terça-feira, 30 de setembro de 2008

A Morgadinha dos Canaviais

A Morgadinha dos Canaviais é uma magnífica obra novecentista do escritor português Júlio Dinis que versa, sob a forma de romance, sobre a vida campestre portuguesa em meados de oitocentos.
Júlio Dinis, através de uma técnica literária bastante aprofundada, ao bom estilo da época, escreve um romance, em muitas partes, satírico, sobre a realidade da vida do campo, através do recurso a personagens tipo, de forma a retractar o mais fielmente possível uma realidade verdadeiramente fantástica.
A estória principia com a chegada de Henrique – jovem lisboeta repleto dos vícios da vida em cidade – a uma aldeia do Minho, onde se procura restabelecer de doenças do espírito.
Nesta aldeia, pobre em ocupações e na folia da cidade, Henrique encontra na família do conselheiro – na altura da narrativa, ilustre deputado da nação – um porto seguro que lhe permite a manutenção do status quo da cidade.
Não querendo, obviamente, avançar na narração da estória, não podemos deixar de referir no entanto, a importância deste facto para o desenrolar da obra, pois é na casa do Mosteiro que Henrique conhece as primas Madalena (ou Morgadinha dos Canaviais) e Cristina.
De entre todas as aventuras que se desenrolam, não podemos deixar de chamar à atenção para o acto eleitoral que serve de epíteto ao livro. A crítica social aos caudilhos, ao compadrio, à cunha, atinge com esta descrição o seu ponto mais alto.
Júlio Dinis, revelou-se aos nossos olhos com esta obra, como um prodigioso escritor. Como uma escolha de palavras apurada, com descrições minuciosas e cativantes, com uma estória bem arrumada e interessante, A Morgadinha dos Canaviais, tornou-se numa obra de referência na nossa biblioteca.
Face ao exposto, não podemos deixar de aconselhar muito a leitura deste livro. Apesar do tamanho, é uma obra que se lê com entusiasmo e satisfação e um excelente exemplo do nível elevado da literatura portuguesa do século XIX.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira é uma genial obra do Nóbel português José Saramago, que retrata uma sociedade atingida por uma cegueira generalizada e os seus efeitos nas pessoas e na organização do mundo.
Esta obra de José Saramago, que é nas suas próprias palavras "um livro brutal e violento", faz apelo ao mais fantasmagóricos sentimentos que povoam o espírito humano, através de uma alegoria brilhantemente conseguida baseada da cegueira - num entendimento que não será meramente literal, mas profundamente metafórico.
A estória deste livro não se passa em nenhum local em particular. Sabemos, pelas informações que o autor nos fornece, que o seu centro é uma cidade, mas sem região, país, ou continente.
As personagens não têm nome, sendo que o autor nem sequer nos dá a sua idade. As personagens são identificadas pelas suas profissões, ou por alguma caracteristica que as possa distinguir uma das outras.
A falta de caracterização profunda das personagens revela, no nosso entender, um dos principais objectivos de Saramago: esta é um livro que conta uma estória que poderia ser de qualquer um.
Esta é uma obra, na nossa opinião, que entra bem fundo na natureza do ser humano, quando confrontado com a anarquia - ainda que no caso decorrente de uma realidade estranha à humanidade.
Apesar de ser um mero exercicio teórico, estamos em crer que Saramago terá conseguido desenvolver com realismo e plausibilidade a sua ideia.
Face ao que escrito supra, não podemos deixar de aconselhar esta obra brilhante do Nóbel português, sem, uma vez mais, deixar de alertar os possiveis leitores para a violência e brutalidade da descrição.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O número de Deus

O número de Deus, é um romance histórico da autoria de José Luis Corral, autor espanhol e Professor de História Medieval.
Este livro debruça-se, principalmente, sobre a construção das catedrais góticas de Leão e Burgos do século XIII, com particular ênfase sobre o método seguido e nas variantes históricas – mortes de reis, de bispos, guerras, vicissitudes de outra ordem, etc. – directamente relacionadas com a construção destes templos.
A acompanhar a excelente descrição histórica – o autor tem o dom de o fazer de uma forma simples e apelativa – desenrola-se a estória de Teresa e Henrique, respectivamente mestra de pintura e mestre-de-obras das referidas catedrais.
O autor escolher fazer coincidir o tempo de vida destas duas personagens com as construções das referidas catedrais, sendo que existe um relação simbiótica entre entes dois factos.
Se quando às referências históricas nada temos a apontas, o mesmo já não se passa relativamente ao desenvolvimento das personagens.
Na nossa opinião, as personagens não estão suficientemente desenvolvidas. Ademais, a estória é fraca. Os acontecimentos são forçados para que o autor consiga atingir um objectivo predefinido.
Apesar das falhar apontadas, a verdade é que com o desenrolar da estória no vamos paulatinamente aproximando do romance e, no fim, acabamos também por nos sentir parte da estória e por sofrer com as personagens.
Não é um livro excelente – nem mesmo dentro dos romances históricos – talvez em grande parte porque o autor – evidentemente culto na nossa opinião – quis colocar muita informação sobre este período histórico na obra, mas será pelo menos razoável e aconselhável para quem se interesse por arte – em particular pelo estilo gótico, sendo de aconselhar a visita às duas catedrais a que o livro faz referência – pela Idade Média e por história.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

As vinhas da ira

As vinhas da ira é uma obra de John Steinbeck – escritor norte-americano que recebeu o Prémio Nobel da Literaturatura em 1962 – que conta a estória da família Joad, que após ter visto as suas terras de cultivo fustigas por anos vários anos de seca e de tempestades de areia, foi obrigada a abandonar o lar – Estados do Texas e de Oklahoma – em direcção à Califórnia numa ténue tentativa de encontrar trabalho.
Este livro de Steinbeck, apesar de ser um relato ficcional tem por base uma realidade que assolou os Estados Unidos da América na década de 30 do século passado.
A jornada da família Joad é o resultado conjugado dos efeitos nefastos da Grande Depressão de 1929 e as secas e tempestades de poeira no Sul do Estados Unidos da América.
Esta é uma obra comovente. As dificuldades enfrentadas por esta família – que personificam a estória de milhares de outras famílias nas mesmas condições – são aterradoramente tristes.
Obrigados a percorrer milhares de quilómetros, longe do conforto do lar, a família Joad vai-se lentamente desmembrando.
Perseguidos – devido à sua proveniência – e explorados – devido ao excesso de mão-de-obra disponível devido às migrações em massa – os Joad conseguem sempre, porque se esforçam por manter unidos durante o maior tempo possíveis, ir ultrapassando as suas dificuldades, quase sempre conseguindo manter a cabeça erguida.
Na nossa opinião, é possível que este não seja apenas uma mero romance. De uma determinada perspectiva, este pode ser um manifesto político de esquerda que reage contra os latifúndios continentais dos grandes proprietários face à pobreza estrema dos sem terra da década de 30 americana.
Ficámos impressionados com a qualidade da descrição e da capacidade do autor nos manter presos a este livro. Apesar de ter, na nossa opinião, uma profunda carga política, este não deixa de ser um maravilhoso romance e uma obra-prima da literatura americana do século XX que não podemos deixar de aconselhar.

domingo, 7 de setembro de 2008

Cultura

Cultura é um livro de Dietrich Schwanitz, autor alemão e antigo professor universitário de cultura e literatura inglesa na Universidade de Hamburgo, que pretende constituir um almanaque sobre o mais importante que um indivíduo deve saber para se considerar um Homem culto.
Durante mais de 500 páginas, o autor tenta que o leitor absorva centenas de referências culturais, que se baseiam num critério absolutamente arbitrário e toldadas pela visão que na sociedade alemã existe daquilo que é ou não saber que constitui cultura.
O autor escreve sobre literatura, história, filosofia, musica e estabelece um índice de matérias, assuntos, autores, períodos e factos históricos que devem ser do conhecimento geral.
No nosso entender, para além da arbitrariedade da escolha dos temas – que fica por explicar – existem notórios lapsos nas referências feitas, numa clara sobreposição dos factos e períodos históricos que marcaram a cultura anglo-saxónica, sendo curtas ou quase inexistentes as referências às realidades culturais de todo o resto do mundo.
O projecto a que o autor se propôs não é possível sem que se verifiquem os lapsos a que fizemos referência. A cultura não é uma realidade estanque e varia, naturalmente, de acordo com a realidade local de cada espaço territorial. Este não é, portanto, um livro que possamos aconselhar como de leitura obrigatória, ou sequer recomendada.