sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O mistério da estrada de Sintra

O mistério da estrada de Sintra é uma obra de Eça de Queirós em parceria com Ramalho Ortigão que foi pela primeira vez lançada sob a forma de livro no ano de 1884.
Esta é uma obra atípica. Escrita por estes dois grandes nomes da literatura portuguesa do século XIX, foi inicialmente publicada por meio de cartas anónimas enviadas para o Diário de Notícias e aí publicadas, tentando retratar uma situação verifica e real.
A narrativa inicia-se com o rapto de dois amigos que se dirigiam para Sintra por um conjunto de homens mascarados. Na sequência, os dois amigos são levados – com os olhos vendados como em qualquer bom mistério – para uma casa de forma a identificar um cadáver.
A estória é contada através de um conjunto de cartas que as personagens vão enviando para o jornal, sendo dessa forma que os leitores vão conhecendo mais pormenores.
A narrativa não é fantástica, mas é bastante divertida. Tem demasiadas condessas, militares e espanholas loucas, mas não conseguimos deixar de rir em muitas das passagens do livro e talvez devido ao ridículo em que as personagens se transformam.
Os próprios autores reconhecem a infantilidade da obra, embora tenham ficado satisfeitos com o facto de terem cumprido um dos seus principais objectivos: quebrar a monotonia que entorpecia as mentes da época.
É um livro interessante sem ser fantástico. Vale, sobretudo, pelo mistério que os autores conseguiram imprimir à narrativa e sendo uma obra do mestre Eça de Queirós, não poderíamos nunca deixar de aconselhar a sua leitura.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Os Fidalgos da Casa Mourisca

Os Fidalgos da Casa Mourisca é uma obra de Júlio Dinis passada numa aldeia do Alto Minho e que retrata o confronto entre a burguesia em ascensão e a meteórica queda de uma nobreza decrépita e falida.
Da obra que lemos até agora deste autor, este é o livro que se assemelha mais ao romance tradicional onde o foco principal não recai tanto na ilustração de uma determinada realidade social mas antes nos amores entre dois jovens de realidades sociais diversas.
Apesar do carácter romântico assumir o papel de destaque Júlio Dinis nesta obra põe a nu a fragilidade de uma nobreza fidalga em declínio que se limita a viver de um nome que cada vez vale menos numa ilusão utópica da manutenção de um status quo que já não tem. Existe também uma ligeira abordagem dos problemas relativos às alterações profundas na sociedade portuguesa decorrentes do fim de alguns privilégios de classe que o liberalismo político ofereceu ao século XIX português.
No entanto, e como dissemos supra, o objecto principal desta obra são as relações pessoais que se estabelecem entre duas famílias de classes sociais distintas e que condicionam toda a narrativa.
Júlio Dinis neste livro apresenta-nos personagens bem desenhadas e oferece-nos a possibilidade de entrarmos bem fundo dentro dos seus mais íntimos pensamentos. A imagem das paisagens bucólicas do campo é-nos descrita com prazer e cor, sendo certo que rapidamente nos apaixonamos por toda aquela realidade – que em algumas circunstâncias e com autores menos talentosos cheiraria a mofo – o que faz com que não consigamos deixar de ler num ápice a obra.
Como é hábito não nos vamos pronunciar sobre o teor da narrativa e não desenvolveremos mais as personagens uma vez que consideramos que é neste campo que está a forma deste romance. Este é, obviamente, um livro que aconselhamos. Júlio Dinis é, certamente, um dos maiores autores da língua portuguesa e cada vez mais consideramos imprescindível na formação de qualquer leitor.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Banqueiro Anarquista

O Banqueiro Anarquista é um pequeno conto (pouco mais de sessenta páginas) da autoria de Fernando Pessoa que retrata uma conversa com um banqueiro que se diz anarquista.
Esta obra de Fernando Pessoa, que se lê num fôlego, é uma interessante perspectiva dada por um banqueiro da sua visão do movimento anarquista, sendo um excelente exercício retórico sobre uma doutrina política muito em voga nas primeiras décadas do século XX.
O estilo simples e despretensioso de Pessoa, constitui uma agradável surpresa tendo em conta que o tema em análise é de uma profundidade teórica assinalável.
O banqueiro, única personagem relevante desta obra, procura explicar os fundamentos práticos do anarquismo, sendo certo que se afasta da visão tradicional desta doutrina e usa como exemplo a sua própria experiencia.
É um livro, que apesar de versar sobre um tema de filosofia política, não deixa de ser muito interessante e que, portanto, não podemos deixar de aconselhar vivamente.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Fim da História e o Último Homem

O Fim da História e o Último Homem é um livro de Francis Fukuyama, autor norte-americano, professor de Economia Política Internacional, que proclama uma teoria que defende o fim da história com o advento da democracia liberal capitalista.
Durante mais de 300 páginas, Fukuyama, fazendo uso do pensamento filosófico-político de um conjunto de autores históricos como Platão, Hegel, Marx, tenta demonstrar que nos aproximamos, como sociedade global, do fim da história, não no sentido do fim da linha histórica, mas sim na perspectiva de que, como sociedade, não conseguiremos alcançar um patamar de desenvolvimento superior àquele que conseguimos com as democracias liberais capitalistas que têm dominado a forma de governo no mundo com particular ênfase no pós queda das ditaduras de esquerda e de direita no mundo.
Não vamos aqui discutir a bondade ou a verdade da tese defendida por Fukuyama. Não é o espaço nem temos o tempo para o fazer, mas podemos dizer que esta tese – como quase todas – não está isenta de falhas e de falsas conjecturas.
Na nossa opinião, este é um livro excepcionalmente complexo – está muito longe de ser um romance e de ter a sua fórmula – e que apenas poderá ser apreciado por aqueles que procuram respostas para a actual sociedade e que têm noções básicas de filosofia política, de história das instituições e da história do pensamento político. Seja como for, não o podemos nunca deixar de aconselhar a todos aqueles que preencham estes requisitos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

As paixões de Júlia

As paixões de Júlia, é uma fantástica obra do escritor Somerset Maugham que relata a vida de uma mulher que se transforma paulatinamente numa deusa da arte de bem representar no teatro londrino dos anos trinta do século XX.
Nesta obra de Maugham, que é um profundo conhecedor do mundo do teatro em virtude de além de romancista ter sido também dramaturgo, traz-nos a estória de uma mulher que atinge o estrelato na cidade de Londres à custa de um talento estonteante que faz da sua representação a mais brilhante do seu tempo.
A obra relata a vida de Júlia Lambert e a forma como se relaciona apaixonadamente com todos os homens da sua vida, quase sempre de uma forma arrebatadora e violenta, sendo capaz de amar rapidamente e com toda a intensidade possível e de deixar de amar com a mesma velocidade.
No entanto, no nosso entender, a verdadeira mestria deste livro não reside no relato dos factos que fazem de uma obra um romance, mas sim na profundidade que Maugham consegue dar às suas personagens. Júlia Lambert é uma personagem descrita até à exaustão e com uma perfeição que é difícil encontrar na literatura dos nossos dias. Maugham tem o génio de através das palavras descrever, não apenas ambientes e locais, mas sobretudo personalidades e sentimentos.
Já anteriormente tinham sido confrontados com o perfeccionismo de Maugham. Em No fio da navalha, este autor já nos tinha presenteado com o brilhantismo que está apenas ao alcance de alguns, o que voltou a fazer com na obra em análise.
Como é óbvio pelos elogios que tecemos supra ao autor e ao livro, aconselhamos vivamente a leitura desta obra. É uma maravilha que não pode deixar de fazer parte da biblioteca pessoal de cada um de nós.