domingo, 28 de dezembro de 2008

Mulheres 2.0: o amor nos tempos da blogosfera

Mulheres 2.0: o amor nos tempos da blogosfera, é o primeiro livro de João Gomes, jovem autor português, antigo colega da Faculdade de Direito de Lisboa, editor da Chiado Editora e director do jornal Portal Lisboa.
João Gomes nesta obra pretende dar a conhecer quatro estórias de mulheres do século XXI português e mais particularmente episódios da vida de quatro lisboetas confrontadas com os problemas diários de uma geração que definitivamente se emancipou dos resquícios conservadores do século XX.
A obra é simples e pequena. Resulta de um esforço difícil para um homem, que é o de se colocar na pele de mulher e sentir como estas sentem.
Para nós, que temos um vínculo de amizade com o autor é-nos difícil fazer uma análise perfeitamente imparcial da obra. A editora é pequena pelo que o livro acabará por não conseguir uma expressão comercial significativa, mas estamos em crer que a publicação desta obra possa servir para lançar o João para voos mais altos.
Assim sendo, e ao contrário do que habitualmente fazemos, hoje não deixamos aqui um conselho sobre se vale ou não a pena ler o livro. Não seria justo para com o nosso amigo João Gomes e sobretudo não seria justo para com os nossos leitores.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Malhadinhas

O Malhadinhas é um livro de Aquilino Ribeiro que, na edição que tivemos oportunidade de ler, inclui ainda a novela Mina de Diamantes.
Este livro, que é então a junção de dois trabalhos diferentes, inclui uma primeira novela a que o autor deu o nome de O Malhadinhas, que retrata a estória de um almocreve beirão e as suas múltiplas aventuras, desde a sua juventude até à velhice.
Está escrito numa linguagem rústica em grande parte porque acreditamos que foi esse o desejo do autor que mostra uma inigualável capacidade de expressão num vocabulário vernáculo bem representativo da época histórica e da região que pretende ilustrar.
A estória é divertida e coloca em causa alguns dos princípios morais a que estamos habituados nos dias de hoje, sendo certo que a forma encontrada por Aquilino para nos dar a conhecer o Malhadinhas nos permite manter uma certa equidistância face às opções assumidas pela personagem.
Já a novela Mina de Diamantes se desenvolve em duas realidades físicas distintas. Uma primeira fase no Brasil – mais precisamente no Rio de Janeiro – e depois em Portugal. É a estória de um emigrante português na América do Sul que regressa ao seu país de origem para visitar a família.
Esta última, é uma novela cáustica. Põe em causa as motivações de um homem que se faz apresentar na sua terra natal como se fosse dono de uma mina de diamantes, distribuindo benesses pelos conterrâneos ao ponto de ser condecorado e chamado de Comendador.
Não podemos dizer que este livro nos tenha entusiasmado particularmente. As narrativas são morfologicamente ricas e estão efectivamente escritas com labor e arte, mas o vocabulário utilizado é confuso e difícil e nem por isso as estórias são particularmente interessantes. No entanto, para os amantes da literatura em língua portuguesa, o nome de Aquilino Ribeiro continua e continuará a ser incontornável.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O jogo do Anjo

O jogo do Anjo é o mais recente romance do catalão Carlos Ruiz Zafón, autor do célebre A sombra do vento e um dos mais aclamados e brilhantes escritores da actualidade.
À semelhança do seu anterior romance, a nova obra de Zafón decorre na maravilhosa cidade de Barcelona e tem como epicentro da estória os livros que parecem ser uma constante feliz.
Ao contrário do que possa à primeira vez parecer, esta obra de Zafón não é fácil. Para além da evidente trama onde David Martin assume o papel principal como escritor, a verdade é que o livro consegue ir muito mais longe. Tem um certo tom místico e secreto, uma estória encoberta e onde as personagens deixam de estar presas à realidade concreta para serem de origem metafísica e irreal. Estamos mesmo em crer que a verdadeira estória nem sequer chega a ser contada e o todo o livro é um breve prelúdio para algo que ficou por escrever.
A escrita de Zafón é fluida, melódica, simples ritmada e metódica. Cada capítulo encerra uma acção e abre o apetite para a acção seguinte. O autor consegue com que o leitor viva num rodopio constante, numa ânsia vertiginosa em busca da revelação da página seguinte. As últimas páginas então, decorrem numa velocidade alucinante.
Posto isto é fundamental referir que o livro não é apenas um romance, visto que é também um policial de grande qualidade.
As personagens estão fantasticamente definidas com sal e pimenta. Transpiram toda a informação necessária e não contam mais do que o essencial para que não consigamos deixar de tentar perscrutar na mente do autor os mais ínfimos pensamentos que estiveram na origem da criação de cada uma das personagens.
As descrições, quer dos lugares, quer da narrativa são de enormíssima qualidade. Estamos em crer que Zafón é um dos escritores da actualidade que consegue brilhar mais nas suas pinturas. A palete de cores que tem na sua disponibilidade parece infindável. Cada nova acção é mosqueada com pura poesia.
A escrita de Zafón é cativante. Não poderíamos nunca dormir descansados se não aconselhássemos vivamente a leitura deste livro. É uma pérola que tem de constar em todas as bibliotecas pessoais.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O mistério da estrada de Sintra

O mistério da estrada de Sintra é uma obra de Eça de Queirós em parceria com Ramalho Ortigão que foi pela primeira vez lançada sob a forma de livro no ano de 1884.
Esta é uma obra atípica. Escrita por estes dois grandes nomes da literatura portuguesa do século XIX, foi inicialmente publicada por meio de cartas anónimas enviadas para o Diário de Notícias e aí publicadas, tentando retratar uma situação verifica e real.
A narrativa inicia-se com o rapto de dois amigos que se dirigiam para Sintra por um conjunto de homens mascarados. Na sequência, os dois amigos são levados – com os olhos vendados como em qualquer bom mistério – para uma casa de forma a identificar um cadáver.
A estória é contada através de um conjunto de cartas que as personagens vão enviando para o jornal, sendo dessa forma que os leitores vão conhecendo mais pormenores.
A narrativa não é fantástica, mas é bastante divertida. Tem demasiadas condessas, militares e espanholas loucas, mas não conseguimos deixar de rir em muitas das passagens do livro e talvez devido ao ridículo em que as personagens se transformam.
Os próprios autores reconhecem a infantilidade da obra, embora tenham ficado satisfeitos com o facto de terem cumprido um dos seus principais objectivos: quebrar a monotonia que entorpecia as mentes da época.
É um livro interessante sem ser fantástico. Vale, sobretudo, pelo mistério que os autores conseguiram imprimir à narrativa e sendo uma obra do mestre Eça de Queirós, não poderíamos nunca deixar de aconselhar a sua leitura.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Os Fidalgos da Casa Mourisca

Os Fidalgos da Casa Mourisca é uma obra de Júlio Dinis passada numa aldeia do Alto Minho e que retrata o confronto entre a burguesia em ascensão e a meteórica queda de uma nobreza decrépita e falida.
Da obra que lemos até agora deste autor, este é o livro que se assemelha mais ao romance tradicional onde o foco principal não recai tanto na ilustração de uma determinada realidade social mas antes nos amores entre dois jovens de realidades sociais diversas.
Apesar do carácter romântico assumir o papel de destaque Júlio Dinis nesta obra põe a nu a fragilidade de uma nobreza fidalga em declínio que se limita a viver de um nome que cada vez vale menos numa ilusão utópica da manutenção de um status quo que já não tem. Existe também uma ligeira abordagem dos problemas relativos às alterações profundas na sociedade portuguesa decorrentes do fim de alguns privilégios de classe que o liberalismo político ofereceu ao século XIX português.
No entanto, e como dissemos supra, o objecto principal desta obra são as relações pessoais que se estabelecem entre duas famílias de classes sociais distintas e que condicionam toda a narrativa.
Júlio Dinis neste livro apresenta-nos personagens bem desenhadas e oferece-nos a possibilidade de entrarmos bem fundo dentro dos seus mais íntimos pensamentos. A imagem das paisagens bucólicas do campo é-nos descrita com prazer e cor, sendo certo que rapidamente nos apaixonamos por toda aquela realidade – que em algumas circunstâncias e com autores menos talentosos cheiraria a mofo – o que faz com que não consigamos deixar de ler num ápice a obra.
Como é hábito não nos vamos pronunciar sobre o teor da narrativa e não desenvolveremos mais as personagens uma vez que consideramos que é neste campo que está a forma deste romance. Este é, obviamente, um livro que aconselhamos. Júlio Dinis é, certamente, um dos maiores autores da língua portuguesa e cada vez mais consideramos imprescindível na formação de qualquer leitor.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Banqueiro Anarquista

O Banqueiro Anarquista é um pequeno conto (pouco mais de sessenta páginas) da autoria de Fernando Pessoa que retrata uma conversa com um banqueiro que se diz anarquista.
Esta obra de Fernando Pessoa, que se lê num fôlego, é uma interessante perspectiva dada por um banqueiro da sua visão do movimento anarquista, sendo um excelente exercício retórico sobre uma doutrina política muito em voga nas primeiras décadas do século XX.
O estilo simples e despretensioso de Pessoa, constitui uma agradável surpresa tendo em conta que o tema em análise é de uma profundidade teórica assinalável.
O banqueiro, única personagem relevante desta obra, procura explicar os fundamentos práticos do anarquismo, sendo certo que se afasta da visão tradicional desta doutrina e usa como exemplo a sua própria experiencia.
É um livro, que apesar de versar sobre um tema de filosofia política, não deixa de ser muito interessante e que, portanto, não podemos deixar de aconselhar vivamente.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Fim da História e o Último Homem

O Fim da História e o Último Homem é um livro de Francis Fukuyama, autor norte-americano, professor de Economia Política Internacional, que proclama uma teoria que defende o fim da história com o advento da democracia liberal capitalista.
Durante mais de 300 páginas, Fukuyama, fazendo uso do pensamento filosófico-político de um conjunto de autores históricos como Platão, Hegel, Marx, tenta demonstrar que nos aproximamos, como sociedade global, do fim da história, não no sentido do fim da linha histórica, mas sim na perspectiva de que, como sociedade, não conseguiremos alcançar um patamar de desenvolvimento superior àquele que conseguimos com as democracias liberais capitalistas que têm dominado a forma de governo no mundo com particular ênfase no pós queda das ditaduras de esquerda e de direita no mundo.
Não vamos aqui discutir a bondade ou a verdade da tese defendida por Fukuyama. Não é o espaço nem temos o tempo para o fazer, mas podemos dizer que esta tese – como quase todas – não está isenta de falhas e de falsas conjecturas.
Na nossa opinião, este é um livro excepcionalmente complexo – está muito longe de ser um romance e de ter a sua fórmula – e que apenas poderá ser apreciado por aqueles que procuram respostas para a actual sociedade e que têm noções básicas de filosofia política, de história das instituições e da história do pensamento político. Seja como for, não o podemos nunca deixar de aconselhar a todos aqueles que preencham estes requisitos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

As paixões de Júlia

As paixões de Júlia, é uma fantástica obra do escritor Somerset Maugham que relata a vida de uma mulher que se transforma paulatinamente numa deusa da arte de bem representar no teatro londrino dos anos trinta do século XX.
Nesta obra de Maugham, que é um profundo conhecedor do mundo do teatro em virtude de além de romancista ter sido também dramaturgo, traz-nos a estória de uma mulher que atinge o estrelato na cidade de Londres à custa de um talento estonteante que faz da sua representação a mais brilhante do seu tempo.
A obra relata a vida de Júlia Lambert e a forma como se relaciona apaixonadamente com todos os homens da sua vida, quase sempre de uma forma arrebatadora e violenta, sendo capaz de amar rapidamente e com toda a intensidade possível e de deixar de amar com a mesma velocidade.
No entanto, no nosso entender, a verdadeira mestria deste livro não reside no relato dos factos que fazem de uma obra um romance, mas sim na profundidade que Maugham consegue dar às suas personagens. Júlia Lambert é uma personagem descrita até à exaustão e com uma perfeição que é difícil encontrar na literatura dos nossos dias. Maugham tem o génio de através das palavras descrever, não apenas ambientes e locais, mas sobretudo personalidades e sentimentos.
Já anteriormente tinham sido confrontados com o perfeccionismo de Maugham. Em No fio da navalha, este autor já nos tinha presenteado com o brilhantismo que está apenas ao alcance de alguns, o que voltou a fazer com na obra em análise.
Como é óbvio pelos elogios que tecemos supra ao autor e ao livro, aconselhamos vivamente a leitura desta obra. É uma maravilha que não pode deixar de fazer parte da biblioteca pessoal de cada um de nós.

sábado, 25 de outubro de 2008

Fome

Fome, é uma obra do laureado com o prémio Nobel da Literatura no ano de 1920, Knut Hamsun, que retrata a os devaneios de um jovem escritor confrontado com a pobreza extrema e a fome.
Este livro, que conta com um prefácio de Paul Auster, é considerado por muitos uma verdadeira obra-prima literária do final do século XIX e que terá influenciado autores como Franz Kafka e Henry Miller.
Hamsun, descreve, utilizando a personagem como narrador na primeira pessoa, a vida de um jovem escritor na cidade de Kristiania (actualmente Oslo). Desde a primeira página, somos confrontados com a vida diletante de uma personagens que não consegue arranjar maneira de providenciar pelo seu sustento.
A personagem, que vive numa agonia diária em virtude de não ter o que comer, deambula pelas fantasiosas tentativas de produzir artigos para jornais da cidade, numa luta desenfreada com a satisfação das suas necessidades mais básicas. Na maior parte dos dias, não tem o que comer e não é capaz de pagar um alojamento. Apesar da miséria extrema com que é confrontado, a personagem consegui resistir, quase que estoicamente, a se tornar num pedinte ou ladrão.
Ao longo da narrativa, ficamos muitas vezes com a ideia de que esta personagem – quase que a única, porque nenhuma das personagens secundárias tem destaque suficiente – vive num estado de loucura, provavelmente induzida pela fome que o impede de raciocinar e de optar pelas soluções mais vantajosas.
Apesar de tudo, a loucura de que falamos, é susceptível de ser confundida com uma profunda luta interior da personagem que batalha arduamente por se guiar de acordo com um elevado padrão de moralidade. Daí que se recuse a roubar; que não aceita esmolas; que, apesar da miséria absoluta em que vive, faça o possível por ajudar os mais pobres.
Este é um livro interessante. Uma visão realista de uma sociedade em concreto. Um jovem, habituado a conviver com as mais altas classes sociais, erudito, vê-se mergulhado numa desgraça que o destrói.
Desta forma, não deixaremos de aconselhar esta obra de Hamsun e de esperar que outros livros do mesmo autor sejam publicados no nosso país.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O arquipélago da insónia

O arquipélago da insónia é o mais recente livro de António Lobo Antunes um dos mais galardoados escritores portugueses e um nome de vulto na literatura nacional e internacional.
Este livro é um exercício literário de enorme alcance e profundidade, fugindo à regra tradicional do género romance, num conjunto articulado, mas por vezes aparentemente anárquico, de conjugação de interjeições e descrições penetrantes e arrebatadoras.
É difícil definir concretamente o objecto desta obra: talvez relate a estória de uma decadente família de latifundiários, onde se reúnem indivíduos únicos e os seus mais intensos e perturbadores pensamentos.
Não conseguimos afirmar peremptoriamente que determinada personagem é o centro da narrativa, mas podemos dizer que esta função é principalmente desempenhada por um dos elementos mais jovens da família, o neto do patriarca que tudo comanda numa postura de extrema rigidez.
A confusão do estilo seguido, faz-nos perder entre as análises metafísicas do comportamento das personagens que nos dá o narrador. Não existe uma estória estruturada, ou sequer a sua aparência.
É um livro extremamente difícil. Será provavelmente o livro mais complicado que tivemos oportunidade de ler até ao momento. Estamos convencidos, que a originalidade (pelo menos para nós) do estilo não conseguirá entusiasmar a grande maioria dos leitores.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Uma Família Inglesa

Uma Família Inglesa é uma obra do escritor português Júlio Dinis, que versa sobre a vida de uma família inglesa que habita a cidade do Porto na segunda metade do século XIX.
O romance do século XIX português encerra sempre uma certa dose de crítica social reflectida numa panóplia de várias personagem-tipo representativas de grupos que representam determinadas características concretas e distintivas.
Esta obra de Júlio Dinis é um romance na mais conhecida acepção da palavra que conta a estória do jovem de ascendência inglesa Carlos Whitestone, diletante por profissão, que se enamora por uma desconhecida numa festa de Carnaval.
Todo o romance gira em torno deste acontecimento, desenvolvendo as relações familiares em torno de uma peculiar família inglesa – como muitas outra que existiam no Porto e zonas limítrofes durante a época em causa – e as directas incidências junto dos negócios desta família.
As personagens da estória estão bem desenvolvidas e o ambiente que o autor escreve – sendo que nós não conhecemos o Porto do século XIX – é cativante e de certa forma semelhante à imagem que Eça de Queirós nos dá em Os Maias.
Este livro foi lido imediatamente após a leitura de A Morgadinha dos Canaviais. Encontramos nesta obra alguns dos pontos de referência que nos fizeram elogiar a obra maior de Júlio Dinis, mas a verdade é que não consideramos Uma Família Inglesa tão completa e rica como A Morgadinha dos Canaviais. Seja como for, este é um bom exemplo do realismo português que não deixamos de aconselhar.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A Morgadinha dos Canaviais

A Morgadinha dos Canaviais é uma magnífica obra novecentista do escritor português Júlio Dinis que versa, sob a forma de romance, sobre a vida campestre portuguesa em meados de oitocentos.
Júlio Dinis, através de uma técnica literária bastante aprofundada, ao bom estilo da época, escreve um romance, em muitas partes, satírico, sobre a realidade da vida do campo, através do recurso a personagens tipo, de forma a retractar o mais fielmente possível uma realidade verdadeiramente fantástica.
A estória principia com a chegada de Henrique – jovem lisboeta repleto dos vícios da vida em cidade – a uma aldeia do Minho, onde se procura restabelecer de doenças do espírito.
Nesta aldeia, pobre em ocupações e na folia da cidade, Henrique encontra na família do conselheiro – na altura da narrativa, ilustre deputado da nação – um porto seguro que lhe permite a manutenção do status quo da cidade.
Não querendo, obviamente, avançar na narração da estória, não podemos deixar de referir no entanto, a importância deste facto para o desenrolar da obra, pois é na casa do Mosteiro que Henrique conhece as primas Madalena (ou Morgadinha dos Canaviais) e Cristina.
De entre todas as aventuras que se desenrolam, não podemos deixar de chamar à atenção para o acto eleitoral que serve de epíteto ao livro. A crítica social aos caudilhos, ao compadrio, à cunha, atinge com esta descrição o seu ponto mais alto.
Júlio Dinis, revelou-se aos nossos olhos com esta obra, como um prodigioso escritor. Como uma escolha de palavras apurada, com descrições minuciosas e cativantes, com uma estória bem arrumada e interessante, A Morgadinha dos Canaviais, tornou-se numa obra de referência na nossa biblioteca.
Face ao exposto, não podemos deixar de aconselhar muito a leitura deste livro. Apesar do tamanho, é uma obra que se lê com entusiasmo e satisfação e um excelente exemplo do nível elevado da literatura portuguesa do século XIX.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira é uma genial obra do Nóbel português José Saramago, que retrata uma sociedade atingida por uma cegueira generalizada e os seus efeitos nas pessoas e na organização do mundo.
Esta obra de José Saramago, que é nas suas próprias palavras "um livro brutal e violento", faz apelo ao mais fantasmagóricos sentimentos que povoam o espírito humano, através de uma alegoria brilhantemente conseguida baseada da cegueira - num entendimento que não será meramente literal, mas profundamente metafórico.
A estória deste livro não se passa em nenhum local em particular. Sabemos, pelas informações que o autor nos fornece, que o seu centro é uma cidade, mas sem região, país, ou continente.
As personagens não têm nome, sendo que o autor nem sequer nos dá a sua idade. As personagens são identificadas pelas suas profissões, ou por alguma caracteristica que as possa distinguir uma das outras.
A falta de caracterização profunda das personagens revela, no nosso entender, um dos principais objectivos de Saramago: esta é um livro que conta uma estória que poderia ser de qualquer um.
Esta é uma obra, na nossa opinião, que entra bem fundo na natureza do ser humano, quando confrontado com a anarquia - ainda que no caso decorrente de uma realidade estranha à humanidade.
Apesar de ser um mero exercicio teórico, estamos em crer que Saramago terá conseguido desenvolver com realismo e plausibilidade a sua ideia.
Face ao que escrito supra, não podemos deixar de aconselhar esta obra brilhante do Nóbel português, sem, uma vez mais, deixar de alertar os possiveis leitores para a violência e brutalidade da descrição.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O número de Deus

O número de Deus, é um romance histórico da autoria de José Luis Corral, autor espanhol e Professor de História Medieval.
Este livro debruça-se, principalmente, sobre a construção das catedrais góticas de Leão e Burgos do século XIII, com particular ênfase sobre o método seguido e nas variantes históricas – mortes de reis, de bispos, guerras, vicissitudes de outra ordem, etc. – directamente relacionadas com a construção destes templos.
A acompanhar a excelente descrição histórica – o autor tem o dom de o fazer de uma forma simples e apelativa – desenrola-se a estória de Teresa e Henrique, respectivamente mestra de pintura e mestre-de-obras das referidas catedrais.
O autor escolher fazer coincidir o tempo de vida destas duas personagens com as construções das referidas catedrais, sendo que existe um relação simbiótica entre entes dois factos.
Se quando às referências históricas nada temos a apontas, o mesmo já não se passa relativamente ao desenvolvimento das personagens.
Na nossa opinião, as personagens não estão suficientemente desenvolvidas. Ademais, a estória é fraca. Os acontecimentos são forçados para que o autor consiga atingir um objectivo predefinido.
Apesar das falhar apontadas, a verdade é que com o desenrolar da estória no vamos paulatinamente aproximando do romance e, no fim, acabamos também por nos sentir parte da estória e por sofrer com as personagens.
Não é um livro excelente – nem mesmo dentro dos romances históricos – talvez em grande parte porque o autor – evidentemente culto na nossa opinião – quis colocar muita informação sobre este período histórico na obra, mas será pelo menos razoável e aconselhável para quem se interesse por arte – em particular pelo estilo gótico, sendo de aconselhar a visita às duas catedrais a que o livro faz referência – pela Idade Média e por história.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

As vinhas da ira

As vinhas da ira é uma obra de John Steinbeck – escritor norte-americano que recebeu o Prémio Nobel da Literaturatura em 1962 – que conta a estória da família Joad, que após ter visto as suas terras de cultivo fustigas por anos vários anos de seca e de tempestades de areia, foi obrigada a abandonar o lar – Estados do Texas e de Oklahoma – em direcção à Califórnia numa ténue tentativa de encontrar trabalho.
Este livro de Steinbeck, apesar de ser um relato ficcional tem por base uma realidade que assolou os Estados Unidos da América na década de 30 do século passado.
A jornada da família Joad é o resultado conjugado dos efeitos nefastos da Grande Depressão de 1929 e as secas e tempestades de poeira no Sul do Estados Unidos da América.
Esta é uma obra comovente. As dificuldades enfrentadas por esta família – que personificam a estória de milhares de outras famílias nas mesmas condições – são aterradoramente tristes.
Obrigados a percorrer milhares de quilómetros, longe do conforto do lar, a família Joad vai-se lentamente desmembrando.
Perseguidos – devido à sua proveniência – e explorados – devido ao excesso de mão-de-obra disponível devido às migrações em massa – os Joad conseguem sempre, porque se esforçam por manter unidos durante o maior tempo possíveis, ir ultrapassando as suas dificuldades, quase sempre conseguindo manter a cabeça erguida.
Na nossa opinião, é possível que este não seja apenas uma mero romance. De uma determinada perspectiva, este pode ser um manifesto político de esquerda que reage contra os latifúndios continentais dos grandes proprietários face à pobreza estrema dos sem terra da década de 30 americana.
Ficámos impressionados com a qualidade da descrição e da capacidade do autor nos manter presos a este livro. Apesar de ter, na nossa opinião, uma profunda carga política, este não deixa de ser um maravilhoso romance e uma obra-prima da literatura americana do século XX que não podemos deixar de aconselhar.

domingo, 7 de setembro de 2008

Cultura

Cultura é um livro de Dietrich Schwanitz, autor alemão e antigo professor universitário de cultura e literatura inglesa na Universidade de Hamburgo, que pretende constituir um almanaque sobre o mais importante que um indivíduo deve saber para se considerar um Homem culto.
Durante mais de 500 páginas, o autor tenta que o leitor absorva centenas de referências culturais, que se baseiam num critério absolutamente arbitrário e toldadas pela visão que na sociedade alemã existe daquilo que é ou não saber que constitui cultura.
O autor escreve sobre literatura, história, filosofia, musica e estabelece um índice de matérias, assuntos, autores, períodos e factos históricos que devem ser do conhecimento geral.
No nosso entender, para além da arbitrariedade da escolha dos temas – que fica por explicar – existem notórios lapsos nas referências feitas, numa clara sobreposição dos factos e períodos históricos que marcaram a cultura anglo-saxónica, sendo curtas ou quase inexistentes as referências às realidades culturais de todo o resto do mundo.
O projecto a que o autor se propôs não é possível sem que se verifiquem os lapsos a que fizemos referência. A cultura não é uma realidade estanque e varia, naturalmente, de acordo com a realidade local de cada espaço territorial. Este não é, portanto, um livro que possamos aconselhar como de leitura obrigatória, ou sequer recomendada.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O chão que ela pisa

O chão que ela pisa, é uma obra de Salman Rushdie, aclamado autor britânico de origem indiana, que conta uma estória baseada num triangulo romântico, sendo os seus vértices as personagens principais do livro: Vina Apsara, Ormus Cama e Rai.
O livro inicia-se com uma analepse. O autor escolhe uma das personagens, Rai, para ser o narrador desta estória, e principia o livro a meio da narrativa com a morte de uma das personagens principais: a diva da música Vina Apsara.
A partir daí vai à infância de cada uma das personagens e constrói brilhantemente as fundações em que se baseia toda a sua estória na vida adulta, onde se passa a trama principal da obra.
Este foi, confesso, um livro que me custou muito a ler. São mais de quinhentas páginas sobre amor, rock-and-roll, mitologia, numa obra onde o saber cultural do seu autor no inunda sem aviso. São dezenas de referências mitológicas e históricas, sendo que o livro se baseará numa metáfora: o mito de Orfeu (Segundo o mito de Orfeu – este era conhecido na antiguidade clássica como sendo possuidor de uma voz mágica e sobrenatural – este depois da morte da sua amada Eurídice teria tentado ir busca-la ao Hades – inferno – mas teria como condição não olhar para ela antes de saírem do mundo das sombas. Como não conseguiu resistir a essa tentação, Eurídice perdeu-se para sempre no inferno.)
Nunca tinha lido nada de Salman Rushdie e fiquei abismado. Apesar das primeiras paginas terem sido muito difíceis, a verdade é que com o decorrer da narrativa e com o desenvolvimento profundo que o autor faz das personagens, não há forma de não nos apaixonar-mos pela sua estória, pelas suas aventuras e pelo seu sofrimento.
Apesar das dificuldades iniciais da escrita de Rushdie, a verdade é que acabámos por adorar este livro e a forma culta como o autor reescreveu o mito clássico de Orfeu. Aconselhamos, sem qualquer margem para dúvida, a leitura desta obra, que é, no nosso entender, um elogio à arte de conjugar a boa escrita com a grandeza cultural.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Patriota

O Patriota é um livro da escritora norte-americana Pearl Buck que conta a estória de um jovem chinês chamado I-Wan, filho de um grande banqueiro de Xangai que vive confrontado com os ideais da juventude, a sua felicidade e o seu dever como bom patriota.
Pearl Buck, que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1938, traz-nos nesta obra uma magnífica visão do mundo oriental – viveu vários anos na China – e em particular das diferenças existentes entre a gigante China e o insular Japão, traçando com delicadeza as diferenças entre estes dois povos e a sua forma de encarar a vida, o trabalho e a pátria.
I-Wan, a personagem principal desta obra, é durante toda a estória confrontado com profundas questões de ordem política – a crença no comunismo, provindo de uma família rica – e com a necessidade de agradar à família.
Depois de ter sido forçado a abandonar a China por imposição do seu pai, vai viver para o Japão onde reconstrói a sua vida e descobre o amor incondicional que apenas uma japonesa lhe poderia oferecer.
Pearl Buck escreve de uma forma simples, com poucos floreados, mas acima de tudo tem o dom de nos prender indelevelmente à narrativa com as reflexões metafísicas das suas personagens.
Naturalmente que gostaríamos de avançar um bocadinho mais nos pormenores da narrativa, mas consideramos que este é um livros que obrigatoriamente o leitor deve ler. Ficámos absolutamente apaixonados pelo estilo e pelas personagens e isso é aquilo, que no fundo, faz um grande livro.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A Quinta dos Animais

A Quinta do Animais, em Portugal mais conhecido por O Triunfo dos Porcos, é uma obra de George Orwell, que através do recurso a uma parábola faz a critica ao sistema totalitário comunista da União Soviética, através do recurso à vida numa quinta após a expulsão dos humanos do seu controlo.
Este livro é genial. O autor conseguiu de uma forma quase perfeita recriar a revolução soviética e o regime comunista que aí vigorou a partir de 1917, apenas com o recurso a animais.
Os animais desta quinta são verdadeiros personagens tipo, sendo que cada espécie representa uma classe hierárquica do regime soviético: os porcos, a classe dirigente; os cães, a polícia política; as ovelhas, os seguidores obtusos; os restantes animais, os trabalhadores que paulatinamente se transformam em escravos.
A parábola não poderia estar mais bem conseguida. Efectivamente, quem conhece a história sabe que o regime comunista soviético transformou uma revolução socialista numa ditadura totalitária, onde a propaganda era utilizada para camuflar a verdadeira realidade económica e social, onde o trabalho abundava ao contrário das expectativas criadas, onde a polícia política perseguia todos os que se manifestavam contra o regime, onde aqueles que opinavam de forma contrária, eram afastados, perseguidos e culpados de todos os falhanços, onde o líder eram adorado como um herói, onde a classe dirigente vivia na opulência e o povo na penúria e onde a realidade era transformada e alterada consoante a vontade dos dirigentes.
Apesar de ter sido escrito durante a Segunda Guerra Mundial, este livro releva já uma enorme noção da realidade do regime soviético e apesar de ser contrária à moda da altura, revela uma lucidez fenomenal.
Não há forma de escapar à obra de Orwell. Este livro segue a mesma linha do 1984, profundamente ideológica e política e surge-nos como um alerta para a realidade que por vezes tende a fugir debaixo dos nossos pés à medida em que nos habituamos a conviver com a liberdade e com a democracia.
Esta é uma obra que não poderíamos deixar de aconselhar e mais ainda, recomendar.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O Fio da Navalha

O Fio da Navalha é uma obra grandiosa do famoso escritor e dramaturgo britânico Somerset Maugham, em que o autor veste a sua própria pele para contar a estória de um jovem americano – Larry – confrontado com a procura metafísica do sentido da vida.
A narrativa é temporalmente longa. Prolonga-se desde o final da primeira guerra mundial até ao inicio do anos quarenta e incide em duas frentes diferentes: existe uma estória romanceada, onde se contam as incidências sobre um conjunto de personagens da classe alta americana; e a visão metafísica que nos é oferecida por Larry, jovem americano que participou como aviador na primeira guerra mundial e que ao ver um seu amigo morrer para o salvar, procura desesperadamente o sentido da sua existência numa busca que o leva a percorrer a Europa, com passagem pela Índia e regresso aos EUA.
Um dos aspectos que mais me fascinou nesta obra, foi o retrato que é feito da alta sociedade americana na altura em que os EUA assumem definitivamente a hegemonia no contexto global.
Apesar de retratar americanos ricos e com perspectivas animadoras de vida, Maugham oferece-nos a visão do pedantismo latente que existia numa determinada classe social que procurava exasperadamente o contacto com as figuras decrépitas – financeiramente – das antigas monarquias europeias. Nesta narrativa Paris surge ainda como o epicentro da cultura mundial, onde converge ciclicamente a nata das famílias de ascendência monárquica e os novos-ricos burgueses.
Não vamos contar a estória do livro e como sempre deixamos ao leitor a decisão de conhecer ou não o que o autor tem para contar com as suas próprias palavras.
Pela nossa parte, podemos ainda dizer, que este é um livro fabuloso. Maugham escreve de forma simples e despretensiosa, conduzindo o leitor numa viagem onde nem tudo está contado pelo narrador, sendo possível utilizar a imaginar para preencher os espaços deixados livres.
Maugham já anda por cá há muito tempo. Tem como sua obra mais famosa a Servidão Humana. Nós desconhecíamos o autor, mas podemos dizer que se revelou uma surpresa muito positiva. Este é um livro que aconselhamos, sem qualquer margem para dúvida.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A morte de Ivan Illitch

A morte de Ivan Iliitch é uma obra de Lev Tolstoi, o famoso escritor russo autor de Guerra e Paz e de Anna Karénina.
Este é um livro pequeno. São cerca de100 páginas que contam a estória de Ivan Iliitch, juiz russo que depois de ter atingido uma alta posição na sua carreira acaba por ficar doente e na sequência dessa doença morrer.
A estória começa precisamente com a morte de Iliitch e o júbilo por partes de muitos dos seus colegas inferiores com a possibilidade de ascender na carreira.
Depois, socorrendo-se do recurso a uma analepse, Tolstoi começa a narrar a vida de Iliitch, desde a sua infância – esta de uma forma particularmente breve – até à sua vida adulta e em particular todo o tempo em que a personagem principal é confrontada com o sofrimento da sua doença até acabar por perecer.
Esta edição tem um fantástico posfácio de Vladimir Nabokov que nos transmite uma visão extremamente profunda sobre o que terá querido transmitir com a sua obra Tolstoi. A reflexão sobre a vida, sobre o ambiente fútil em que Iliitch vivia, a forma como os seus parentes abandonaram a personagem ao sofrimento, a dialéctica entre a vida da cidade e do campo são as principais chamadas de atenção de Nabokov.
É uma obra complexa, não porque a escrita de Tolstoi seja complica, mas sobretudo porque o livro encerra em si uma profundidade metafísica que não é aparente.
Apesar desta dualidade, e das dificuldades que a leitura e compreensão que o livro pode apresentar, não poderemos deixar de aconselhar a leitura, desta que é mais uma obra-prima do século XIX.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O Estrangeiro

O Estrangeiro é uma obra do escritor e filosofo francês - nascido na Argélia – Albert Camus, tendo vindo a ser considerado desde a sua primeira edição como uma obra-prima digna dos mais elevados elogios.
A edição que lemos, da Editora Livros do Brasil, tem um prefácio de Jean-Paul Sartre, que faz uma análise profunda e bem estruturada sobre o estilo e o conteúdo do livro, destacando talvez, aquilo que logo à partida salta à vista: as frases são muito curtas e cada um por si encerra uma ideia que poderia ser analisada mesmo que fora do contexto em que está inserida.
Esta obra está dividida em duas partes distintas, mas que são a sequência uma da outra. Apesar de conexas, poderemos afirmar que a primeira é mais descritiva e a segunda mais argumentativa, mas de uma forma profunda e filosófica, discorrendo o autor – na figura da personagem principal – sobre a vida e sobre o que rodeia os homens.
Apesar de existirem várias personagens, podemos afirmar com segurança que o autor centrou toda a narrativa na figura de Meursault, um homem que vive no absurdo, utilizando as palavras de Sartre.
Toda a estória de O Estrangeiro é estranha. O desprendimento que a Meursault encara a vida choca o mais desinteressado de todos os leitores. O que dizemos é comprovado em toda a narrativa desde o seu primeiro momento, que coincide com a morte e subsequente funeral da mãe de Meursault, até ao epíteto final.
Não vamos aqui adiantar nada da estória, porque para além do livro ser muito pequeno – cerca de 100 páginas – não há nada como cada um descobrir por si próprio, mas não podemos deixar de dizer que o consideramos um livro brilhante e que vale cada minuto que passamos de sua volta, pelo que, e como já devem ter depreendido, consideramos imprescindível a sua leitura.

sábado, 5 de julho de 2008

D. Quixote de la Mancha

Finalmente acabamos de ler o D. Quixote de la Mancha, a obra-prima de Miguel Cervantes e nas palavras de muitos especialistas, um dos melhores – senão mesmo o melhor – livros de todos os tempos.
Esta conhecidíssima obra de Miguel Cervantes, que tem mais de 900 páginas, é uma maravilha literária, que conta a história do famoso D. Quixote de la Mancha, fidalgo espanhol e do seu amigo e escudeiro, não menos famoso, Sancho Pança.
A famosa Dulcineia é de facto uma personagem que não chega a ter uma participação efectiva na história. Apesar de estar sempre presente na narrativa, D. Quixote não a conhece, nem o leitor nunca chega efectivamente a conhece-la. Na verdade, como todos os cavaleiros andantes dos livros que lia tinham a sua paixão, D. Quixote sente-se na necessidade de inventar a sua com base numa pessoa existente numa aldeia perto da sua, a dama por quem se haveria de enamorar.
Existe ainda uma panóplia de outras personagens que vão acompanhando a aventura destas duas personagens principais e que ajudam na concretização das aventuras.
Todo o livro é uma paródia, que mistura longas dissertações sobre os mais variados temas, com as deambulações de dois homens, em busca de aventuras, pelas terras de Espanha.
D. Quixote é um cavaleiro. Mas não é um cavaleiro qualquer. É um cavaleiro andante e o seu objectivo é percorrer o mundo em busca de aventuras em que possa ajudar os mais desfavorecidos, o que no caso, raramente acontece.
Uma das imagens mais conhecidas de D. Quixote é a sua luta contra os moinhos de vento que o próprio confunde – ou porventura talvez não confunda, o que é difícil de explicar – com gigantes.
Basicamente, todo o livro é feito de pequenas histórias como a dos moinhos de vento. D. Quixote de la Mancha, imbuído no espírito dos livros de cavalaria que leu – muito populares na época e que Cervantes procura criticar – faz-se ao mundo e procura viver a ficção que decorou a todo o custo, mesmo que o preço seja a sobriedade mental.
O livro está divido em duas partes, tendo sido ambas escritas em momentos distintos. Há quem diga que o estilo das duas partes é distinto, embora na nossa opinião as diferenças sejam poucas.
É um livro particularmente divertido. As aventuras de D. Quixote e Sancho Pança imortalizadas por Cervantes são verdadeiramente geniais e originais.
Aconselhamos vivamente a leitura deste livro, sem antes alertar o leitor para a necessidade de ter paciência. Como não é um romance dos tempos modernos, a adaptação à leitura pode ser complicada e lenta, mas D. Quixote de la Mancha é um dos maiores clássicos da literatura modera. Será que vão deixar passar a leitura desta obra-prima?

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O Processo

O Processo, é uma obra de Franz Kafka, escritor checo que tem uma maravilhosa obra escrita que o qualifica como uma dos maiores génios literários do século XX.
Esta obra conta a estória de Josef K., funcionário de um banco, que se vê confrontado com um processo, sendo os contornos desse processo, o tema da narrativa.
Durante todo o livro, K., desenvolve todos os esforços para encontrar uma solução para o problema em que se viu envolvido. Entra dentro de um labiríntico sistema processual, onde nunca chega a conhecer o motivo pelo qual se viu envolto em tão obscura situação.
No desenrolar da sua demanda em busca da prova de uma inocência que desconhece o crime, K. é confrontado com diversas personagens que caracteriza o sistema judicial, desde os meros funcionários judiciais, aos juízes, passando naturalmente pelos advogados e outros arguidos.
O Processo pode ser uma excelente metáfora sobre o sistema judicial. Kafka, formado em Direito, exerceu durante algum tempo da sua vida a advocacia. Talvez o exagero da metáfora pareça evidente, mas ainda hoje são milhentos os exemplos de arguidos presos sem culpa formada o que é próprio dos Estados onde a democracia é apenas um conceito vão.
Esta obra pode ainda encerrar uma crítica do autor à personagem. Josef K. assume durante quase toda a narrativa uma sobranceria e uma arrogância anormais. Ainda que desconheça os motivos que justificam o seu processo, a forma como a personagem principal se movimenta nos seus meandros suscita dúvidas sobre a sua correcta postura ou não. Talvez a certeza inicial que não seria condenado, seja a gota de água que faltava para o seu fim.
O Processo é uma obra de génio. Só uma mente superior poderia imaginar a intrincada narrativa que Kafka nos proporcionou.
Ao contrário do que se possa dizer, este não é um livro enfadonho. Lê-se num ápice. Ademais, é uma das obras clássicas que devem fazer parte não só nas bibliotecas pessoais de cada leitor, mas também do imaginário de cada um de nós.
Obviamente, aconselhamos a leitura de O Processo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A Rapariga que Inventou um Sonho

A Rapariga que Inventou um Sonho é um livro de contos de Haruki Murakami, famoso escritor japonês.
Esta obra que reúne 24 contos escritos por Murakami entre 1981 e 2005 é um elogio à arte de bem escrever.
Cada um dos pequenos textos conta a história de uma personagem diferente, quando confrontada com um acontecimento ou uma imagem fora do vulgar.
Murakami, além de escrever sedutoramente, é um escritor absolutamente louco. Cada uma das suas histórias é fruto de uma imaginação mirabolante, de uma ideia que à partida pode ser mesmo absolutamente descabida, chegando ao ponto de um leitor absolutamente racional poder achar o livro demasiado longe da realidade, absolutamente fantasioso.
Apesar de considerarmos que Murakami sai fora do padrão habitual do que se escreve, a verdade é que este autor fala de pessoas e retrata-as de uma forma tão profunda que por vezes chegará ao mais intimo intelecto, aquele onde os nossos pensamentos fogem também por vezes dos cânones da normalidade.
Sou um fã de Murakami. Bebo cada uma das suas frases como se fosse a último e tento dosear a leitura dos seus livros. Não quero acaba-los já. Quero saber que depois de tantos livros que apenas nos trazem algo que pode ser expectável, existe sempre uma ideia de Murakami que nos ilumina e nos permite sonhar.
Aconselho vivamente, não apenas este livro, mas toda a sua obra. Murakami é um best seller mundial. Provavelmente não serei apenas eu que o considero verdadeiramente genial!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Nos passos de Magalhães

É uma maravilha ler Gonçalo Cadilhe.
O espírito e o sonho flutuam em conjunto na mochila deste viajante-escritor, percorrem os seus passos cheirando as flores que se abrem à sua passagem.
Nos passos de Magalhães é um livro particularmente bem escrito, o que vem, aliás, na linha de todos os seus trabalhos.
Esta obra conta-nos a história de Fernão de Magalhães, o homem responsável pela primeira viagem de circum-navegação do nosso planeta, desde os primeiros tempos de vida, até à sua trágica morte.
Cadilhe, aproveitando o fascínio pela personagem histórica que foi Magalhães propõe-se neste trabalho a seguir os seus passos desde a altura do seu nascimento – quiçá em Sabrosa – até ao extremo oriente, onde acabou por sucumbir.
Pelo intermédio relata ainda a sua presença na construção do império marítimo português do oriente, até à passagem pelas sangrentas batalhas no norte de África.
Esta obra não é apenas um livro de viagens, é também um biografia de Magalhães, o que é para mim algo de verdadeiramente original.
Fiquei deliciado desde o primeiro parágrafo e li este livro no ápice e não poderíamos deixar de recomendar a sua leitura o mais rapidamente possível. Agora, só nos resta ficar à espera das próximas viagens do nosso Cadilhe!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Os milagres do Anticristo

Os Milagres do Anticristo é um romance de Selma Lagerlöf, a primeira mulher a receber um prémio Nobel da literatura em 1909.
A história desta obra recai sobre a temática da religião/política, sendo certo a relação entre ambos os temas só se descortina nas últimas páginas do livro.
Este livro conta-nos várias pequenas histórias, todas relacionadas com os mesmos intervenientes, uma imagem de Cristo, Donna Micaela, uma cidade absorta numa realidade onde a pobreza é rainha que é Diamante, sendo que todos os milagres são resultado da intervenção da imagem de Cristo.
A especificidade desta imagem de Cristo reside no facto de a mesma ser a cópia de uma outra, sendo que esta tem a inscrição “o meu reino é só deste mundo”, ou seja, exactamente o oposto daquela que deveria ser a verdadeira mensagem de Cristo.
Depois de um longo excurso em que se narram os milagres desta imagem de Cristo, chega-nos a relação com a política, mais precisamente com o socialismo e a forma como ele se expressa em Itália, mais particularmente na Sicília.
A relação que se estabelece entre estas duas realidades é apenas imediata no final da obra, sendo certo que corresponde a uma ideia não comummente aceite ou generalizada.
Pela minha parte tenho de confessar que não gostei desta obra. É enfadonha, com uma história que considero pouco cativante, com personagens pouco atraente e sobre uma temática que – pela forma como foi colocada – não me suscita grande interesse.
Seja como for, há quem discorde desta ideia, como por exemplo no blog À Margem.
Depois de compararem as críticas, façam a vossa opção.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O quase fim do mundo

O quase fim do mundo, é um romance de Pepetela, escritor de angolano e antigo prémio Camões.
Esta obra tinha, ou talvez tenha ainda, tudo para ser um romance de excelência. O objecto deste livro é o fim do mundo, ou melhor, o quase fim do mundo, sendo certo que a vida se mantém numa pequena zona do continente africano.
A primeira frase do livro é absolutamente brutal: “Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.”, e inicia uma história, que embora não sendo totalmente original, está bem pensada e estruturada.
Depois de conhecermos Simba Ukolo, médico, surgem na narrativa outras personagens: uma fanática religiosa, uma jovem adolescente, um ladrão, uma criança – sobrinho de Simba Ukolo – uma investigadora cientifica, um segurança em minas de diamantes, um pescador, um curandeiro, um electricista e uma professora de história. São estas as personagens que vão dar vida a este romance.
Embora a personagem principal seja efectivamente Simba Ukolo, a verdade é que a espaços a narrativa é contada por cada uma das personagens, que o autor procurou retratar e preencher da melhor forma, dando-nos um conhecimento mais ou menos profundo do seu passado.
Embora a história tenha um conjunto de reflexões meta-filosóficas, a verdade é que esse vector não é profundamente explorado pelo autor, sendo que a narração da sucessão do tempo e da descoberta do que lhes havia acontecido toma o lugar principal na narrativa.
Sobre a história em si, não nos pronunciaremos mais. Fica para o leitor descobrir, tal como nós descobrimos.
Confessamos que ao princípio este foi um livro que me deixou levemente desiludido. Mas depois, tal como acontece com quase todos os livros, fomo-nos apaixonando pelas personagens e a determinada altura colocámo-nos mesmo na sua pele e vivemos essa realidade bem imaginada pelo autor.
Talvez não seja possível ainda fazer uma análise muito profunda desta obra. Passaram menos de 24 horas desde que as últimas páginas foram lidas e não conseguimos ainda ter uma visão não emotiva do que lemos.
É sem qualquer dúvida que aconselhamos vivamente a leitura deste livro. Há alturas da nossa vida em que não temos ainda noção se o livro que lemos constituirá ou não no futuro uma obra-prima. Aguardaremos pacientemente pelo passar do tempo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Conde de Abranhos

O Conde de Abranhos é mais uma obra de Eça de Queirós, numa magnífica narrativa onde a crítica social aos costumes políticos portugueses é o mote para o extenso e delicioso excurso.
Eça, utilizando na pele da figura de Z. Zagalo, secretário pessoal do Conde, bibliografa a vida deste, desde a mais sua tenra idade até à sua ascensão a Ministro do Reino e consequentemente até obter um título nobiliárquico.
Durante a narrativa, apercebemo-nos na incompetência, ignorância e falta de carácter desta personagem através do recurso a várias peripécias, quer no relacionamento com a sua família, quer através da sua actividade política – primeiramente como parlamentar e posteriormente como Ministro.
Quero acreditar que a crítica de Eça se estende também a toda a classe política. Os discursos parlamentares inflamados, mas desprovidos de conteúdo, a profusão de alternâncias ideológicas, as crises políticas, com revoluções e contra-revoluções.
Tal como em outros livros de Eça, parece que a crítica feita se poderia alargar até à actualidade, sendo que é possível descortinar nas personagens tipo do Conde e de todos os seus apaniguados, alguns dos traços distintivos que marcam muitas das actuais personalidades da sociedade portuguesa.
Eça é sempre recomendável. Embora este não seja um romance clássico, aconselhamos, pela sua actualidade constante, a leitura desta obra.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O primo Bazilio

O Primo Bazilio, é uma genial obra de Eça de Queirós que retrata a vida de uma família da pequena burguesia em meados do século XIX, repleta de personagens fascinantemente construídas, completas, vivas, onde a crítica social continua a ser a característica mais marcante.
A estória começa com a descrição da vida de Jorge e Luíza e todo o ambiente pequeno burguês que se desenvolve em torno das duas personagem.
Com a partida de Jorge para o Alentejo em trabalho, surge uma outra personagem de grade relevo no livro: o primo Balizio de Luíza e anteriormente seu namorado, que depois de ter obtido grande fortuna no Brasil regressa a Portugal.
Bazilio é uma personagem fascinante, um verdadeiro pinga amor, que faz uso do seu charme para cativar a sua prima que visita com insistência na ausência do seu marido e que lentamente a seduz.
Com o desenrolar da narrativa, Juliana, criada da família, com um ódio visceral aos seus patrões e em particular a Luíza descobre o romance entre a sua patroa e o primo.
Com este conhecimento privilegiado, Juliana tenta obter, através de chantagem, um ganho financeiro.
Depois do romance descoberto, Bazilio sai finalmente de cena e regressa aos seus negócios fora de Portugal.
Coincidentemente com a saída de Bazilio para o estrangeiro regressa Jorge. Luíza, sentindo-se profundamente culpada com o adultério que cometeu, redescobre de uma forma ainda mais intensa o seu amor pelo marido, face à crescente chantagem de Juliana que extorque cada vez mais favores e trabalho a Luíza, verificando-se inclusivamente uma inversão dos papeis na casa: a patroa substitui a criada e vice-versa.
Finalmente, e depois de uma tremenda pressão de Juliana sobre Luíza, esta resolve contar tudo o que se passou a Sebastião, velho amigo de Jorge, que resolve o assunto da chantagem, visitando Juliana e exigindo-lhe a devolução das provas do adultério. Na sequência desta visita de Sebastião a Juliana, esta, que sofria do coração, acaba por se prostrar morta com a emoção.
Apesar do alivio sentido por Luíza, esta acaba por cair doente, possivelmente em resultado da profunda anemia de que sofria e em parte devido ao caos e que a sua vida de tinha transformado com a chantagem de Juliana.
Luíza que havia enviado uma carta ao primo para lhe pedir dinheiro, recebe, durante o seu recobro, a resposta do primo, sendo a carta aberta por Jorge que descobre a traição, vivendo a partir daí num sobressalto constante.
Quando finalmente Luíza recupera, Jorge confronta-a com o facto. Luíza não chega a reagir, caindo com febre no momento imediatamente a seguir.
A progressão da doença é fulminante, terminando a história com a morte de Luíza e o arrependimento de Jorge por a ter confrontado com a traição.
Esta obra é sublime. A descrição da pequena burguesia lisboeta é fascinante, como acontece em todas as obras de Eça e naturalmente que aconselhamos a leitura deste livro a todos os apaixonados pela literatura de qualidade.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A China Abala o Mundo – A Ascensão de uma Nação Ávida

A China Abala o Mundo – A Ascensão de uma Nação Ávida, é uma obra de James Kynge, que nos conta a sua experiência enquanto jornalista de um grande jornal financeiro na forma como ao longo de vários anos foi acompanhando a ascensão deste país que é o mais populoso do mundo e que outrora já foi o mais desenvolvido tecnologicamente, tal como se apresta brevemente para voltar a ser.
James Kynge efectua uma análise segmentada do impacto desta nova China num mundo cada vez mais global. Apresenta as inúmeras vantagens comparativas que tem face a outros estado – nomeadamente o excesso de mão-de-obra; a falta de regulamentação laboral; desrespeito pelos direitos humanos e ambientais; etc. – além de uma mentalidade em tudo diferente da ocidental, onde o ócio é cada vez mais o fim último a atingir.
As vantagens que aparentemente a China tem face a outros países são também os seus maiores defeitos, na medida em que se baseia no desrespeito total pelo conceito de Homem na acepção mais vulgar e aceite globalmente.
Economicamente poderemos dizer, com base no que escreve o autor, que é a China a principal responsável pelo crescimento económico a que temos vindo a assistir nesta última década. Ávida consumidora de tudo o que é matérias-primas, é também a principal fábrica mundial dos nossos dias e directamente culpável dos baixos preços dos produtos finais de que temos beneficiado, bem como da deslocalização sistemática a que temos assistido nos últimos anos, onde se começam a incluir os empregos de maior complexidade técnica e académica face ao investimento que tem vindo a ser efectuado pela ditadura que governa este gigante asiático.
Esta é, à semelhança das anteriores, uma obra assaz complicada. É técnica, difícil e de interesse limitado por não ser um romance.
Temos para nós que a leitura está muito longe de se resumir a contar uma história. A leitura técnica e científica é fundamental para a nossa formação e para a capacidade que temos de nos adaptar a realidades com as quais não lidamos habitualmente.
Neste sentido, naturalmente que aconselhamos a leitura deste livro, que contribuirá definitivamente para a consciencialização perante uma realidade que está ao bater da porta e que não se pode mais continuar a ignorar.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Serviços Secretos Portugueses

Serviços Secretos Portugueses é uma obra de investigação de José Vegar que faz uma análise histórica dos serviços secretos nacionais com particular incidência na actual realidade fruto da revolução de Abril de 1974.
É preciso dizer em primeiro lugar que este livro está particularmente bem redigido. A escrita é acessível apesar da profundidade do tema, mesclada entre exposição pura de trabalho de investigação e a ilustração de factos e hipóteses através do desenvolvimento de pequenas histórias ficcionadas.
José Vegar transporta-nos a um fantástico mundo com esta obra, através da demonstração clara e inequívoca da necessidade premente de ter serviços secretos organizados e com competência para avaliação das actuais realidades nacionais e internacionais, com particular referência à realidade pós 11 de Setembro e ao terrorismo de índole islâmica.
Ao contrário do que o leitor pode eventualmente esperar, este livro não conta histórias como a do James Bond, mas sim as das pessoas reais, que trabalham em arquivos, infiltrados em organizações criminosas e por vezes em espionagem comercial.
Apesar de se encontrar na mesma linha dos livros analisados recentemente, e apesar desta obra não ser um romance, acreditamos que este livro poderá ser do interesse e suscitar paixão a qualquer leitor habitual, pelo que, sem dúvida nenhuma que o aconselhamos vivamente.

quarta-feira, 26 de março de 2008

ONU – História da Corrupção

ONU – História da Corrupção, é um livro de Eric Frattini que relata a história de mais de 60 anos de corrupção, fraude, abusos sexuais, subornos, tortura, má gestão, no seio de uma organização com carácter supra nacional.
Esta obra relata com pormenor o envolvimento em escândalos de natureza criminosa de vários secretários-gerais da organização, desde a caça às bruxas no tempo de McCarthy, passando pelas ligações de Kurt Waldheim ao regime nazi e culminando com o envolvimento do filho de Kofi Annan no escândalo do programa “Petróleo por Alimentos”.
É um livro expositivo, denso, repleto de dados e pormenores, de avaliações subjectivas – e outras objectivas – é o resultado de um trabalho de investigação que põe em causa o prestigio de uma organização que nasceu com o fim da 2.ª Guerra Mundial e que não parece não conseguir prosseguir os fins a que se propôs.
À semelhança das obras mais recentes que aqui foram criticadas, este livro está muito longe de ser um romance. É um trabalho de investigação sobre uma temática muito específica, pelo que dificilmente se poderá considerar uma obra apelativa para o leitor média que procura um livro que o faça viajar pelo mundo da boa literatura dos romances.
Neste sentido, aconselhamos esta obra, apenas aos que tenham um interesse particular pela história, pelo mundo que nos rodeia e por esta organização – ONU – sendo que os leitores de romances puros acharão este livro perda de tempo.

sexta-feira, 14 de março de 2008

A Suiça, o Ouro e os Mortos – A questão do ouro nazi

A Suiça, o Ouro e os Mortos – A questão do ouro nazi é um livro de Jean Ziegler – autor suíço com uma extensa obra literária, antigo professor universitário e actualmente relator especial da Comissão dos Direitos do Homem das ONU – que conta, citando dados consubstanciados em números, a história da intervenção suiça durante a 2.ª Guerra Mundial.
Não é fácil fazer uma crítica literária a este género de livros onde não é a forma que interesse mais sim o conteúdo. Um livro repleto de dados, citações de relatórios e análise de contextos e personalidades representa um desafio enorme e de difícil concretização.
No entanto, e circunscrevendo-nos ao livro, é preciso dizer que o mesmo segue a linha deste autor, que normalmente se apresenta muito crítico face ao status quo vigente e dominante, o que dificulta o entendimento do leitor se o que está escrito representa ou não uma visão imparcial da realidade.
Outro dos problemas deste género de livros e de formas de exposição prende-se ainda com o facto de não existir direito ao contraditório. A forma taxativa como os factos são apresentados pode levar-nos a tomar conclusões precipitadas.
Neste livro em particular Jean Ziegler critica exaustivamente a política de falsa neutralidade da Suiça durante a 2.ª Guerra Mundial, acusando os governantes suíços, bem como os bancos deste país de terem financiado o esforço de guerra nazi, branqueando o ouro roubado aos diversos estados ocupados pelo regime de Hitler, bem como aquele que foi retirado aos judeus assassinados nos campos de concentração e extermínio.
No seguimento de algumas das obras já aqui analisadas, aconselhamos a leitura deste título apenas aos que gostam de história e em particular do período referente à 2.ª Guerra Mundial, não o recomendando, de maneira nenhuma, aos amantes da literatura de romance.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Império à deriva

Império à deriva é um livro de Patrick Wilcken que conta a história da fuga da família real portuguesa para o Brasil na sequência das invasões francesas, num estilo documental e não através de um romance histórico como se poderia eventualmente antever, face ao popular de obras neste registo.
Na sequência das invasões francesas, inicialmente lideradas por Junot, a família real portuguesa – sendo na altura D. João VI o monarca regente, em virtude da loucura declarada da sua mãe D. Maria I – foi forçada a fugir para o Brasil.
A viagem épica – podemos afirmar – que levou cerca de 10.000 portugueses para o Brasil no início do século XIX, transportando para a América do Sul uma corte absolutista, em muitos sentidos medieval e burocrática, é narrada brilhantemente por este autor que nos surpreendeu pela qualidade de transformar um possível ensaio histórico, numa obra verdadeiramente interessante.
Com a família real no Brasil, o Rio de Janeiro – capital do Império durante este período – transformou-se de um entreposto comercial numa cidade ao estilo europeu, sendo que se terá mesmo chegado a considerar a possibilidade de fundar um novo Portugal em terras de Vera Cruz.
As intrigas reais, as mudanças estratégicas e o grito do Ipiranga dão cor e luz a uma obra que não podemos deixar de aconselhar, incluindo a todos aqueles que, apesar de não gostarem muito de história, não querem deixar de saber um bocadinho mais sobre a transformação de Portugal de um Estado absolutista a um Estado liberal.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Status Ansiedade

Status Ansiedade é um livro de Alain de Botton que discorre sobre o conceito de status numa perspectiva histórica, procurando contextualizar o fenómeno com recurso a imagens, citações e muitos exemplos.
Esta obra não é um romance, nem sequer um ensaio. É como se fosse uma peça jornalística, uma reportagem, ou talvez um documentário, sendo que aborda o tema construtivamente, como se de um ensinamento se tratasse.
É um livro muito fácil de ler. Apesar das mais de 300 páginas que tem, a verdade é que o mesmo tem muitas imagens que ilustram as ideias do autor.
Devo confessar que este não é um estilo ou um género que me agrade particularmente. Como livro documental, é insusceptível de provocar as paixões que os romances provocam, apesar de nos fazer reflectir sobre um tema que nos afecta diariamente, ou seja, sobre a nossa relação com a sociedade e connosco próprios.
Seja como for, para aqueles que procuram que os livros contem uma boa história, esta não será a obra que procuram!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O Homem que viveu duas vezes

O Homem que viveu duas vezes é o primeiro romance de Carlos Machado e conta a história de Alcina e João Hermínio, desde o momento em que se conhecem – no final dos anos 40 – até ao momento do seu reencontro 25 anos depois.
Este romance, pintado num tom nostálgico, com brilhantes ilustrações da vida nas aldeias portuguesas do interior transmontano, emprega uma linguagem tipicamente serrana, dando vida a personagens emotivamente ricas e preenchidas.
O romance é dividido em duas partes e com dois interlocutores diferentes, que são as duas personagens principais, numa técnica que resulta e que nos dá a perspectiva e imagem da mesma situação vista por duas personagem diferentes. O recurso aos pensamentos das mesmas, possibilita-nos completar a situação de uma forma esclarecida e original.
O recurso à prolepse permite-nos um profundo enquadramento da história e ao mesmo templo completar com o que aconteceu no passado o vácuo temporal de 25 anos de história.
O Homem que viveu duas vezes foi uma agradabilíssima surpresa, uma vez que o autor é recente e a história é por si encantadora, quer pelo estilo do autor, quer pela imaginação vertida na narrativa.
Face aos predicados aqui suscitados, naturalmente que este é mais um romance que aconselhamos a todos aqueles que procuram uma história bem conseguida, mas acima de tudo, a todos os que procuram boa literatura portuguesa.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A Relíquia

A Relíquia é um das obras do mestre Eça de Queirós que conta a história de Teodorico Raposo, jovem bacharel em Leis que habita com a sua rica e velha Tia – D. Patrocínio das Neves – típica beata portuguesa, com a qual mantém uma relação algo distante, apesar das múltiplas inflexões ao longo da história.
Durante a narrativa, Teodorico, jovem e boémio procura através da prática de uma vida – aparentemente – casta cair nas boas graças da sua tia e herdar sua grande fortuna que parece estar prometida à Igreja.
Apesar das suas tentativas, Teodorico raramente consegue resistir aos seus mais animalescos impulsos.
Quando finalmente a tia Patrocínio das Neves ganha alguma confiança com Teodorico, este faz em seu nome, uma viagem à Palestina em peregrinação, com a promessa de trazer para titi uma grande relíquia.
Longe dos olhares da sociedade lisboeta e das rígidas regras da sua tia, Teodorico prossegue a sua vida de deboche nas grandes cidades do Oriente, até finalmente chegar a Jerusalém, onde em sonho, se imagina a assistir ao julgamento de Jesus Cristo, até finalmente regressar a Lisboa para o epíteto final da história.
Eça de Queirós é sarcástico e mordaz na crítica social que faz.
Acreditamos, que mais do que a crítica à hipocrisia de Teodorico, a maior crítica se faz a uma certa beataria portuguesa do século XIX. As personagens tipo criadas por Eça, na sublime e magnífica descrição em que o autor é exemplar, conjuntamente com os cenários detalhados e perfumados, dão um colorido especial a esta obra que naturalmente aconselhamos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Gulag: Uma história.

“Gulag: Uma história”, um livro de Anne Applebaum escritora norte-americana, não é um romance, é um profundo e longo trabalho sobre a história dos gulag soviéticos deste a sua moderna criação logo após a revolução bolchevique até ao seu fim com a perestroika de Gorbatchev e que foi prémio Pulitzer em 2004 para a categoria de não-ficção
O livro foi feito, essencialmente com base nas informações recolhidas através dos arquivos que foram disponibilizados, em entrevistas a antigos prisioneiros e com recurso a longas citações recolhidas entre as memórias publicadas.
Os gulag, que foram uma extensa rede de campos de escravidão construídos durante o reinado soviético, eram verdadeiras fábricas ao serviço do regime totalitário que teve o seu apogeu com a era de Estaline, onde milhões de pessoas, numa enorme teia que se espalhava pelos mais remotos lugares da União Soviética.
As condições miseráveis em que milhares de presos se acumulavam, a forma como criminosos se misturavam com presos políticos, a loucura de um regime que não olhava a meios para atingir os seus fins – embora na realidade nem isso conseguisse – as animalescas condições em que os prisioneiros eram transportados chocam pela imagem que transmitem de desrespeito pelo género humano, numa imagem que se pode assemelhar apenas ao que acontecia entre as fábricas de morte do regime nazi.
Queremos deixar bem claro que este é um livro difícil. Uma escrita densa e longa – são mais de 600 páginas – sobre um assunto que deixou marcas profundas em toda uma sociedade.
No entanto, para todos aqueles que procuram aprofundar os seus conhecimentos sobre uma temática que nunca deixa de ser actual e para os apaixonados por história, em particular a do século XX, é uma obra que não posso deixar de recomendar.
Uma nota final, para salientar o facto, de neste momento ser possível adquirir este livro por cerca de € 10,00, o que considerando o tamanho, qualidade da edição e da obra, acaba por ser uma escolha muitíssimo económica.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A Sétima Porta

A Sétima Porta é o último romance de Richard Zimler, autor do livro O último cabalista de Lisboa, que narra a história de Sophie Riedesel, uma jovem berlinense confrontada com a década de 30 do século XX num país onde Hitler sobe ao poder e de Isaac Zarco, descendente do cabalista Berequias Zarco retratado no primeiro romance de Zimler.
Zimler, dá mais uma vez vida à família Zarco e à história do judaísmo nos seus reiterados encontros com a morte e a destruição.
A década de trinta alemã é vista pelos olhos de uma jovem sonhadora, inteligente e ambiciosa, Sophie Riedesel, que luta pela e contra a sua família que vê desfazer-se ao longo da narrativa, desde à ascensão de Hitler ao poder, ao inicio da purificação da raça que termina com o epíteto da segunda guerra mundial.
É a história de judeus, de deficientes e de fenómenos de circo, do cabalismo na figura de Isaac Zarco e ao mesmo tempo a história de um povo – o alemão – confrontado com uma crise de esquizofrenia colectiva que incide mesmo sobre os mais moderados.
A Sétima Porta, em nossa opinião, é acima de tudo uma história de amor. O amor de uma irmã pelo irmão, de uma filha pela mãe e pelo pai – apesar da variável intensidade desta relação – de uma amiga pelos seus amigos, de uma jovem pelo seu namorado, de uma mulher por um homem e de uma mãe pelo filho. É também uma história que fica indelevelmente marcada pela relação de Sophie com o seu irmão Hansi – uma vítima nas mãos de um regime eugénico – numa profunda sensibilidade artística que se reflecte nesta relação entre irmãos na pintura de Sophie e na complacência de Hansi.
Zimler, que ao longo dos seus antigos romances nos habituou a uma escrita apaixonante, carregada de simbolismo e amor não desilude, apresentando-se A Sétima Porta como um romance histórico com uma panóplia de personagens carregadas de vida e admiravelmente desenvolvidas, de cenários realistas que incitam a uma leitura escorreita e vibrante e de enorme suspense que nos deixa presos à leitura.
Como um grande romance que é, A Sétima Porta deixa marcas. Vivemos a alegria, a felicidade, o orgulho, a tristeza, mas acima de tudo, vivemos a angústia de Sophie como se fosse a nossa.
Não há bons romances sem que sintamos na nossa vida a história das personagens. Sentimos ao longo das mais de 650 páginas do livro – que não devem assustar, porque são deliciosas – o confronto que existe entre os valores de Sophie e os nossos, mas acima de tudo, conseguimos sentir os pontos de contacto que existem entre a sua história e as nossas recordações.
Face ao que foi escrito, é uma obra que aconselhamos vivamente a todos os apaixonados pela boa literatura. Apostamos que não se vão arrepender.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A biblioteca transmissivel: o nascimento.


Existem dois géneros de pessoas: as que lêem e as que não lêem.
Talvez se pudesse dividir o mundo desta forma tão simplista. Afinal, quantas formas de catalogação existem sem que levantemos qualquer género de objecção?
Este blog é o de uma pessoa que lê. E lê compulsivamente.
Temos conhecimento da existência de inúmeros blogs sobre a temática dos livros, o que não obsta – porque a paixão é irracional – a que nos lancemos neste projecto de dar a conhecer ao mundo as obras que nos têm marcado ao longo da nossa existência.
Este blog não obedecerá a mais nenhum critério que não seja o dos gostos pessoais do autor, ou seja, praticamente tudo. Escreverei sobre todos os livros que vier a ler, e em muitos momentos, sobre os livros que li no passado.
Esta será a minha biblioteca transmissível, e aqui, todos dizem o que pensam.