torna-se difícil para o leitor contextualizar-se quer geográfica, quer temporalmente, sobretudo porque a primeira parte é narrada por Benjy, um atrasado mental.
Apesar da contextualização temporal ser uma dificuldade, a verdade é que apenas na última parte adquirimos uma noção completa da realidade que o autor nos pretende contar. As diferentes visões dos narradores propiciam uma amplitude estrutural de difícil manifestação.
O som e a fúria é a primeira obra que tivemos a oportunidade de ler de Faulkner, sendo certo que é considerada uma das suas obras-primas. Na realidade, esta é uma excelente obra (embora, como já referimos, difícil), e aconselhamos a sua leitura a quem procura na leitura não só um mero passatempo mas sobretudo o contacto com a genialidade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O Jogador

O Jogador é um intemporal romance de um dos grandes génios da literatura mundial Fiódor Dostoievski.
Nesta obra, Dostoievski apresenta ao leitor um relato, na primeira pessoa, de um russo jogador da roleta (conhecido jogo de casino), bem como as vicissitudes de uma família aristocrática e falida família russa, a confrontação com a alta sociedade do fenomenal século XIX e o amor da personagem principal por uma mulher, aparentemente, intangível.
Este foi o primeiro romance que tivemos a oportunidade de ler de Dostoievski. De facto, e como rezam a generalidade das críticas, este é um autor de grande genialidade e impacto. A sua escrita é fluida, sem grandes artifícios morfológicos ou linguísticos, mas profundamente tocante e lúcida. Em alguns aspectos, ainda que de forma muitíssimo mitigada, Dostoievski assemelha-se um pouco ao estilo queirosiano.
A estória de O Jogador, inspirada nas suas próprias experiencias, expõe-nos perante a loucura e cegueira da ambição dos homens perante a fortuna fácil e o reconhecimento externo. Narra-nos ainda a rápida decadência de muitas famílias aristocráticas e a actividade furtiva de muitos abutres da alta sociedade.
Naturalmente que a obra de Dostoievski é de grande importância e relevância na formação de qualquer leitor, sendo que este livro é, certamente, um dos cuja leitura é amplamente recomendada. É, sem qualquer dúvida, uma obra de grande qualidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ulisses

Ulisses é, provavelmente, a mais conhecida obra do escritor irlandês James Joyce e é considerada pelos principais críticos uma das mais relevantes obras literárias de todos os tempos.
Em primeiro lugar queremos referir que a edição que tivemos oportunidade de ler é da Difel e que corresponde a uma tradução brasileira da obra, o que desde logo representou um entrave à leitura do livro, face às evidentes diferenças entre edições portuguesas e brasileiras.
Em segundo lugar, não podemos deixar de dizer que efectivamente Ulisses é uma verdadeira epopeia da literatura mundial. Com mais 500 páginas, Joyce transporta-nos a um mundo proto-mitológico de uma enorme abstracção.
O estilo polido e profundamente erudito deste autor tornou-se, ao longo das páginas, conflituoso com o bom acompanhar da narrativa e um estorvo para quem procura encontrar um fio condutor para a estória.
Nunca tínhamos passado tanto tempo de volta de um livro como aconteceu com Ulisses. Nunca, ao longo das suas centenas de páginas, nos conseguimos sentir motivamos pela obra. A evidente sapiência do autor não foi suficiente para nos cativar e este livro foi-se tornando, ao longo das suas páginas, um verdadeiro suplício.
Não queremos com isto por em causa o brilho da obra. Certamente que centenas de críticos ao longo de quase 100 anos não estarão errados, mas não conseguimos atingir o nível de Joyce e Ulisses tornou-se uma obra incompreensível.
Naturalmente, esta não é uma obra que aconselhemos aos nossos leitores. A sua complexidade implica um domínio da literatura clássica (Odisseia de Homero) e uma capacidade de abstracção e concentração ao alcance de poucos.

domingo, 5 de julho de 2009

O Rastro do Jaguar

O Rastro do Jaguar é um livro do brasileiro Murilo Carvalho e vencedor do Prémio Leya 2008, que nos transporta desde a magnificência do século XIX francês à brutalidade das guerras neo-coloniais da América do Sul.
Murilo Carvalho optou neste livro, baseado em factos e personagens verificas, por e através de Pereira contar a história, em primeiro, dos índios brasileiros em confronto com o seu desaparecimento em face do avanço do Império e em segundo lugar por relatar o confronto militar entre o Paraguai e a tríplice aliança composta por Brasil, Argentina e Uruguai.
Existe nesta obra uma determinada componente mística assumida por um índio brasileira que foi criado em França e que regressa à sua nação de origem para descobrir os fundamentos da sua ascendência metafísica e sobretudo para liderar o seu povo numa demanda em busca da paz e da tranquilidade através da guerra.
O Rastro do Jaguar não foi, para nós, um livro fantástico. A leitura tem ritmo e a narrativa é interessante, mas não nos conseguimos sentir integrados numa temática que não nos suscitou grande interesse. No entanto, não queremos com isto dizer que seja um mau livro, mas apenas que não nos cativou o suficiente.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Levantado do chão

Levantado do chão é um romance sobre o Alentejo do Nobel português José Saramago.
Ao longo dos últimos meses temos vindo a ler alguma da obra de Saramago, sobretudo pela capacidade que este autor tem de narrar originalidades e pelo seu estilo forte e apurado.
Este livro, embora não contando uma estória original – conta a estória de uma família desde o início do século XX até meados da década de setenta do mesmo século – retrata as condições da vida agrícola e do povo que nas terras trabalha. É um livro com uma componente político-social muito forte e profundamente ideológico.
Apesar de apreciarmos o estilo de Saramago, este livro revelou-se uma empreitada particularmente difícil, talvez devido à dinâmica política que o autor pretendeu imprimir ao mesmo.
No entanto, não queremos com isto dizer que é mau ou pouco interessante, mas apenas que não se revelou como um daqueles livros que queremos ler independentemente do que quer que seja.
Apesar de não termos ficado fascinados com esta obra, os amantes dos romances de natureza social e aqueles que se deixam seduzir pelo mundo agrícola e pelos movimentos subversivos no tempo da ditadura portuguesa podem encontrar nesta obra de Saramago um bálsamo e uma fonte romanceada de grande interesse.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A casa do mundo

A casa do mundo é um livro do escritor/jornalista português Tiago Salazar no qual este relata as suas viagens pela Europa.
Temos à partida de confessar que gostamos particularmente de livros sobre viagens. O encanto proporcionado por quem viaja e tem o talento para escrever sobre os locais e pessoas que conheceu durante as suas deambulações é fascinante e ocupa na nossa mente um lugar especial.
Não conhecíamos Tiago Salazar. Sobre viagens temos tido a oportunidade de ler, sobretudo, Gonçalo Cadilhe e Bill Bryson que nos encantam com os maravilhosos lugares que visitam.
A escrita de Salazar é diferente. Não é que não se refira a pessoas, mas é mais parecida com uma crónica de revista de viagens, onde o autor descreve os lugares que visitou, os locais onde esteve hospedado e as iguarias que provou.
Não é que não seja interessante, porque é. Antes preferiríamos que este tivesse escrito sobre as pessoas. Afinal, o que conta verdadeiramente no final – muito mais importante que a gastronomia ou a qualidade do hotel – é o que aprendemos com o nosso semelhante.
Seja como for, Salazar é um óptimo escritor. Tem classe, muita! De Madrid a Moscovo, da Lituânia a Malta passando por um cruzeiro pelo Mediterrâneo, este autor proporciona-nos momentos mágicos, sobretudo quando o calor do Sol começa a apertar.
Assim sendo, para os amantes da literatura de viagens este livro de Salazar é uma obra obrigatória. Para os outros… Enfim, cada um gosta do que gosta!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um homem: Klaus Klump

Um homem: Klaus Klump é mais uma fascinante obra do escritor português Gonçalo M. Tavares.
Mais do que um mero livro, esta obra de Gonçalo M. Tavares é um elogio à arte de bem escrever e de pensar, sendo que muitas partes do mesmo parecem ter sido colocadas de uma forma anárquica no texto e descontextualizadas da temática principal do mesmo: a guerra.
Este é, tal como esperávamos, um profundamente livro violento e poderoso. As imagens e metáforas que o autor nos oferece são perfumadas com um doce travo de surrealismo e profunda capacidade imaginativa, causando no leitor um tremendo impacto e perturbação.
Depois de termos lido Jerusalém, não esperávamos outra coisa de Gonçalo M. Tavares. O seu estilo complexo e taciturno é apaixonante e vibrante e a ilusão cáustica da sua escrita um enorme prazer.
Em função desta análise não poderíamos, como é natural, deixar de aconselhar vivamente a leitura de mais esta obra de Gonçalo M. Tavares.

sábado, 23 de maio de 2009

As velas ardem até ao fim

As velas ardem até ao fim é um maravilhoso e portentoso romance de Sándor Márai escritor de origem húngara.
Dizem algumas críticas que este é um romance sobre a amizade entre dois homens que se encontram mais de quarenta anos depois de se verem. A nossa visão é ligeiramente diferente: este é um romance sobre a tristeza, a solidão e a dúvida.
Márai relata-nos o encontro em dois homens velhos que se encontram muitos anos depois de um adeus nunca dito e de terem vivido uma amizade tão forte como a paixão. O ambiente da narrativa é pesado. Castelos, caça, a riqueza de uns e a miséria de outros. Os factos apresentados e os longos monólogos da personagem principal têm a força de punhais aguçados.
Márai é um escritor de mão cheia. Escreve com uma harmonia inesperada e sensual. As palavras que escolhe, as imagens que desenha, a qualidade dos caminhos que percorre, a sobreposição dos factos são de uma qualidade pouco vista. Interessante ainda, é o facto de a parte principal da narrativa se desenrolar num espaço temporal relativamente curto.
As velas ardem até ao fim é um livro fascinante e provavelmente um dos melhores que tivemos oportunidade de ler nos últimos anos, pelo que, não poderíamos deixar de o recomendar com toda a certeza de ser uma boa escolha para a grande maioria dos leitores.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O evangelho segundo Jesus Cristo

O evangelho segundo Jesus Cristo é uma brilhante obra de José Saramago na qual este autor ficciona sobre a vida de Jesus Cristo desde o momento da sua concepção até ao da sua morte.
Como nota prévia devemos informar os nossos leitores que não somos conhecedores dos evangelhos do novo testamento com profundidade suficiente que nos permita fazer uma análise muito profunda deste livro de Saramago.
Efectivamente, e apesar de tudo, estamos em crer que nesta obra, Saramago faz um relato apócrifo da vida de Cristo, pelo menos de acordo com o Novo Testamento.
No entanto, é esta adulteração da realidade contada pelos apóstolos bem como das críticas explicita que faz à Igreja, fazem de O evangelho segundo Jesus Cristo um grande livro.
O estilo de Saramago é conhecido da generalidade dos leitores. O seu ritmo rápido e livre – consubstanciado na forma como apresenta os diálogos e a narrativa – impulsiona-nos para uma leitura desconcertante e difícil. Apesar de tudo o génio do autor sobressai no brilhantismo da exposição dos factos e na caracterização profunda das personagens.
O tema de análise é fenomenal. Muitos autores têm tentado questionar os dogmas religiosos mas poucos atingiram ou poderão vir a atingir a dimensão do escritor português. É precisamente esta vertente da obra que faz deste um livro polémico e susceptível de vários e dúbias interpretações.
Apesar de tudo, não podemos naturalmente deixar de aconselhar esta obra. Saramago faz parte da cultura literária portuguesa e lê-lo é hoje, mais do que nunca, imprescindível.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Jerusalém

Jerusalém é um romance do jovem e muito talentoso escritor português Gonçalo M. Tavares e que foi já vencedor de inúmeros prémios literários.
Gonçalo M. Tavares foi uma completa surpresa. É bem verdade que já há algum tempo que vínhamos acompanhando o percurso deste jovem escritor, mas nunca tínhamos tido a oportunidade de ler a sua obra. E que obra. Se este Jerusalém for um exemplo daquilo que M. Tavares é capaz julgo estarmos na presença de um verdadeiro caso de sucesso, um verdadeiro diamante que se vai lapidando aos poucos.
Jerusalém é um título assombroso. A violência brutal com que nos atingiu é digna de relevo. Este livro é portentoso, uma verdadeira força da natureza, invulgar e estranhamente cativante.
Para começar este é um livro sobre loucos. Loucos na verdadeira acepção da palavra. Um livro sobre indivíduos com desvios comportamentais comprovados, sendo que toda a narrativa gira em volta desta realidade.
O número de personagens é elevado, mas todas directamente relacionadas com o objecto essencial na narrativa que está escrita recorrendo a um conjunto de analepses que funcionam como fragmentos anárquicos que se entrelaçam uns nos outros de uma forma bastante peculiar e sedutora.
É uma alegria ler um autor como Gonçalo M. Tavares. O ilusório cenário, a magnificência da sua escrita, a profundidade das suas personagens, o fascínio pelo mágico mundo negro ao qual nos transporta fazem deste livro uma dos mais memoráveis que tivemos oportunidade de ler nos últimos anos. Começou hoje a busca pela sua restante obra publicada.
Face a tudo o que dissemos este é um livro que aconselhamos. Mais, este é um autor que recomendamos!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Dança, Dança, Dança

Dança, Dança, Dança é mais um excepcional romance do japonês Haruki Murakami que surge na sequência de Em busca do carneiro Selvagem.
Murakami é um escritor invulgar. O seu estilo selvagem, surpreendente e mágico fazem deste autor um dos mais extraordinários romancista do actual panorama literário mundial. Arriscamos mesmo ir mais longe, estamos em crer que Murakami pode mesmo ser o maior escritor vivo.
Ler Murakami faz lembrar Salvador Dalí. Imaginamos que se Dalí em vez de pintor tivesse sido escritor talvez as suas obras de arte se aproximassem daquilo que Murakami escreve.
Dança, Dança, Dança é uma pedra pesada num lago inerte. Os maravilhosos salpicos, a fantasia da poesia feita prosa, os mágicos ambientes, os surreais encontros e desencontros transportam-nos para um mundo apenas possível graças à imaginação sem limites de um homem predestinado.
Todas as suas personagens são um misto de alegria fantasmagórica e de surrealismo poético. Neste livro algumas delas são recuperadas da obra Em busca do carneiro selvagem mas todas elas são de uma profundidade existencial que assombra qualquer leitor.
A estória é fenomenal. Não adiantaremos aqui pormenores da mesma, mas podemos dizer que mais uma vez Murakami nos faz viajar pelo Japão e desta vez até um bocadinho mais longe. Amor, busca interior, problematização sobre a vida moderna e uma viagem a alguns dos gostos musicais do autor são ingredientes que fazem de Dança, Dança, Dança uma obra-prima da literatura do último quartel do século XX.
Como é óbvio, este é um livro que recomendamos. Muito! Quem nunca leu Murakami não se pode considerar um bom leitor. Se existe um universo kafkiano terá, necessariamente de existe um mundo harukiano.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Shalimar o Palhaço

Shalimar o Palhaço, é um romance de Salman Rushdie autor de língua inglesa, que mais do que contar uma simples estória se mostrou ser mais uma obra-prima literária.
Rushdie optou neste livro por contar, primeiramente, uma estória sobre Caxemira, território no norte do subcontinente indiano e sobre os graves problemas político-religiosos que afectam aquela região do planeta desde a independência da Índia e do Paquistão.
Este é também um livro de amor. O amor de um muçulmano – Shalimar o Palhaço – por uma hindu – Boonyi – o amor de um embaixador americano de origem francesa pela sua filha – Índia – o amor de um povo multicultural pela sua terra.
A analepse foi o recurso estilístico escolhido por Rushdie para contar esta estória. O livro inicia-se com o assassinato de Max Ophuls por Shalimar o Palhaço e toda a narrativa se desenrola a partir daí, através de uma caracterização precisa e brilhante de cada uma das personagens principais, dando a conhecer os seus mais íntimos pormenores recorrendo ao seu passado.
Rushdie é verdadeiramente um autor talentoso. Antes de entrarmos no livro a sua escrita pode parecer um pouco pesada e violenta e a sua atenção perfeccionista aos pormenores e às referências de natureza cultural e histórica pode ser até enfadonha, mas a partir do momento em que dominamos completamente a estória das personagens o livro torna-se magnifico.
Naturalmente que Shalimar o Palhaço é um livro que aconselhamos. Rushdie pode estar, mais dia, menos dia, à beira de ser premiado com um Nobel. Oxalá assim seja, é um artista das palavras e tem uma obra universal.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sebastião José

Sebastião José é uma obra de Agustina Bessa-Luís, consagrada autora portuguesa, que é, não apenas uma biografia de Sebastião José de Carvalho e Melo mais conhecido por Marquês de Pombal, mas também o retrato de uma época histórica, não apenas de Portugal mas também um pouco da Europa.
Agustina Bessa-Luís é uma artista da palavra. O trato fino que dá as frases torna cada informação, mesmo as aparentemente banais, num belo poema polvilhado por uma leve camada de profundidade melódica e conhecimento intenso.
Não sendo apenas uma obra sobre o Marquês de Pombal é neste que se encontra o epicentro da mesma, sendo certo que se vêm afloradas as personalidades e locais com que o Marquês mais se identificou, tornando-se ao longo da obra claro que não se pretende com este livro fazer uma identificação meramente exaustiva da vida de um homem, mas sobretudo colocar uma personalidade de marcante impacto na sociedade/vida portuguesa dentro de um contexto mais alargado.
Não é um livro fácil. A erudição da autora mesclada com a distância temporal fazem com que atenção redobrada tenha de ser empregue na leitura da obra. Não existem porém, quaisquer dúvidas que os amantes das bibliografias e do século XVIII encontrarão em Sebastião José motivo de grande interesse.

terça-feira, 24 de março de 2009

O Tigre Branco

O Tigre Branco é o romance de estreia Aravind Adiga, autor indiano, que ganhou em 2008 o Man Booker Prize.
Este livro é uma brilhante sátira ao universo indiano, no qual o autor através da sua personagem principal – um jovem indiano de nome Balram – escreve uma carta ao primeiro-ministro chinês descrevendo a sua vida desde a sua miserável meninice até ao momento em que se torna um empresário de sucesso da cidade de Bangalore.
Esta obra é deliciosa. A escrita é simples, sem rodeios e de um realismo brutal, capaz de descrever minuciosamente – sem ser de maneira nenhuma entediante – a vida de um jovem indiano de uma casta baixa que sobe a pulso na vida até atingir o sucesso.
A Índia é um país continental. Entre os seus mil milhões de habitante existem profundas desigualdades sociais impostas por um sistema de castas que tem sido objecto de profícua literatura.
Para nós, ocidentais, é-nos difícil compreender a realidade pintada por Adiga e outros autores que escrevem sobre esta temática, mas ao mesmo tempo que assumimos a dificuldade devido às intrínsecas diferenças culturais, não conseguimos deixar também de nos sentir fascinados por um mundo que ainda hoje é mágico.
Ficámos muito bem impressionados pelo estilo de Adiga. É um primeiro romance de um nível bastante elevado. Naturalmente que aconselhamos vivamente a leitura desta obra.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Kafka à beira-mar

Kafka à beira-mar é uma obra do japonês Haruki Murakami que nos conta a estória de Kafka Tamura e de Nakata, duas personagens cujas vidas estão intrinsecamente ligadas através de uma estranha relação de causa/efeito e cujas vidas são como duas linhas que de aproximam paulatinamente até se interceptarem numa brutal colisão.
Murakami é um escritor absolutamente alucinante e brilhante. A sua obra é cativante e perfumada de uma doce estultícia. Escreve aquilo que ainda não tivemos oportunidade de ler em mais nenhum autor mas que apesar de tudo se aproxima um pouco do surrealismo kafkiano no que diz respeito à originalidade e abstracção das suas narrativas.
A narrativa desta estória está directamente ligada ao mito de Édipo e a uma profecia oracular. Conta-nos como Kafka Tamura procura respostas que saciem o seu desejo de aprofundar o conhecimento do seu “Eu” e como Nakata vive imbuído num espírito de demanda que não consegue compreender.
As personagens deste livro tocam-nos. O dedo miraculoso de Murakami projecta no leitor a sombra da alma da sua criação, fazendo-nos entrar na profundidade do pensamento abstracto e tentacular de uma imaginação surrealista e constantemente surpreendente.
Murakami é um génio, mas não devido à sua escrita que não deixa de ser fluida e agradável. É um génio porque tem a capacidade de nos transportar a um mundo que apenas poderia existir na sua imaginação, onde um homem tem a capacidade de falar com gatos e de prever que chovam sanguessugas e onde as mascotes de uma multinacional norte-americana assumem a forma real.
Kafka à beira-mar é um livro a não perder. É uma lição de vida sem que o autor assuma pretensões moralistas, um livro que nos transporta para um universo único e que nos dá espaço para reflectir em face das perguntas para as quais não dá resposta.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O rapaz do pijama às riscas

O rapaz do pijama às riscas é um pequeno livro do irlandês John Boyde que conta a estória de Bruno, um jovem alemão e da sua família depois do pai deste ter sido designado comandante do campo de concentração de Auschwitz.
Bruno é a personagem principal deste livro, um jovem alemão que em virtude das vicissitudes da 2.ª guerra mundial é obrigado a mudar-se de Berlim para Auschwitz, terra inóspita e onde não encontra amigos com quem brincar, sendo confrontado frequentemente com a brutalidade que não consegue compreender de um regime que tem dificuldade em aceitar.
Depois de chegar a Auschwitz Bruno conhece um rapaz da sua idade – o rapaz do pijama às riscas – no outro lado da vedação que divide a sua casa do campo de concentração, forjando com este uma amizade profunda e inocente própria e exclusiva das crianças.
Boyde oferece-nos uma estória extremamente emotiva, simples e impressionante. Talvez seja mesmo a única forma de explicar o holocausto a jovens, sem no entanto fugir dos pormenores mais violentos e confrangedores.
O rapaz do pijama às riscas foi um livro que nos surpreendeu pela positiva sobre uma temática de muito difícil abordagem e se mais motivos não existissem, estes seriam suficientes para recomendarmos a sua leitura a todos, mais e menos jovens.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Sementes Mágicas

Sementes Mágicas é um romance de Vidiadhar Surajprasad Naipaul, escritor britânico de ascendência indiana que venceu o prémio Nobel da literatura em 2001, que retrata a estória de um indiano chamado Willie e a sua luta para a auto-descoberta, onde se verifica o confronto entre a dúvida constante e a necessidade de valorizar a existência.
Willie é um indiano que vive numa roda-viva constante. Depois de ter vivido em Londres casa-se e muda-se para uma antiga colónia portuguesa onde vive 18 anos até abandonar a sua esposa e se mudar para Berlim onde se encontra a sua irmã.
Aí, começa a desenvolver esforços, com a ajuda e patrocínio da sua irmã, para se juntar a uma luta armada no seu país por libertação das castas mais desfavorecidas, problema que nesta obra ocupa a mais importante centralidade da mesma, procurando o autor defini-la aos olhos de um homem confuso com o seu papel na história e incapaz de encontrar a sua verdadeira vocação.
Após o falhanço na sua demanda, Willie regressa à Inglaterra onde se vai ver mais uma vez confrontado com a sua demanda incessante por encontrar um lugar no espaço e no tempo que, com o passar dos anos, se torna cada vez mais difícil.
Naipaul escreve sobre sobre a identidade cultural de um povo, sobre o exílio e sobretudo sobre a condição humana, colocando a nu muitas das fragilidades do Homem. A sua escrita é clara e sem frívolos, capaz de nos prender à sua leitura e de nos cativar para a narrativa. Muito mais do que um romance sobre uma personagem é uma obra sobre o Homem que aconselhamos àqueles que procuram mais do que a mera fantasia e uma leitura intemporal.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O Nobre Sequestrador

O Nobre Sequestrador é um livro do brasileiro Antônio Torres que conta a estória de um corsário francês chamado René Duguay-Trouin que ficou conhecido pela invasão e sequestro da cidade do Rio de Janeiro que perpetrou no inicio do século XVIII.
Esta obra relata, em primeiro plano, a viagem do corsário francês bem como a própria invasão daquela importante cidade do império colonial português, embora seja também um elogio ao próprio Duguay-Trouin e descreva ainda a cidade francesa de Saint-Malo.
Antônio Torres foi uma agradável surpresa. O seu estilo bem delineado e a sua escrita fluida e perfumada foram um verdadeiro bálsamo, na medida em que não tínhamos expectativas muito elevadas relativamente a esta obra.
No entanto o autor surpreendeu-nos com uma narrativa lúcida e interessante baseado numa personagem que ilustra na perfeição a verdade de uma determinada realidade.
Para os portugueses, donos de um poderoso império conquistado através do domínio dos mares, é difícil compreender a actividade dos corsários – género de piratas ao serviço dos estados – mas Antônio Torres oferece-nos um quadro excepcionalmente bem pintado, conferindo cor a uma realidade, entre nós, praticamente desconhecida.
O Nobre Sequestrador é um romance histórico que embora não possa ser considerado uma obra-prima é um livro bastante agradável e que se lê com relativa facilidade. Por isso, todos os amantes deste género de literatura vão ficar positivamente bem surpreendidos ao lerem este livro de Antônio Torres.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Desejado

O Desejado é um romance de Aydano Roriz sobre a vida de El Rei D. Sebastião, o famoso monarca da dinastia de Avis que pereceu em Alcácer Quibir sem deixar qualquer descendente o que redundou, depois da morte do seu tio D. Henrique e da curta passagem do poder por D. António Prior do Crato na submissão de Portugal uma longa dominação castelhana que terminou em 1640.
Não foi a primeira vez que esta obra de Roriz nos passou pelas mãos. Na verdade, depois de lidos os primeiros capítulos, chegámos à conclusão que já havíamos lido esta obra. No entanto, Roriz não é um autor particularmente estimulante escrevendo as suas obras baseando-se em personagens históricas e romanceando a partir daí, pelo que não tínhamos qualquer recordação deste livro.
O Desejado é um típico romance histórico na qual o autor relata a vida de toda uma personagem criando à sua volta um enredo para o qual constrói estados de espírito e ficciona factos que possam ajudar a descortinar a história.
Da nossa parte devemos dizer que a obra está longe de ser fantástica. Aydano Roriz não é um autor particularmente dotado do ponto de vista do leque morfológico que utiliza ou dos subterfúgios imaginativos e o livro não chega a ser cativante. Seja como for, não deixa de ser mais uma opção dentro do género que representa os romances históricos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O homem sem qualidades II

Depois de várias horas de volta de Robert Musil, apresentamos desta feita a crítica ao segundo volume de O homem sem qualidades, magna obra deste escritor austríaco que a deixou incompleta.
O segundo volume desta obra, inicia-se com a morte do pai da personagem principal. Na sequência deste acontecimento, Urlich desloca-se até à sua terra natal onde vem a redescobrir a sua única irmã, sendo que a partir daí, todo o segundo volume recentra a sua orientação na relação entre os dois irmãos.
A ideia central da narrativa, não é apesar de tudo, afastada. Continua-se numa demanda por uma ideia fantástica, aludindo-se frequentemente a problemas metafísicos dissertando o autor sobre os mesmos. Parece-nos inclusive, que toda a narrativa apenas acontece para que Musil possa expor os seus pensamentos de uma forma mais ou menos ordenada.
Este volume de O homem sem qualidades não é o derradeiro, na medida em que existem notas para um terceiro volume que deverão ser editadas durante este ano.
Não podemos negar que ler esta obra de Musil é um feito complicado. Não sendo um romance – apesar da similitude em alguns momentos – o ritmo de leitura é lento e muitas vezes difícil de compreender.
Apesar de tudo é uma obra de referência.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os Pilares da Terra II

Cumpre-nos hoje analisar o segundo volume de Os Pilares da Terra, monumental obra do britânico Ken Follett.
Como já havíamos dito na crítica ao primeiro volume, esta obra de Follett é um misto de romance histórico e policial, com todos os ingredientes que fazem com que os leitores se deixem prender e não consigam deixar de ler a obra.
A obra é complexa e simples ao mesmo tempo. Complexa porque se desenrola durante mais de 1000 páginas e cerca de 70 longos anos e porque envolve a participação activa de dezenas de personagens mais ou menos elaboradas. Simples porque a linguagem utilizada é acessível, porque tudo parece estar correctamente interligado e porque a narrativa é cativante.
Apesar de ser um bom livro e de o autor sem obviamente um grande contador de estórias, a verdade é que o livro parece ser um pouco excessivo em tamanho. Talvez não existisse necessidade de prolongar durante tanto tempo a luta eivada de um maniqueísmo dicotómico entre os bons e os maus.
Não conhecemos com suficiência a história da Inglaterra medieval do século XII. A verdade é que as ilhas britânicas na altura eram bem pobres cultural e tecnicamente e nunca nos sentimos fascinados pela sua realidade. Apesar de tudo, Follett apresentou-nos uma visão política da época extremamente bem conseguida, talvez porque a intriga política seja sempre um tema apetecível. Esta temática é um das principais deste segundo volume, assumindo uma preponderância enorme.
Em suma, Os Pilares da Terra são um bom romance histórico-policial e uma obra que tendo cativado ao longo dos últimos 20 anos milhares de leitores continuará a faze-lo no futuro. Para todos os amantes deste género de literatura, este é um livro a não perder!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Os Pilares da Terra I

Os Pilares da Terra é uma obra em dois volumes (cumpre-nos agora analisar o primeiro) do conhecido escritor britânico Ken Follett que costuma presentear os seus inúmeros leitores com obras particularmente entusiasmantes.
Este livro de Follett é um misto de romance histórico e policial, que retrata a idade média inglesa (meados do século XII) numa encruzilhada de religião (que envolve a construção de uma catedral) e lutas pelo poder ao bom estilo dos romances de cavalaria.
Neste livro Follett oferece-nos uma palete ampla de personagens. Cuidadoso na pintura, Follett oferece-nos um mundo medieval à imagem dos filmes de Hollywood, repleto de damas e cavaleiros, bispos e reis, numa luta desordenada em busca de um bem maior, onde as personagens assumem na perfeição a imagem pincelada de um maniqueísmo dualista própria das estórias mais cativantes.
Para além de um rico leque de personagens, toda a trama é bastante fascinante, existindo múltiplas voltas e reviravoltas próprias dos policiais e que nos prendem página após página ao livro, numa ânsia sôfrega de saber o que ia na mente do autor.
Ficamos, após a leitura deste primeiro volume, particularmente interessados na continuação deste romance. A forma fácil e simples como Follett escreve funciona como bálsamo para todos aqueles que gostam de ler. É até ao momento um livro altamente recomendável.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O homem sem qualidades I

O homem sem qualidades é uma grandiosa obra de Robert Musil, escritor austríaco que nos legou um importante espólio literário onde se destaque este incompleto romance.
Antes de mais é fundamental deixar claro que Musil é um homem de grande cultura, tendo estudado engenharia e mais tarde filosofia, matemática e psicologia, tendo-se doutorado pela Universidade de Berlim em 1908.
Pelo seu turno, O homem sem qualidades (analisamos aqui o primeiro volume de 3) é um livro inexplicável, inarrável, majestoso e que nos coloca imensas dificuldades na sua análise.
Esta obra está repleta de um conjunto amplíssimo de personagens, todas elas descritas (num ponto de vista metafísico) até à exaustão, interligadas através do contacto directo, ou pelo menos com a realidade, da personagem que ocupa o epicentro da narrativa: Urlich.
Para além desta personagem central, existe uma temática que parece ser objecto secundário deste romance (optamos pela qualificação como romance, por exclusão de partes e de não sabermos como o qualificar), que se relacionado com as comemorações do jubileu relativas ao Imperador Austríaco Francisco José I, ao foi atribuído o nome de “Acção Paralela”.
Apesar de existirem estes dois conteúdos que são constantes ao longo da narrativa, Musil inunda-nos ao longo desta obra com uma miríade de referências literárias e culturais (muitas das quais nunca tinha ouvido sequer falar), impressas na própria obra, ou através de citações devidamente identificadas.
Acresce ainda à irredutível cultura do autor – que nos deixa avassalados e contundidos – que este livro está repleto de meta-reflexões sobre o sentido da existência, o homem, a vida e as mais impensáveis questões que podem afectar a humanidade.
Este é um livro inacabado – apesar da obra continuar por mais dois volumes, dos quais daremos conta brevemente – pelo que não sabemos se será possível adquirir a plenitude do pensamento do autor quando se propôs a escrever esta obra. Não podemos no entanto deixar de aconselhar a leitura de O homem sem qualidades, que corresponde por inteiro à fama com o qual vem catalogado. Este é, certamente e apesar das muitas dificuldades, uma das maiores obras literárias que tivemos oportunidade de ler até hoje.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Meu Portugal brasileiro

Meu Portugal brasileiro é o mais recente romance de José Jorge Letria, conhecido jornalista, que retrata a estória de um jovem militar português que se vê envolvido na rocambolesca debandada portuguesa para o Brasil a quando das invasões francesas.
Este livro é um típico romance histórico que trata um tema que tema que tem preenchido muitas páginas ao longo dos últimos anos: a presença da corte portuguesa no Brasil e a subsequente independência deste país.
José Jorge Letria, baseando-se numa personagem fictícia, ilustra-nos ao longo desta obra a realidade da corte portuguesa naquele território da América do Sul e elucida-nos sobre a realidade da família real e do crescimento da colónia até atingir o patamar de maturidade política que lhe permitiu a independência sob o império de D. Pedro.
Para embelezar uma estória que não tem nada de original, o autor pinta-nos a realidade através de um jovem militar que acompanha de perto a realidade da corte. A particularidade da estória, é que José Jorge Letria confere uma importância decisiva a esta personagem que ocupa, na primeira pessoa, o centro da narrativa.
Esta é uma obra agradável, embora padeça de dois grandes vícios: em primeiro lugar o autor, na tentativa de querer ser historicamente correcto, inclui demasiados pormenores na narrativa, mesmo que os mesmos não se enquadrem na globalidade da obra; em segundo lugar, a forma como a personagem principal está criada é surreal, na medida em que representa o homem perfeito que praticamente só tem virtudes. É culto, cavalheiro, erudito, leal, submisso, curioso, galante entre um conjunto de outros adjectivos que apenas o beneficiariam.
No computo geral, podemos dizer que é um livro simpático e de leitura fácil e que para os amantes deste período da história poderá ser uma mais-valia.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Nova Lusitânia

Nova Lusitânia é um livro de Aydano Roriz, autor brasileiro na área dos romances históricos, que nos narra a vida de Duarte Pinheiro (capitão donatário de uma parcela das possessões portuguesas na América do Sul) no período áureo dos descobrimentos portugueses.
Roriz, baseando-se numa personagem histórica, reconstitui a vida de um português deste a sua mais tenra infância na zona do Porto até ao ocaso da sua vida depois de ter estado no meio mundo português da época.
O estilo de Roriz é simples. A leitura é agradável e leve. Apesar de tudo, são frequentes as analepses, recurso muito utilizado por este autor para recordar momentos passados das personagens.
Naturalmente que não estamos presentes perante um grande clássico da literatura mundial, mas seguramente que todos aqueles que gostam dos romances históricos pela possibilidade que estes conferem de adquirir mais alguns conhecimentos de um determinado assunto específico, vão ficar agradados com esta obra.