segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

No teu deserto

No teu deserto é a mais recente obra do escritor/jornalista português Miguel Sousa Tavares que desta feita no trás aquilo a que o próprio designa por quase romance.
Neste livro Sousa Tavares, que é provavelmente um dos melhores escritores portugueses da actualidade (é pelo menos um dos mais vendidos), oferece ao leitor uma estória com contornos bem pessoais e baseados em factos verídicos. Sousa Tavares escreve de uma forma harmoniosa e tem o maior talento dos grandes narradores descritivos: sabe pintar com as cores certas os momentos indicados.
Este é um livro que nos descreve o amor. O cenário é o deserto do Sahara com todo o misticismo que decorre da vida/presença nestes locais. Como em muitos de livros que descrevem o amor por vezes sentimos que existe um excesso de melifluidade nas palavras escolhidas e na forma como as situações são relatadas. Nada de muito grave apesar de tudo, a lembrar a literatura do brasileiro Paulo Coelho, mascavada de uma espiritualidade um pouco forçada.
Este é também um livro que nos relata uma viagem. A aventura de viajar com um jipe de fabrico português no final dos anos oitenta dá-nos uma sensação de façanha que ajuda a preencher o nosso imaginário.
Miguel Sousa Tavares é um bom escritor e No teu deserto é um bom livro. Lê-se de um trago e deixa-nos sonhar um bocadinho e permite afastarmo-nos da realidade que nos consome durante tanto tempo da nossa vida. Aconselha-se a sua leitura, especialmente a quem andar perdido.

O último navegador

O último navegador é o primeiro romance (e talvez não venha a haver mais nenhum) do conhecido actor português Vergílio Castelo.
Ao longo dos últimos anos temos tido a oportunidade de ler muitos romances, de autores portugueses e estrangeiros, clássicos ou modernos, e imaginamos a dificuldade que possa ser empreender numa tarefa tão difícil como escrever um livro. Apesar de tudo, cada vez são mais os indivíduos que, sem méritos conhecidos na área, resolver publicar romances.
O último navegador de Vergílio Castelo não é um bom livro e provavelmente nunca o virá a ser. O argumento parece saído de uma telenovela da TVI e o estilo do autor, embora não seja péssimo, é demasiado previsível, recheado de frases feitas e lugares-comuns, com personagens pouco desenvolvidas /trabalhadas numa ânsia brutal de descrever uma utopia de um Portugal futuro e adiado.
Não queremos com isto dizer que Vergílio Castelo escreva mal ou que o livro não tenha qualquer mérito. A obra até se lê com alguma facilidade e a narrativa tem algum sentido. Nota-se até alguma preocupação de incluir no livro algumas preocupações de natureza meta-filosófica. No entanto é tudo demasiado vulgar e banal sem sequer um pequeno vislumbre de brilhantismo, apenas uma sátira novelesca à sociedade actual.
Na generalidade dos casos, os livros que aqui temos criticado tem merecido uma observação positiva, no entanto este romance de Vergílio Castelo não pode de maneira nenhuma figurar entre aqueles que merecem a nossa distinção livro a não perder.

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

1 km de cada vez

1 km de cada vez é o mais recente livro de Gonçalo Cadilhe, o viajante-escritor e um dos mais prodigiosos artistas da palavra da actualidade.
Somos grandes fãs de Gonçalo Cadilhe. Desde que tivemos a oportunidade de ler o seu primeiro livro que nos apaixonámos pela prosa poética que são as descrições das suas viagens onde muito mais importante dos que os lugares visitados são as experiências recolhidas e os laços que se estabelecem com as pessoas.
Neste livro Gonçalo Cadilhe presenteia-nos com textos desordenados de lugares que visitou mas que o marcaram indelevelmente, desde as pequenas ilhas do Pacifico, às grandes Catedrais da Europa. Seja como for o lugar é pouco importante, porque relevante mesmo é o prazer que se retira da leitura.
Este é um livro emocionante. Cadilhe tem o dom da palavra e de cativar o leitor. Foram várias as vezes que não conseguimos deixar de ficar com os olhos emudecidos face ao brilhantismo da narração.
Cadilhe é português seguindo a boa tradição portuguesa: um povo de viajantes e de poetas. Num dos textos (A importância de não ser de lado nenhum) Cadilhe escreve-nos sobre o facto de os portugueses se considerarem um povo especial e refere que outros povos encontram na sua identidade algo de semelhante. Talvez seja como escreve o autor e não sejamos mais especiais do que os holandeses, os turcos ou os polinésios, mas ninguém viaja e escreve como nós e disso Cadilhe é o melhor exemplo da actualidade.
1 km de cada vez é absolutamente imprescindível. Não é um livro de viagem, é antes um livro sobre a vida.

segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

Todas as Cosmicómicas

Todas as Cosmicómicas é uma obra do italiano de origem cubana Italo Calvino.
Já aqui comentámos este fantástico e original escritor e tecemos elogios merecidos. Um livro deve expor uma determinada narrativa. A generalidade dos autores é capaz de o fazer com interesse e competência mas são muito poucos os que o conseguem fazer com genialidade, originalidade e brilhantismo. Estas são características reservadas apenas aos melhores e àqueles que se conseguem, efectivamente, distinguir.
Italo Calvino é um destes escritores que têm, quase obrigatoriamente, de ser lidos. A sua delirante imaginação, a sua impar capacidade de trazer à tona os mais profundos pensamentos sobre os quais se debruça o Homem são marca de génio e de vanguardismo literário e filosófico.
Todas as Cosmicómicas é um livro com vários contos onde Qfwfq, personagem principal, disserta sobre temáticas tão esotéricas como a origem da terra, das aves, dos meteoritos ou dos cristais e também sobre problemáticas tão filosoficamente densas como a noção de espaço e tempo.
Esta obra não é, devido à sua componente esotérica e metafísica, um livro fácil. Muitas vezes é, inclusive, difícil situarmo-nos no contexto da obra e seguirmos a complexidade do pensamento transcrito. Mas Todas as Cosmicómicas é um livro genial e como tal deve ser lido.

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Servidão Humana

Servidão Humana é um grandioso livro – estende-se por mais de 700 páginas – do inglês Somerset Maugham e talvez a sua obra-prima.
Temos vindo, ao longo dos últimos anos, a ler a obra deste escritor inglês (que foi também um dos grandes dramaturgos do século XX) com avidez e cautela, sendo que não podemos deixar de destacar O Fio da Navalha. A ASA fez agora o favor de republicar este fantástico romance.
Maugham é dotado de um enorme talento e capacidade de expressão. A sua escrita é leve, sem floreados ou arrebites, mas não deixa de ser profunda pelas questões que suscita e pelas personagens que são descritas.
Em Servidão Humana encontramos, como o próprio autor no prefácio refere, traços autobiográficos e experiencias reais reflectidas. Em Philip Carey, personagem central desta obra, verificamos existirem decalques da vida de Maugham podendo aquele ser considerado como um alter ego do autor. E Servidão Humana é um livro sobre Philip Carey, jovem órfão, que se vê confrontado com as dúvidas da juventude: Deus, a existência, o significado da vida, o destino, o amor, a condição humana.
Há obras marcantes, não tanto pela narrativa, mas sobretudo pelas questões que suscitam. Servidão Humana junta as duas coisas. Encontramos uma narrativa apaixonante (acompanhamos Philip Carey deste a juventude até à idade adulta), onde sofremos juntamente com a personagem, mas ao mesmo tempo somos despertados para um conjunto de questões de natureza meta-filosófica e sobre as quais não conseguimos deixar de pensar.
Servidão Humana é, reconhecido pela generalidade dos críticos, um dos grandes romances do século XX. A sua leitura é absolutamente obrigatória.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

As verdes colinas de África

As verdes colinas de África é uma obra do escritor americano premiado com um Prémio Nobel da Literatura em 1954 Ernest Hemingway.
Este romance, que é o resultado de um safari efectivamente feito por Hemingway durante a década de trinta, é um magnífico tratado sobre a arte da caça na qual o autor, na primeira pessoa, faz a descrição das caçadas feitas ao rinoceronte, ao leão, ao búfalo e ao antílope.
Hemingway, apesar de se auto-descrever como um fanfarrão (pelo menos no que diz respeito à caça) é, no nosso entender, um escritor despretensioso e profundamente realista. Das obras que temos lido sobre este escritor ficamos sempre com a ideia de que os seus relatos assentam sempre numa vivencia real das situações descritas, quer seja, como é neste caso (e pelo menos num outro), uma caçada, quer seja a passagem pela primeira guerra mundial (O Adeus às Armas), ou pela guerra civil espanhola (Por quem os sinos dobram).
Para mais Hemingway escreve de forma simples. Sem rodeios ou grandes artifícios é um grande contador de estórias que sabe como cativar o leitor e prende-lo à narrativa.
As verdes colinas de África é um clássico da literatura mundial e Hemingway um dos grandes artistas da palavra. Lê-lo não é importante é obrigatório, sendo que na temática das caçadas As verdes colinas de África é um livro essencial.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

A Capital

A Capital é, mais uma, brilhante obra do, provavelmente, maior escritor português de todos os tempos: Eça de Queirós.
Eça escreveu ao longo da sua vida um conjunto de romances de grande qualidade literária e que se destacam, não apenas pelo brilhantismo da sua metódica caracterização de personagens e locais, mais também, e provavelmente sobretudo, pela brutal e clarificadora crítica social.
Em A Capital a crítica social é feroz. A crítica que se faz não apenas à personagem principal Artur Corvelo, figura idiota, profundamente sensível, chegando mesmo a ser ligeiramente efeminada, provinciana e idílica, faz-se também à própria cidade de Lisboa, preenchida por gente enfatuada e que é retratada, nesta obra, como uma cidade de pecado, de falcatrua e de uma opulência pedante.
Eça de Queirós é genial. As suas personagens são tão bem descritas que conseguimos, inclusive, cheirar o seu perfume. Os ambientes, as noites no São Carlos, os serões nas casas ricas, os jantares nos hotéis caros e os passeios de tipóia – aliás presentes em muitas das obras de Eça – são pintados com cores verosímeis e claras.
A Capital é um grande livro. Brilhante, conspirador e vibrante. Artur Corvelo é uma personagem fascinante e o séquito de actores secundários adoça ainda mais esta novela. Eça é para ler, é o Portugal oitocentista e a bola de cristal do Portugal de hoje e, certamente, de amanhã. Este é um livro a não perder.

sábado, 21 de Novembro de 2009

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol é, mais um, magnífico e brilhante livro do escritor japonês Haruki Murakami.
Ao contrário de outros livros que temos lido do mesmo autor onde o surrealismo é uma constante, esta obra, que foi escrita em 1992 – embora só editada este ano no nosso país – é muito mais ligeira e retrata uma realidade possível.
Em A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, Murakami traz-nos, com uma precisão de poeta, a temática do amor e inunda-nos, durante as pouco mais de 240 páginas, com palavras simples, sensuais e emocionantes sobre a paixão. O jazz, o Japão no dealbar da década de 90, um homem simples, uma amizade eterna, um amor fugaz.
Murakami é um dos nossos escritores favoritos. O seu génio é na nossa opinião, um dos mais completos e complexos da actualidade e as suas narrativas perfumadas incomodam pelo quase excesso de qualidade e pela forma como conseguem tocar no leitor. Murakami é um poeta que escreve prosa, é um pintor que deseja caracteres, é um escultor que cinzela em páginas brancas estórias verdadeiramente maravilhosas.
A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol é um livro obrigatório. Não porque algum dia venha, eventualmente, a ser considerado um clássico, mas porque nos trás tudo aquilo que um livro deve trazer: emoções, sensações, perfume… É um livro, como todos os outros do mesmo autor, profundamente recomendável.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Uma aventura até ao Sul

Uma Aventura até ao Sul é um livro de viagens de Ewan McGregor e Charley Boorman, dois famosos actores britânicos que já antes nos haviam oferecido o célebre O caminho mais longo no qual, os dois, fizeram uma viagem de mota à volta do globo.
Somos fãs incondicionais de livros de viagens. Mas não quaisquer livros. Bons livros, que retratem não apenas e só os locais e os sítios visitados, mas que nos falem das experiências vividas e das pessoas marcantes conhecidas. Este será talvez o principal motivo que faz de Uma Aventura até ao Sul um excelente livro de viagens.
Ewan McGregor e Charley Boorman, à semelhança do que já haviam feito anteriormente, optaram desta vez por fazer uma viagem de mota desde John O’Groats na Escócia ao Cabo Agulhas na África do Sul.
Pelo caminho passaram por países magníficos onde a beleza natural dos desertos e a magnificência dos oásis os maravilharam, partilharam a savana com os animais em estado selvagem e fizeram, o mais que apelativo, percurso pelo fantástico continente africano.
Para mais, estes dois actores britânicos não se furtam a expressar o que sentiram nas visitas que realizaram. Relatam os seus encontros com os meninos soldados do Uganda, com o processo de desarmamento de minas na Etiópia ou com a tribo dos Samburu no Quénia.
Uma Aventura até ao Sul é um livro magnífico e que, certamente, todos os amantes de viagens vão adorar pelo que não podemos deixar de o aconselhar com a certeza de que só podem vir a gostar de o ler.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Quando Éramos Peixes

Quando Éramos Peixes é um livro de Neil Shubin, destacado paleontólogo e professor de anatomia que descobriu o Tiktaalik (fóssil de um antepassado do ser humano), sobre a história relativa à evolução do ser humano desde o surgimento da vida no planeta terra até aos nossos dias.
Este é um livro bastante semelhante a O nosso corpo de Keith Harrison, sobre a mesma temática e também seguindo a mesma linha de pensamento, mas ao contrário do livro de Harrison que é muito simples e claro, este é muitíssimo mais técnico o que faz com que seja em muitos momento maçador.
Shubin, aproveitando o facto de ter um saber de experiência feito, relata, baseando-se na teoria de que o Homem descende dos peixes, as principais características do ser humano actual e a forma como as adquirimos.
Quando Éramos Peixes é um livro interessante apesar de demasiado técnico para leitores que não estão familiarizados com os mais elementares princípios da biologia. Será, no entanto, uma excelente escolha para quem domina minimamente a matéria e quer descobrir um bocadinho mais sobre a evolução do Homem.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O nosso corpo

O nosso corpo é um interessantíssimo livro de Keith Harrison doutorado em zoologia que nos relata, de uma forma simples, objectiva e clara a evolução do ser humano desde o momento do surgimento da vida no planeta Terra até aos nossos dias.
Não somos especialistas na área deste livro o que faria com que, caso este fosse demasiado técnico, tivéssemos perdido todo o interesse no mesmo desde o primeiro momento. Não foi o caso, uma vez que a simplicidade de exposição por parte do autor nos conduziu numa viagem fantástica onde encontrámos respostas claras para questões muito complexas.
Esta obra é de facto interessante. Numa época em que Darwin e a sua teoria da Selecção Natural voltou a estar na moda, surgiram muitos livros sobre a temática. A evolução do ser humano é um assunto fascinante e que é, sem dúvida, objecto essencial da formação de um indivíduo como elemento conhecedor de si próprio.
O nosso corpo é um livro que pode ser lido por qualquer pessoa, dos mais velhos aos mais novos. É, sobretudo, uma óptima escolha para quem quer conhecer de forma clara o processo de formação da vida. É, portanto, uma obra que aconselhamos.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Estrela Errante

Estrela Errante é um romance de J. M. G. Le Clézio, escritor francês e Prémio Nobel da Literatura em 2008.
Nesta obra, escrita em grande parte na primeira pessoa por intermédio de duas personagens - embora relevadas de forma diferente - que parecem estar nos antípodas uma da outra (Esther, francesa, judia; Nejma, palestiniana) dá-se a conhecer a guerra, o desespero, a morte, a esperança e a alegria.
A fuga dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial é, cada vez mais, um marco literário com profusão de obras escritas. Neste caso faz-se referência à fuga dos judeus franceses em direcção ao Estado de Israel logo após a sua criação depois do fim da guerra.
Não deixa também de ser interessante a dicotomia criada. De um lado a criação do Estado de Israel, do outro a deslocação das populações palestinianas para campos de refugiados e a hecatombe social que tal situação criou.
Estrela Errante é uma obra poderosa. Le Clézio consegue dar-nos a conhecer algumas das mais vibrantes sensações do ser humano numa viagem à dor física e espiritual de duas mulheres que lutam por se encontrarem num mundo em convulção e mudança.
J. M. G. Le Clézio é um escritor polido. A sua escrita é simples e limpa e o argumento toca-nos pela proximidade temporal. Não existe recurso a arabescos ou subterfúgios de natureza vanguardista. A narrativa diz-nos algo porque nos conseguimos identificar com as personagens sentindo o seu sofrimento e a sua alegria.
Ficámos bem impressionados com este Nobel francês. Estrela Errante é uma obra bem conseguida e construída sob uma temática que nos parece estar ainda longe de estar esgotada. Esta é, sem qualquer dúvida, uma leitura que aconselhamos.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Os anões

Os anões é um romance (aliás o único romance) de Harold Pinter, Prémio Nobel da Literatura em 2005 e que se celebrizou na escrita de peças de teatro.
Esta obra, acaba aliás por ser, no seu estilo, um pouco parecida com uma peça de teatro. Para romance quase não tem narrativa sendo o seu texto quase exclusivamente composto por diálogos.
Esta obra, apesar de pequena (tem pouco mais de 200 páginas) é de difícil leitura. Tem poucas personagens – três homens (amigos) e uma mulher – mas, ao mesmo tempo, é de difícil contextualização espaço-temporal e os capítulos parecem fragmentos de uma vida constantemente interrompida.
Por isso é-nos difícil dizer qual o objecto desta obra. Talvez seja um romance sobre amizade ou sobre a moralidade. Talvez seja um romance sobre um duplo triângulo relacional. Talvez seja uma obra sobre a dificuldade do Homem se encontrar numa sociedade em reconstrução.
Seja como for em muitos momentos este foi um livro sedutor. Romance interrogativo e metafísico e muito bem escrito.
Apesar de tudo este não é um livro que aconselhemos a todos os leitores. O nosso tempo é escasso e existem tantos bons livros (provavelmente muitos bem melhores do que este) que talvez seja melhor ir lendo outros em vez deste.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

O livro do riso e do esquecimento

O livro do riso e do esquecimento é uma magnífica obra do escritor checo Milan Kundera.
Há muito tempo que não líamos um livro assim. É absolutamente soberbo, vertiginoso, eloquente e problemático. É uma obra de fôlego, um elogio à arte de bem escrever, uma verdadeira quimera.
Kundera – que já conhecíamos de A ignorância e de A insustentável leveza do ser – é um autor prodigioso. A forma como escreve – indo bem ao fundo da alma e questionando o sentido da existência – é deslumbrante. Cada capítulo, cada página, cada frase encerram significados metafóricos de uma profundidade alucinante.
O livro do riso e do esquecimento, não é no entanto, um romance vulgar. É antes, como escreve o próprio autor, um «romance em forma de variações». É sobretudo uma viagem ao imaginário mais profundo de Kundera mesclado com a ignomínia da realidade checa pós invasão dos tanques soviéticos.
As personagens são de uma densidade avassaladora. Homens e mulheres cujo interior é lentamente prostrado pela pena de Kundera. Homens e mulheres, ficcionados mas ao mesmo tempo reais, cujos pensamentos são artisticamente violados ao longo de pouco mais de 200 páginas.
O livro do riso e do esquecimento é uma das melhores obras que tivemos oportunidade de ler desde sempre. A sua leitura é profundamente recomendada. Talvez marque para muitos um ponto de viragem.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

O Psicanalista

O Psicanalista é uma obra (triller/policial) de John Katzenbach e revelou-se uma boa surpresa.
Habitualmente não temos a oportunidade de ler muitos livros deste género literário mas esta obra é, efectivamente, uma daquelas que não nos deixa indiferente e que nos obriga a ir sempre em procura das páginas e capítulos seguintes.
O Psicanalista não será certamente um livro a figurar entre os candidatos a Nobel da Literatura – não existe nenhuma inovação na narrativa e a escrita é muito simples – mas não é por isso que deixa de estar bem escrito. Julgamos que o maior talento que um escritor de livros policiais pode ter é ser capaz de deixar o leitor num estado de avidez constante. Nisso Katzenbach revela ser um mestre.
Esta obra narra a estória de um psicanalista que é confrontado com a já habitual temática da demanda. Perseguido pelo seu passado (na figura metafórica de um Rumplestiltskin) cabe-lhe desvendar um mistério que pode, ou não, salvar a sua vida.
Para além desta demanda terrena neste livro encontramos também uma outra busca: a procura da compreensão do passado e da natureza humana.
Para os amantes dos romances policiais O Psicanalista é um livro a não perder. Para aqueles cujo este estilo não é o mais apreciado, este, não deixa de ser uma boa alteração de hábitos.